O Jogo da Amarelinha e seus múltiplos percursos

Em janeiro, a Biblioteca do Centro Cultural São Paulo apresenta, em seu espaço físico, uma seleção de livros produzidos por escritores latino-americanos. As indicações compõem o nosso catálogo e todas as obras estão disponíveis para empréstimo.

Uma das sugestões que norteiam essa lista são os livros O Jogo da Amarelinha (1963) e Aulas de Literatura (1980), ambos do escritor argentino Julio Cortázar (foto).

Nascido em 1914, na embaixada argentina de Ixelles, na Bélgica, Cortázar regressa com sua família ao país de origem aos três anos de idade, após a Primeira Guerra Mundial, e passa a viver em Banfield, uma das cidades-satélite de Buenos Aires. Anos depois, o escritor de quase dois metros de altura se forma em Letras na Escuela Normal de Profesores Mariano Acosta e começa a dar aulas em cidades vizinhas. Seu primeiro conto a ser oficialmente publicado em uma revista, transpassado para o papel depois de um sonho, é Casa Tomada (1947), editado pelo escritor neofantástico Jorge Luis Borges.

Em 1951, Cortázar se muda para Paris e começa a produzir publicações com mais seriedade. Lá, trabalhou como tradutor e intérprete pela UNESCO, além de ter traduzido livros de escritores renomados como Edgar Allan Poe, Daniel Defoe e Marguerite Yourcenar.

Com a capacidade de manejar a realidade, o cotidiano e o invisível aos olhos, de tal forma que o leitor sente que poderá estar frente a um fato fantástico a qualquer instante ou que ações mais triviais do seu cotidiano revelarão algo extraordinário, Cortázar não mede excessos ao propor diversas possibilidades de leitura, abrindo mão do modelo tradicional de arquitetar a narrativa de um livro.

Embora seja conhecido, acima de tudo, pelo seu dinamismo em desenvolver contos, os quatro romances de Cortázar demonstram uma inovação de forma e escrita, ao mesmo tempo em que explora questões básicas sobre o homem na sociedade. Esses incluem Los Premios (1960), 62: Modelo para armar (1968) e o último livro publicado em vida, Libro de Manuel (1973).

Mas foram as histórias de Cortázar que mais diretamente reivindicaram seu fascínio pelo fantástico que o direcionaram para as colisões modernas típicas da cidade e do acaso, como Rayuela ou, traduzido para o português, O Jogo da Amarelinha.

Publicado em 1963, O Jogo da Amarelinha se alinha a um dos gêneros de livros que hoje podemos classificar como ficções em hipertexto ou apenas hiperficção. Em vez de oferecer o que Cortázar chamou de “história hipnótica”, que guia o leitor da primeira até a última página, esse livro oferece narrativas abertas e duas possibilidades de leitura, cuja ordem pode mudar de acordo com o direcionamento de páginas que o leitor decidir.

Traduzida para o português por Alberto Simões, a obra encoraja o leitor a ler os dois primeiros capítulos como uma única narrativa contínua: o conto fragmentado de Horácio Oliveira em Paris, até seu retorno à Argentina, quando começa a trabalhar em um asilo. Além disso, a abordagem dos capítulos pode se tornar um pouco complicada por sua natureza episódica, em que personagens vão brotando gradualmente entre monólogos e diálogos.

Segundo a análise feita pelo próprio autor no livro Aulas de Literatura, “a intenção de O Jogo da Amarelinha é eliminar toda a passividade na leitura, na medida em que seja possível, e colocar o leitor numa situação de intervenção contínua, página a página”.

A segunda possibilidade de leitura faz uso dos 99 fragmentos que Cortázar lista como Capítulos Expendidos. Ao percorrê-los, o leitor pode alternar entre “episódios”, de acordo com uma tabela que se localiza na introdução do livro, e construir uma segunda perspectiva mais completa sobre as ações propostas. Tal processo de leitura é o que dá sentido ao nome do livro, e esse jogo com o leitor é uma das inúmeras metáforas sobre a subjetividade radical da experiência de se ler a obra.

Percorrer O Jogo da Amarelinha, por si só, é como ler vários livros empacotados ao acaso de um. O retrato fiel da boêmia parisiense, repleta de intelectuais abatidos com os rumos tomados pela arte, a música, a literatura e o jazz – manifestações que influenciaram toda a característica literária do próprio escritor –, faz oposição à atmosfera paranoica e incômoda estabelecida em um asilo latinoamericano.

Em algumas passagens do livro, Cortázar explora, também, as técnicas de corte dos dadaístas e surrealistas para gerar frases estranhas e irregulares que mudam de perspectiva ou, simplesmente, param no meio do fluxo; em outras ele propõe a invenção de línguas, metáforas alienígenas ou estranhas situações familiares. Segundo ele, em outro trecho de Aulas de Literatura, “para conseguirmos ler O Jogo da Amarelinha, é preciso haver o questionamento da realidade por um lado e o questionamento do idioma por outro, e em terceiro lugar algumas maneiras de aproximar-se do livro que lhe deram uma maior flexibilidade”.

Embora o formato de O Jogo da Amarelinha seja digno da atenção e do elogio que recebeu, essa característica mais notável do livro é apenas uma das suas inúmeras inovações singulares. Ao longo de suas mais de 500 páginas, o trabalho de Cortázar é cheio de experiências tipográficas, linguísticas e conceituais que aumentam o leque de possibilidades e experiências.

Texto: Fernando Netto
Edição: Fernando Netto e Vinícius Máximo
Foto: Reprodução

Veja também:

La plenitud intermitente de ‘Rayuela’, por Juan Cruz (El Pais)

Diabolô literário, por Rosane Pavam (Carta Capital)

Julio Cortázar: mundos y modos, de Saúl Yurkievick, por Jack Farfán Cedrón (Revista de Letras)

*Publicado em 19 de janeiro de 2017

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