O rádio no CCSP e no Brasil: técnicas, gravações, podcasts

Não é uma grande novidade para a maior parte da população urbana que a qualquer momento e de qualquer lugar é possível acessar qualquer tipo de informação pela internet – o que já foi, em outras épocas, um papel proeminentemente designado a outros meios de comunicação, como a televisão e o rádio, guardadas as devidas proporções e os avanços tecnológicos de cada período. O rádio – tido como o primeiro equipamento voltado a uma comunicação dita “de massas” – alcançou seu auge no Brasil entre os anos 1940 e 1960 e continua a ser utilizado nos dias de hoje, embora em um formato atualizado e não com a mesma potência de décadas atrás. No CCSP, por exemplo, o LabRádio fica à disposição, todas as quintas-feiras, para que o público passe pela experiência de gravar em um estúdio de rádio, apresentando seus trabalhos e terminando o processo com uma gravação própria. Além disso, entrevistas e apresentações de bandas desconhecidas por parte do grande público são o fio condutor do programa Independente sim, mas não só!, gravado na Rádio Tatu e disponibilizado on-demand no Facebook e no site do CCSP.

A chegada e o auge do rádio no Brasil

Do início da difusão do rádio no Brasil até os dias de hoje, o formato sofreu uma série de alterações. A primeira transmissão ao vivo no país, que contou com um discurso do então presidente do Brasil Epitácio Pessoa, foi realizada na comemoração do centenário da independência com o objetivo de atrair capital estrangeiro para o país, mas foi apenas no ano seguinte, em 1923, que a primeira emissora de rádio, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, foi fundada por Roquette-Pinto, que conduziu o projeto por meio de arrecadações financeiras próprias e com outros jovens amigos da época. No mesmo ano, surgem a Rádio Club de Pernambuco, a Rádio Club do Paraná e a Rádio Educadora Paulista, em uma época na qual eram necessários a concessão do governo federal e um grande investimento em tecnologia para a abertura de uma estação.

Após o golpe de Estado dado por Getúlio Vargas em 1930 e o desenvolvimento do conflito armado no estado de São Paulo em 1932, a quantidade de emissoras dá um salto de 16 para 63, atingindo um número ainda maior na década seguinte, quando aproximadamente 111 emissoras brasileiras realizavam transmissões ao vivo. O grande sucesso do rádio tinha estreita relação com a alta taxa de analfabetismo da época, que atingia 55,4% da população e, querendo ou não, “colaborava” para que o rádio fosse a única forma de acesso a notícias e entretenimento (de músicas a radionovelas) para mais da metade dos brasileiros. Por ser um aparelho muito caro, grandes reuniões ao redor do rádio eram práticas habituais, tanto em casas maiores, de famílias mais ricas, como em grandes lojas ou até mesmo locais públicos – como a própria Discoteca Oneyda Alvarenga encontrada no CCSP, criada em 1935 e chamada, na época, de Discoteca Pública Municipal.

O rádio, assim, tornou-se um dos símbolos da Era Vargas (1930-1945), já que, após a implantação do regime ditatorial do Estado Novo, foi criado o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), responsável por censurar conteúdos que se opunham ao Estado e supervisionar propagandas governamentais feitas em programas como A Hora do Brasil (que teve seu título alterado para A Voz do Brasil em 1971 e permanece em atividade até hoje, embora sem o mesmo discurso explicitamente autoritário e patriota).

Ritmos como a polca, a valsa, o samba e o choro ocuparam as principais estações, que revelaram cantores como Mário Reis (1907-1981), Francisco Alves (1898-1952), Aracy de Almeida (1914-1988) e Dalva de Oliveira (1917-1972) e compositores como Jacob do Bandolim (1918-1969), que completaria 100 anos em 2018, e Noel Rosa (1910-1937), entre muitos outros. Ainda que as obras desses artistas sejam pouco divulgadas e revisitadas nos dias de hoje, a discografia de boa parte deles encontra-se em plataformas como o YouTube e o Spotify, nas quais podem ser acessadas e compreendidas as transformações e colaborações de cada artista para a música brasileira, com uma união de tendências norte-americanas a aspectos musicais e ritmos africanos e europeus, misturados e explorados com intensidade no Brasil.

A divulgação dos músicos por meio do rádio ia ao encontro das apresentações em cassinos famosos nas grandes capitais do Brasil na primeira metade do século XX, chegando até o ponto em que, com o advento da televisão e a popularização do rádio, artistas, jornalistas, comentaristas e radialistas em geral foram migrando de um meio para o outro, em um processo semelhante ao da internet e da televisão nos últimos anos. Por adicionar imagens, mesmo que ainda em preto e branco, àquilo que estava sendo escutado, a televisão tornou-se a novidade dos anos 1950 no país e, em meio ao contexto pós-guerra e à tentativa de redemocratização do Brasil, uma série de aparelhos foram instalados e espalhados por diversas partes das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, e um show, produzido pela TV Tupi, foi exibido ao vivo. O rádio, então, passou a marcar uma presença mais significativa na casa de pessoas de classe média-baixa, sendo substituído pela televisão em residências de famílias mais ricas.

