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Por Alexandre César | Redação CCSP | Fotos: Arquivo pessoal

24/4/2026

Na última quarta-feira, 22, estreou a peça Agora, na Sala Ademar Guerra, no Centro Cultural (CCSP), e estará em cartaz até 26 de abril.

No espetáculo, uma antiga loja de relógios persiste existir num mundo que não sabe mais fazer as marcações do tempo. Nesse ambiente, os funcionários do estabelecimento convivem sem muita esperança num sociedade cada vez mais angustiante e frenética, assemelhando-se como nos dias atuais.

Com a plateia praticamente lotada e arrancando risadas, a estória baseia-se em conflitos pessoais e morais em que pessoas do nosso cotidiano passam todos os dias, como a angústia de ir trabalhar em ambientes e funções sem quaisquer alegrias; esperar serviços de outrem, sem qualquer esperança de resolução; e até mesmo de lembrar com saudosismo um tempo que não volta mais.

Já atento às modernidades atuais, o estudante de Medicina, Jonatas Santos é de uma geração que já não usa mais relógio de pulso, e além de falar sobre a falta da peça, respondeu a uma das perguntas dos atores ao público: “Quantos anos você daria da sua vida em troca do corpo perfeito”?

Acho que as pessoas mais jovens cada vez menos usam relógio, acho que o celular realmente se torna o nosso marcador de tempo e o nosso guia para as horas e para tudo o mais que a gente faz, não é? Eu tenho 25, e sobre a pergunta deles, eu daria poucos anos de vida por um corpo e saúde perfeitos, mas talvez quando eu tiver mais velho, eu daria um pouco mais, não é? – disse o estudante entre risadas.

Sua namorada, a advogada Ana Luísa, também de 25 anos, comentou sobre a facilidade do uso do aparelhe celular para marcar o tempo e outros compromissos, mas que não descarta a velha tecnologia.

Eu achei a peça muito interessante, com várias reflexões valiosas sobre a nossa percepção de tempo ou até nosso uso das ferramentas e símbolos associados ao tempo. Eu marco meu tempo normalmente pelo celular, eu acho que isso também contribui para as novas gerações estarem sempre conectadas ao celular, sempre abrindo, pesquisando… E o meu relógio de pulso está quebrado, mas o que eu tenho também é digital, então, também não é o símbolo clássico do tempo, que é o relógio analógico, e ainda assim, estimula a gente a estar conectado, a receber as mensagens em tempo real – argumentou.

Para Sarah Lessa, a atriz do espetáculo, a peça traz muitas reflexões, não só pelas características que ligam a ficção à realidade, mas pela própria percepção de mundo que antigas e novas gerações têm do hoje e do agora.

Olha, eu enxergo que hoje, todo mundo está sendo atravessado pela falta de tempo. Eu, pessoalmente, tenho uma sensação muito doida de que o tempo está mais rápido do que ele era. Quanto mais velha eu fico, parece que o tempo passa mais rápido. Porque a sensação que eu tinha de que quando eu era criança é que o tempo era outro, assim como dos meus avós, também era diferente. E agora eu me vejo tendo que me desdobrar em mil, fazer mil coisas, correr atrás para dar conta de uma vida. Então, acho que o tempo realmente ele está diferente. E por isso eu acho que estamos todos passando juntos por esse colapso, de alguma maneira, do tempo. Se eu pudesse, gostaria de ter 15 horas para dormir, porque a sensação que eu tenho também é que eu deito, durmo, mas eu não descanso exatamente, que eu estou tão preocupada com tanta coisa, e se não relaxo, eu não descanso. De certa forma, vemos realização no trabalho, e sobre isso, adoraria agradecer ao CCSP pela oportunidade e pelo espaço, onde tanta arte e cultura passa por aqui todos os dias. Tenho enorme gratidão a todos aqui – disse a atriz.

Já o ator Vitor Albuquerque, argumentou que Agora traz tramas mais que atuais, principalmente de questões políticas contemporâneas do Brasil.

A gente está atravessando um momento no país em que discutimos escala de trabalho, e a gente vê claramente a divisão de realidade das pessoas. Se a gente for pensar em pessoas que trabalham seis vezes por semana e moram na periferia, e ainda têm que atravessar a cidade para chegar ao centro, e ainda gastam duas, três horas de transporte, quanto tempo de vida cada pessoa desperdiça ou perde para conseguir executar o seu trabalho e viver de maneira minimamente digna? Então, eu acho que a maneira da velocidade das coisas está fazendo com que o ser humano se degrade com mais velocidade. Então, a peça traz essa metáfora de que o tempo e marcar hora não existem mais. Uma das metáforas é sobre a extinção de algumas profissões, pegamos a do relojoeiro, que também é suprimido pela pela necessidade de evolução, e isso faz parte do processo de avanço tecnológico. Mas a gente traz o relojoeiro como uma metáfora mais importante do que apenas consertar relógio, que é a metáfora de um lugar que marcava o tempo, que ajudava a gente a pensar no tempo. Uma loja que você entra e que você esquece que o tempo existe – encerrou o artista.

Para saber os dias e horários das próximas apresentações, consulte o site do CCSP.

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