Por Camila Martins* | Redação CCSP | Fotos: Arquivo
10/03/2026

Confira toda programação do CCSP

Você irá encontrar: Artes Visuais, Ação Cultural, Cinema, Dança, Literatura, Música e Teatro.

Cada Tijolinho do CCSP

Registro Oral, Escrito e Imagético das Histórias de Quem Construiu e Constrói o Centro Cultural São Paulo

A existência das mulheres, por si só, constitui um ato político. Nesta série de entrevistas, apresentamos vozes plurais e potentes que transformam o Centro Cultural São Paulo em um equipamento público verdadeiramente comprometido com o acesso, o respeito, o lazer e a educação. Em um ecossistema como o CCSP, a ocupação do espaço carrega um simbolismo profundo: ao percorrer seus corredores, bibliotecas e salas, cruzamos com o legado de figuras históricas como Oneyda Alvarenga e Lizette Negreiros, e com a dedicação das inúmeras servidoras que constroem essa trajetória no presente.

Quem são as mulheres que pensam a curadoria? Como se dá o olhar feminino na linha de frente, entre a vigilância, o controle de acesso e a coordenação da nossa Rádio? Através de cinco perguntas, adentramos ao universo particular, distintos  posicionamentos que se diferenciam e contemplam as diferentes vivências e repertórios de cada mulher que, em sua diversidade de vivências e repertórios, revelam a amplitude da potência feminina na gestão da cultura.

Rosemeire Araújo
Lider controle de acesso

Mais do que uma rosa entregue, o Dia das Mulheres é um marco político para promoção da equidade de direitos em detrimento da construção social patriarcal. Como você enxerga a existência desta data mundialmente reconhecida?

Eu enxergo o Dia Internacional da Mulher como um dia de memória, de luta e também de esperança. É quando o mundo para para lembrar tudo o que as mulheres já conquistaram, mas principalmente tudo o que ainda precisamos conquistar. É um dia que celebra a força, a coragem e a capacidade da mulher de transformar a sociedade todos os dias

Qual a importância de olharmos ao nosso redor e observarmos mulheres de diferentes perfis dentro e fora dos palcos em um dos maiores centro culturais da América Latina?

Ver uma mulher é reconhecer a história, a coragem e a luta que existem por trás de cada uma de nós. Dentro e fora dos palcos, nós não queremos apenas ser olhadas. Queremos ser vistas, ouvidas e respeitadas.

Como o olhar advindo da vivência como mulher transforma seu trabalho e este espaço? E como você vê a presença das mulheres nos cargos de liderança e decisão dentro da estrutura cultural hoje?

Eu me vejo como uma mulher que abre caminhos. Ser líder aqui é representar tantas outras mulheres que vieram antes de mim e também aquelas que ainda vão chegar. É provar todos os dias que lugar de mulher é onde ela quiser — inclusive liderando.

Assim como sua atuação transforma este espaço por meio do seu trabalho, você já vivenciou algum momento protagonizado por uma mulher (ou mulheres) no CCSP que tenha te emocionado ou marcado profundamente a sua trajetória?

Ao longo da minha trajetória no Centro Cultural São Paulo, muitas situações marcaram o meu protagonismo. Eu comecei trabalhando na limpeza e hoje tenho a honra de ser líder dos controladores de acesso. Nesse tempo, convivi com muitas pessoas, especialmente muitas mulheres incríveis. Cada uma delas tem um papel enorme aqui dentro. São mulheres dedicadas, queridas e trabalhadoras. Eu já presenciei muitas histórias e desafios, e por isso digo com muito orgulho: todas elas estão de parabéns, porque fazem um trabalho maravilhoso e ajudam a construir todos os dias a força e a beleza deste lugar

Quem é uma mulher que te inspira e que você gostaria de apresentar ao público do CCSP, para que mais pessoas possam conhecer sua história e seu trabalho?

Taís Araújo. Ao longo da carreira, Taís enfrentou muitos desafios e preconceitos dentro da televisão brasileira. Mesmo assim, nunca desistiu. Pelo contrário: usou sua voz para abrir caminhos para outras mulheres negras na arte.

Iris de Souza
Administrativo Ação Cultural

Mais do que uma rosa entregue, o Dia das Mulheres é um marco político para promoção da equidade de direitos em detrimento da construção social patriarcal. Como você enxerga a existência desta data mundialmente reconhecida?