Elementos da linguagem sonora e radiofônica

A discussão sobre o papel do rádio no Brasil iniciou-se na década de 1980, mas a estética radiofônica demorou para se tornar tema de pesquisas na área. Para grande parte dos pesquisadores, a linguagem radiofônica é composta pela voz humana, responsável por emitir o conteúdo e interagir com o público por meio da entonação, do timbre e da projeção de voz próprios; a música, que pode ser característica, funcionar como cortina (abertura e fechamento) de determinado programa ou quadro, uma vinheta ou ainda um fundo musical; efeitos sonoros, que imitam sons escutados no dia a dia (abrir a porta, digitar no teclado do computador, etc.); e, principalmente, o silêncio, que sempre origina o som e que, dependendo da duração, fornece oportunidades para o ouvinte preencher uma lacuna deixada pela transmissão.

No início, a maior parte das emissoras funcionava em AM (Amplitude Modulation, com ondas sonoras mais baratas) e FM (Frequence Modulation, caracterizada por ondas sonoras de menor alcance, ainda que mais resistentes a interferências). Ambas são difundidas com o auxílio de frequências específicas na [onda] portadora, definida como um sinal analógico em forma de onda, que será alterado a fim de representar a informação a ser transmitida.

A captação do som é geralmente feita com microfones chamados de boom e de lapela, podendo ser registrada diretamente pelo gravador, pela mesa de som ou pela câmera (quando a gravação pressupõe vídeo e áudio, sem ser este o caso do rádio que acompanhamos aqui). Já o processo de edição contempla a retirada de ruídos dos diálogos (dependendo da qualidade e do espaço de captação), a criação de dublagens, de jingles e de demos, e o tratamento e balanceamento de cada segmento de áudio, posteriormente conectados entre si no processo da mixagem de som, responsável por harmonizar e combinar todos os elementos em um console de mixagem ou software mixer, incorporando efeitos e possibilidades sonoras raramente conseguidas ao vivo em uma gravação simples.

Outros recursos, como a equalização – a alteração de parâmetros da curva de resposta em frequência em kHz (quilohertz) do sinal de áudio – e o reverb – semelhante a um eco, já que possibilita a simulação da reflexão e reverberação do som em determinado lugar –, também são frequentemente utilizados, além de várias outras possibilidades oferecidas por aparelhos e mesas de som mais modernos.

Mais comumente utilizado nos dias atuais, o podcast é um arquivo de áudio disponibilizado por streaming, com duração de aproximadamente uma hora. O termo é caracterizado pela junção de “pod” – sigla para “Personal On Demand”, introduzido pela primeira vez no nome “iPod” (um tipo de aparelho da Apple Inc.) com o termo em inglês “broadcast” (radiotransmissão, em tradução direta). Por mais que diversas estações de rádio continuem produzindo conteúdos ao vivo ininterruptamente, transmitindo a narração de programas como jogos de futebol, premiações internacionais e a íntegra de músicas brasileiras e estrangeiras, hoje em dia é seguro dizer que o acesso às rádios se dá principalmente em contextos móveis (dispositivos à parte instalados em automóveis, aplicativos em celulares, etc.), tornando o podcast uma opção para pessoas de gerações mais novas, já habituadas, de certa forma, a assistir ou escutar o que quiser no momento em que desejar, pouco se prendendo à programação de emissoras e canais abertos.

Como as conexões (físicas e virtuais) aumentaram e a quantidade de opções presentes hoje se aproxima muito mais da realidade de boa parte dos brasileiros que possuem uma situação econômica mais confortável, a maior parte da população alfabetizada não depende mais do rádio como principal meio de adquirir informações. Além disso, a taxa de analfabetismo atual é de 7,2% e o grande objeto de desejo, responsável por difundir informações, consideravelmente mais imediatas e recentes do que aquelas transmitidas pelo rádio, é o celular, inserido num contexto no qual o problema maior não é o acesso ao conteúdo, mas a procedência deste – em qualquer veículo de comunicação –, tornando incoerente uma comparação direta com 80 ou 90 anos atrás.

O estúdio de rádio do CCSP

As duas principais atividades desenvolvidas no estúdio de rádio do CCSP são o LabRádio e a gravação de programas da Rádio Tatu no Ar – que possui este nome pela localização do estúdio da rádio dentro do espaço do CCSP (de certa forma, “embaixo da terra”, na altura do metrô) e ainda pelo trocadilho da interação direta com o público, com a ideia de “(es)tá tu no ar”. Enquanto, atualmente, se centralizam em apresentações e entrevistas com bandas independentes, as gravações tiveram início como programas experimentais on-demand pelo site e agora podem ser encontradas no Facebook da própria rádio.

