22/05
- Sexta-feira
- 18h – O homem raptado
20h – A dama da morte - Sala Circuito Spcine – Lima Barreto
- Classificação indicativa: 12 anos
- Grátis, com retirada de ingressos na bilheteria física do CCSP, 1h antes de cada sessão
- Cadastre-se e conheça a nova bilheteria informatizada
“Filme como um objeto no espaço: Um olhar sobre acervos de cinema” é um evento bimestral de cineclube com o propósito de mostrar as diferentes faces da preservação de cinema, por meio de filmes de diferentes períodos e países que foram preservados digitalmente nos últimos 20 anos. As cópias dos filmes vêm de instituições públicas e privadas que são voltadas à preservação, com o intuito de mostrar seus arquivos e o trabalho que envolve levar um filme antigo de volta ao público. O evento acontece no formato de sessões duplas de cinema para representar os acervos, com apresentações antes das exibições pelos curadores e organizadores do evento, Aaron Cutler e Mariana Shellard (da produtora Mutual Films).
A Cinemateca Nacional do Chile (Cineteca Nacional de Chile) é a instituição responsável por salvaguardar, preservar e divulgar o patrimônio cinematográfico e audiovisual do seu país. É membro da Federação Internacional de Arquivos de Filmes (FIAF) e da Coordenadoria Latino-Americana de Arquivos de Imagem em Movimento (CLAIM). Foi inaugurada em 7 de março de 2006 dentro do complexo do Centro Cultural La Moneda, em Santiago. Mas, desde março de 2025, deixou a estrutura do centro cultural e se tornou um órgão estatal, como parte do Serviço Nacional de Patrimonio Cultural no Chile. A equipe da Cinemateca atualmente se encontra no processo de digitalização do acervo da instituição, inclusive no reescaneamento de vários filmes em 2K para 4K.
Ao longo da sua existência, a Cinemateca tem feito um trabalho exemplar de disponibilizar seu acervo fílmico gratuitamente para o público, por meio de seu website cclm.cl, além de realizar mostras regulares em suas duas salas de cinema. A sessão dupla no Centro Cultural São Paulo reproduz parte da mostra “Cine chileno: 80 anos” (https://www.cclm.cl/festivales/cine-chileno-80-anos/), que foi realizada entre janeiro e fevereiro deste ano para coincidir com a exposição panorâmica sobre o cinema chileno “Cinema em Chile: Historia(s) em movimento” (https://www.cclm.cl/exposicion/cine-en-chile/), que segue em cartaz no Centro Cultural La Moneda até o fim de maio. Para a mostra na Cinemateca, foram escolhidos todos os filmes chilenos do ano de 1946 que sobreviveram ao tempo, graças às cópias em 16 mm que foram encontradas no acervo da televisão chilena. Juntos, os quatro filmes representam um momento alto para o estúdio nacional Chile Films (criado em 1942), que contratou diversos técnicos e atores do exterior para aumentar suas produções. Também representam gêneros cinematográficos diversos, como comedia e melodrama (ambos dirigidos por Roberto de Ribón). No CCSP, passarão um thriller dirigido pelo também cartunista Jorge Délano “Coke” e um filme de terror dirigido pelo argentino Carlos Hugo Christensen, também conhecido por seus trabalhos no Brasil.
Agradecimentos especiais pela realização do recorte paulistano da mostra vão para a equipe da Cinemateca Nacional do Chile, em particular, Francisco Venegas Paiva, Liam Fang Arriagada e Marcelo Morales. Agradecimentos também vão para o curador brasileiro de cinema Leonardo Bomfim Pedrosa por traduzir os dois filmes para português, e por sua ajuda na pesquisa, o cineasta chileno Joaquin Cociña e os curadores de cinema Raúl Camargo, Vanja Milena Munjin Paiva e Victor Guimarães. As exibições são dedicadas às memórias do ator norte-americano Robert Duvall (1931-2026) e dos cineastas argentinos Adolfo Aristairain (1942-2026) e Luis Puenzo (1946-2026).