Eu enxergo o Dia Internacional da Mulher como uma forma de chamar atenção para as diversas desigualdades sociais e violências institucionais para todas as mulheres de todos os gêneros, para lembrar de que algo ainda precisa ser mudado, caso contrário o evento não existiria.

Qual a importância de olharmos ao nosso redor e observarmos mulheres de diferentes perfis dentro e fora dos palcos em um dos maiores centro culturais da América Latina?

A importância de observarmos mulheres de diferentes perfis ocupando espaços dentro e fora dos palcos do CCSP é que de alguma forma elas estão reconhecendo a importância que possuem no Universo e que somente elas podem mudar a realidade, mostrando a que vieram, pressionando autoridades a inserirem em todos os espaços, internos ou externos estes perfis, para não ficarem à margem do que virou imprescindível mundialmente, que é tirar estas mulheres dos bastidores e mostrar quem sempre esteve lá. 

Como o olhar advindo da vivência como mulher transforma seu trabalho e este espaço? E como você vê a presença das mulheres nos cargos de liderança e decisão dentro da estrutura cultural hoje?

Como mulher no serviço público e  especificamente no CCSP, sinto que pressionamos na direção da criatividade com recursos escassos, de uma forma naturalmente feminina. Quanto à presença das mulheres nos cargos de liderança e decisão dentro da estrutura cultural hoje, vejo como politicamente obrigatória e não ainda como natural. Ainda a presença forte e emocionante foi a trajetória da Lizete Negreiros, onde presenciei uma Premiação

Quem é uma mulher que te inspira e que você gostaria de apresentar ao público do CCSP, para que mais pessoas possam conhecer sua história e seu trabalho?

Minha trajetória é administrativa, então alguns nomes, sem sobrenomes como Mara, Assessora Administrativa aposentada, Maria Luísa Anunciação, contadora falecida, Rosário, Assistente Social de carreira e Secretaria de Cultura Substituta, e culturalmente ainda Lizete Negreiros. Ainda a presença forte e emocionante foi a trajetória da Lizete Negreiros, onde presenciei uma Premiação.

Gui Miralha
Curadora de Teatro

Mais do que uma rosa entregue, o Dia das Mulheres é um marco político para promoção da equidade de direitos em detrimento da construção social patriarcal. Como você enxerga a existência desta data mundialmente reconhecida?

Nós estamos vivendo um momento horrível de retrocesso, onde nós mulheres cis, mulheres trans e travestis, estamos sendo assassinadas todos os dias. Todo dia é um caso diferente de feminicídio, de transfobia. 

Só que também, todo dia você lê que uma mulher descobriu a cura para alguma doença, e que uma mulher tá conseguindo vencer a jornada dupla, se colocar inteira no mundo.  Porque temos que nos poder inteiras! Nos nossos desejos, em nossas profissões, com as pessoas que nós escolhemos nos relacionar… 

Ainda não ganhamos o mesmo que os homens e não temos os mesmos privilégios, mas, apesar da tragédia do dia a dia, nós estamos fortalecendo o nosso discurso e nossa presença na sociedade. E, isso, vai friccionando essa desigualdade histórica entre os homens e nós mulheres. 

Qual a importância de olharmos ao nosso redor e observarmos mulheres de diferentes perfis dentro e fora dos palcos em um dos maiores centro culturais da América Latina?

É muito emocionante estar sendo entrevistada, sendo uma travesti no Dia Internacional da Mulher. Aqui no Centro Cultural São Paulo nunca houve uma curadora travesti. A gente programa homens e mulheres, mas a minha curadoria tem um olhar muito afiado para mulheridade. A maioria das mulheres que eu curei, trans e cis, pisavam no palco da Jardel ou até mesmo no porão, no Espaço Cênico Ademar Guerra e falavam assim, ‘Obrigada, achei que ninguém nunca ia me colocar aqui. Era meu sonho’. Isso aconteceu com a Fábia Mirassos, com a Ana Flávia Cavalcante… Nunca ouvi isso de um homem, por exemplo. Porque quem ocupa a cadeira define quem passa por aqui e quem assiste também. Então isso é tudo! E é de uma responsabilidade imensa, porque São Paulo é a maior metrópole da América Latina, chegam projetos pra gente de todo país e da América do Sul.