A Rádio Tatu é uma transmissão ao vivo feita através da internet que se iniciou em 2014, com o uso de um carrinho – originalmente utilizado como uma espécie de “brinquedoteca” (para atividades mediadas pela equipe de Ação Cultural do CCSP) chamado pelos funcionários de “tatu-bola” – que realizava gravações externas relacionadas à programação no CCSP. O artista Leandro Nerefu entrevistava o público em um formato dinâmico e mais informal com qualidade experimental, registrando atividades como a abertura da exposição anual de Ikebana (arte floral japonesa).

No início, a rádio contava com produtores e ainda um site com serviço on-demand – hoje encontrado no Facebook. Tempo depois, a rádio retornou em um formato de revista digital com aquilo que acontecia na programação do CCSP e retornou, mais tarde, passando da transmissão regular ao funcionamento como um ateliê aberto ao público, como a Folhetaria do CCSP, aproveitando o espaço para receber pessoas e divulgar trabalhos que dialogam com várias artes, da contação de histórias aos rappers.

A divulgação de bandas independentes iniciou-se em um programa fixo, produzido na rádio do CCSP, com o projeto Independente sim, mas não só!, no qual grupos musicais são entrevistados toda semana, sendo que a seleção das bandas ocorre de acordo com o edital de chamamento dessas bandas e, em toda última terça-feira do mês, a partir de fevereiro de 2019, apresentações gratuitas dos grupos selecionados são realizadas na sala Jardel Filho. Para Marta Fonterrada, uma das entrevistadoras da Rádio Tatu e também parte do grupo responsável pelo LabRádio do CCSP, a principal intenção da atividade é de “ceder o espaço para promover artistas que ainda não possuem um grande reconhecimento pela maior parte da população”.

Já o LabRádio varia de duração conforme a proposta de quem grava o programa: de locutores a rappers, o espaço é cedido para a apresentação da atividade de quem se inscreveu e reservou o espaço. A gravação é registrada em mídias como compact discs (CD) ou pendrives, sendo entregue ao usuário após a sessão. Abaixo, a foto mostra parte do atual estúdio de rádio do CCSP.

Das cartas à internet, os meios de comunicação acompanham seu tempo, revelando e constituindo transformações sociais que vão além daquilo que vivemos e nos habituamos a fazer. Nesse sentido, tudo aquilo que registramos é capaz de refletir, de alguma forma, a realidade que vivemos, tendo, ao mesmo tempo, uma duração limitada ao público em geral, que se volta para uma maior praticidade e a busca pela novidade de sua época; e uma duração ilimitada no sentido de pesquisas futuras, que vão procurar estabelecer os meios de comunicação de cada período tempos depois.

Hoje, programas de rádio continuam a ser consumidos por grande parte da população, entrando no radar de quem sai para trabalhar cedo e coloca a estação de sua preferência no rádio do carro ou ainda quem escuta rádios por aplicativos e/ou sites das estações para conhecer músicas novas e saber como está o trânsito em cada ponto da cidade. Por mais que a preferência de novas gerações, na maior parte das vezes, seja o uso de podcasts, aplicativos como o Google e o Spotify oferecem um serviço on-demand que poderia ser escutado apenas na transmissão do respectivo canal – mais ou menos o que ocorre com canais de televisão e seus serviços de streaming correspondentes.

O que se observa, dessa forma, é a coexistência de todas estas plataformas, que permitem tanto ao ouvinte quanto ao espectador se adaptar ao horário do rádio ou televisão e vice-versa. Embora a organização de registros se divida em nichos, que podem levar o usuário a ouvir e assistir sempre os mesmos tipos de conteúdos, nunca houve tanta diversidade e acessibilidade nas mídias de um modo geral – no Brasil e no mundo –, o que nos possibilita entrar em contato com uma série de pensamentos, ações e discursos, ao mesmo tempo em que se exigem um filtro mais cuidadoso e uma apuração mais precisa da informação às quais estamos submetidos.

+Para saber mais:

CABRAL, Sérgio. A MPB na Era do Rádio. Coleção Polêmica. 2ª edição. São Paulo: Editora Moderna, 1996.
MARTINS, Fábio. Senhores clientes, no ar… A Cidade e o Rádio. São Paulo: Editora C/Arte, 1999.
MATTOS, David José Lessa. Pioneiros do Rádio e da TV no Brasil. São Paulo: Editora Códex, 2004.

Texto: João Vitor Guimarães
Colaboração: Marta Fonterrada (Ação Cultural do CCSP), Chicão Santos, Débora Correia e Jéssica Barreto (Audiovisual da Comunicação do CCSP).
Ilustração: Beatriz Vecchia

*Publicado em: 28 de fevereiro de 2019

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