PROGRAMAÇÃO:
18h – O homem raptado
20h – A dama da morte
FILMES:

O homem raptado
El hombre que se llevaron, Jorge Délano “Coke”, Chile, 1946, 77 min, 35 mm para 16 mm para DCP, 12 anos
Um filme de suspense em que uma escritora argentina aceita viajar de carro com dois policiais, um homem algemado e uma mulher misteriosa para atravessar a Cordilheira dos Andes. Uma tempestade os obriga a buscar refúgio em uma cabana habitada por um homem velho com inclinações para o esoterismo. Ao longo da jornada, descobrimos a história do perigoso Roberto Brunner e os motivos de sua prisão. Em um momento de desatenção, o prisioneiro e a mulher escapam do olhar atento das autoridades, resultando eventualmente em um tiroteio no bosque nevoado ao redor da cabana com um trágico e comovente final.
O homem raptado foi dirigido por um dos mais prolíficos cineastas da época do cinema narrativo clássico no Chile, Jorge Délano (1895-1980), que também trabalhou como cartunista (sob o nome de “Coke”) para a revista Topaze, onde se especializou em sátira política com personagens como Juan Verdejo. Estudou de perto o cinema hollywoodiano no final da década de 1920 e eventualmente dirigiu o primeiro filme sonoro de seu país, o longa-metragem Norte y sur (1934). Na década de 1940, ele fez O homem raptado e outros filmes, como a comédia Hollywood es así (1944), através da sua produtora Estudios Santa Elena. Délano trabalhou com uma mão muito livre em relação aos gêneros cinematográficos e um toque diretorial muitas vezes surrealista, algo que se evidencia em O homem raptado, com diversos flashbacks que aparecem ao longo do filme para nos aproximar das circunstâncias de Roberto Brunner. O homem raptado acabou sendo o último longa-metragem de Délano, devido ao seu prejuízo na bilheteria e o fechamento do Chile Films por motivos financeiros em 1949. Os filmes do cineasta caíram no esquecimento público, e o trabalho da Cinemateca Nacional inclui o resgate do maior número possível de suas obras. Pelo que se sabe, a exibição de O homem raptado no CCSP marca a primeira exibição pública do filme fora do Chile.
A dama da morte
La dama de la muerte, Carlos Hugo Christensen, Chile, 1946, 77 min, 35 mm para 16 mm para DCP, 12 anos
O filme A dama da morte se passa em Londres na segunda metade do Século XIX. Ele conta a história de um jovem inglês da alta sociedade, Roberto Braun, que perde todo o seu dinheiro na roleta e decide tirar a própria vida. O atentado é interrompido por um homem misterioso que convida Roberto a participar de um clube de suicídio, cujos integrantes masculinos da alta sociedade londrina jogam cartas, entre as portas de uma respeitável casa, para determinar quem morrerá. Roberto encontra o seu destino marcado pela rainha de copas, com uma semana de vida dada a ele, porém já não tem a mesma convicção.
A dama da morte é considerado o primeiro filme de terror chileno, devido ao seu foco no suspense e à sua atmosfera, que mescla o macabro com o misterioso. Ele é baseado na coleção de contos O clube dos suicidas (The Suicide Club, 1878), originalmente publicado em inglês pelo escritor escocês Robert Louis Stevenson. A ambientação londrina do filme, que se passa em algumas poucas locações, foi construída inteiramente nos estúdios da Chile Films em um momento quando o estúdio desejava alcançar maior sucesso internacional. Para isso, os donos da Chile Films contrataram diversos técnicos e autores da então mais avançada indústria cinematográfica argentina, entre eles, o roteirista do filme (César Tiempo) e o cineasta Carlos Hugo Christensen (1914-1999). O diretor de A dama da morte foi um raro caso de um cineasta trans-latino, que trabalhou no Chile, Peru e na Venezuela, além do seu país de origem, até se estabelecer de forma definitiva no Brasil, a partir do final da década de 1950. Enquanto Christensen realizou diversos filmes importantes no Brasil, como Mãos sangrentas (1954) e O menino e o vento (1966), A dama da morte ficou como sua única produção chilena. O filme já carrega o olhar gótico que Christensen traria para suas obras subsequentes, algo que o ajudou a se tornar um sucesso cult dentro de Chile em anos recentes após sua redescoberta pela equipe da Cinemateca Nacional.