Como o olhar advindo da vivência como mulher transforma seu trabalho e este espaço? E como você vê a presença das mulheres nos cargos de liderança e decisão dentro da estrutura cultural hoje?

Ser uma travesti neste lugar, que nunca teve uma curadora travesti em 43 anos, está justamente na definição dos corpos que habitam esse espaço e, consequentemente, de quem o frequenta. 

Meu primeiro recorte curatorial intitulei ‘Individuais e Múltiplas’: três solos de três mulheres pretas. Eu já vinha com esse desejo de tirar nós artistas de blocos homogêneos. Porque assim como acontece com travestis, mulheres pretas são tratadas como um grupo único. Por isso, programei três monólogos completamente diferentes entre si, com mulheres em momentos distintos da vida e com pesquisas muito próprias. Foi um caminho de tentar apontar para uma curadoria que não vem para simplificar ou reduzir nossas existências. 

Penso nos meus recortes quase como uma “dramaturgia do coração”. Acabo elencando artistas que admiro muito e que considero um grande serviço para a história do teatro brasileiro. Alguns têm maior visibilidade midiática, o que também ajuda a trazer luz para um equipamento como esse. Ao mesmo tempo, busco abrir espaço para artistas emergentes, cujo trabalho tem qualidade equivalente, mas ainda não teve a mesma exposição.

É um trabalho árduo no sentido de equilibrar esses pratos. Somos servidores públicos, então devemos satisfação à sociedade. Para mim, a escolha não pode ser filantrópica, do tipo “vou colocar só porque é uma pessoa dissidente”. Existe, sim, uma dimensão de reparação histórica, mas não é apenas isso: a qualidade do trabalho também precisa estar no centro.

Marta Foterrada
Coordenadora da Rádio

Mais do que uma rosa entregue, o Dia das Mulheres é um marco político para promoção da equidade de direitos em detrimento da construção social patriarcal. Como você enxerga a existência desta data mundialmente reconhecida?

A data é muito importante, pois representa a eterna  luta das mulheres por direitos iguais, por respeito e dignidade. 

Claro que temos de pensar na questão da discriminação da mulher sempre, mas o dia é importante por reunir forças e promover reflexões sobre conquistas  alcançadas e continuar lutando. No ano passado o Brasil registrou quase 7000 vítimas  de casos consumados e tentados de feminicídio, um aumento de 34% em relação ao ano anterior. Isso nos mostra o quanto ainda temos de lutar, proteger e conscientizar a população. Ainda estamos engatinhando!

Qual a importância de olharmos ao nosso redor e observarmos mulheres de diferentes perfis dentro e fora dos palcos em um dos maiores centro culturais da América Latina?

Acho muito importante e é o dever dos espaços culturais promoverem toda e qualquer ação de respeito às diferenças e dar o exemplo! O Centro Cultural São Paulo (CCSP), por ser um espaço público, tem ainda mais responsabilidade.  É através da cultura que levamos as questões ao público, promovendo a reflexão. E para pensar na questão da mulher, é necessário que elas participem de todos os processos e ocupem os mais variados espaços da instituição.

Como o olhar advindo da vivência como mulher transforma seu trabalho e este espaço? E como você vê a presença das mulheres nos cargos de liderança e decisão dentro da estrutura cultural hoje?

A escuta. A escuta no sentido de ouvir o outro, ou melhor, ouvir a outra. No momento que você escuta, você dá valor, você soma forças. Além do meu trabalho na rádio em que uso os ouvidos, tenho acompanhado o projeto Feminismos em Fricção e até participado de alguns, confirmando a importância da escuta das mulheres e conhecendo suas histórias. 

Acho ótimo ter mulheres em cargos de liderança, pois elas têm o olhar, o cuidado e a credibilidade com outras mulheres, além de serem capazes. Pena que ainda sejam poucas.

Assim como sua atuação transforma este espaço por meio do seu trabalho, você já vivenciou algum momento protagonizado por uma mulher (ou mulheres) no CCSP que tenha te emocionado ou marcado profundamente a sua trajetória?

Sim. Em 2023 fizemos uma roda de conversa do Feminismos em forma de podcast para o Dia da Consciência Negra apenas com mulheres servidoras do CCSP. Foi emocionante ouvir seus depoimentos sobre a discriminação da mulher negra. As histórias compartilhadas comprovam  o racismo muitas vezes velado, e como elas lidaram e lidam com a situação. Elas se empoderaram!

Quem é uma mulher que te inspira e que você gostaria de apresentar ao público do CCSP, para que mais pessoas possam conhecer sua história e seu trabalho?

São muitas. Acho que nos inspiram mulheres que se destacam, se empoderam, que fazem a diferença! Vou citar D Ivone Lara, compositora que escreveu muitos sambas assinados por homens em sua época. Foi a maneira que arrumou para sobreviver da música.

Gui Miralha
Vigilante do CCSP

Mais do que uma rosa entregue, o Dia das Mulheres é um marco político para promoção da equidade de direitos em detrimento da construção social patriarcal. Como você enxerga a existência desta data mundialmente reconhecida?

O Dia Internacional da Mulher representa muito mais do que uma celebração simbólica. Ele é um marco histórico de lutas por direitos, visibilidade e equidade. Essa data nos convida a refletir sobre os avanços conquistados pelas mulheres ao longo dos tempos, mas também sobre os desafios que ainda existem com um espaço cultural como um Centro de Cultura de São Paulo. Portanto, reconhecer essa data significa valorizar as vozes femininas, suas histórias, suas produções artísticas e trajetórias diversas, ampliando a presença e o protagonismo das mulheres dentro e fora dos palcos.

Qual a importância de olharmos ao nosso redor e observarmos mulheres de diferentes perfis dentro e fora dos palcos em um dos maiores centro culturais da América Latina? Como o olhar advindo da vivência como mulher transforma seu trabalho e este espaço? E como você vê a presença das mulheres nos cargos de liderança e decisão dentro da estrutura cultural hoje?

A vivência como mulher traz uma sensibilidade ampliada para perceber diversas realidades, desafios e potências presentes no cotidiano cultural. Esses olhos contribuem para a construção de espaços mais inclusivos, acolhedores e diversificados.

Nos dias atuais, vemos um crescimento muito importante da presença feminina em vários cargos de liderança feminina. O que fortalece novas perspectivas de forma de gestão, representando um avanço coletivo para que a cultura seja cada vez mais plural e representativa.

Assim como sua atuação transforma este espaço por meio do seu trabalho, você já vivenciou algum momento protagonizado por uma mulher (ou mulheres) no CCSP que tenha te emocionado ou marcado profundamente a sua    trajetória?

Já estou há 1 ano neste espaço, prestando serviços ocupando o cargo de segurança no Centro Cultural de São Paulo. Presencio momentos em que as mulheres ocupam o palco debatendo a literatura ou artes visuais. Para mim, que atuo nesta área, não é só estar fazendo segurança do ambiente e sim observar e valorizar cada artista que ali representa suas histórias, como escritores, produtores e todos os talentos que estão representando uma verdadeira cultura.

Esses encontros revelam a força feminina e demonstram o instrumento de transformação social. Também fala a parte do meu trabalho como mulher e profissional de segurança no centro cultural. Representar essa função dentro de um local como esse é tão importante e valoroso quanto a representação de outras mulheres profissionais que prestam o seu trabalho diariamente garantindo acolhimento, cuidado e respeito ao público.

Neste Dia Internacional da Mulher sinto-me orgulhosa de poder estar representando essas mulheres que se dedicam tanto e contribuem em diversas áreas para que essa cultura aconteça de forma plena e que esse esforço seja seguro, plural e aberto a todos para apreciá-la sempre. Não somos só mulheres guerreiras e sim, mulheres empoderadas e bem resolvidas.

Quem é uma mulher que te inspira e que você gostaria de apresentar ao público do CCSP, para que mais pessoas possam conhecer sua história e seu trabalho?

Como homenagem, eu indicaria uma mulher que admiro muito profissionalmente que é a Conceição Evaristo, escritora brasileira que transformou a literatura com sua escrita potente e sensível. Seu trabalho traz reflexões profundas sobre identidade, memórias, raça e a experiência contribuindo de forma essencial para os pensamentos sociais no Brasil.

*Estagiária sob supervisão de Fellipe Cartier