Dos acervos subterrâneos às mesas de Supervisão, conheça mulheres que sustentam um dos maiores centros culturais da América Latina

Por Camila Martins* | Redação CCSP | Fotos: Arquivo
08/03/2026

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Cada Tijolinho do CCSP

Registro Oral, Escrito e Imagético das Histórias de Quem Construiu e Constrói o Centro Cultural São Paulo

O Mês Internacional da Mulher, celebrado a partir de 8 de março — data reconhecida pela Organização das Nações Unidas —, é um marco de luta histórica por direitos, equidade e representatividade. Se a data nasceu da mobilização de mulheres trabalhadoras, hoje amplia-se para um debate sobre presença, poder e produção simbólica.

Segundo balanço geral da Prefeitura de São Paulo de 2025, dos 130 mil servidores ativos, 97 mil eram mulheres, entre as quais mais de 50% ocupavam cargos de liderança. No Centro Cultural São Paulo, não se trata apenas de convidar mulheres, mas de reconhecer que a produção sociocultural feminina sempre esteve presente, ainda que nem sempre valorizada. É um diálogo constante com a vocação do espaço público: diversidade, formação, acesso e protagonismo cultural.

Mulheres no CCSP

Historicamente, as mulheres foram apagadas dos registros oficiais; neste sentido, o CCSP atua como espaço de criação, documentação e visibilidade. Aqui, elas não apenas participam: elas programam, dirigem, pesquisam, performam e ocupam os palcos, as bibliotecas e as ideias. O protagonismo está também na tomada de decisões, na construção de políticas culturais e no cotidiano do fazer público. Isso reforça a cultura de pluralidade, diversidade e acesso democrático da instituição.

Em um cenário desafiador, com recordes de feminicídio e a ascensão de discursos de ódio e de controle de corpos, o CCSP convoca e compreende, mais do que nunca, a necessidade de discutir o papel das mulheres e a formação de novas gerações com olhar crítico. Muito além de uma concepção política, o feminismo está no dia a dia da sobrevivência, no ato de negar a realidade na qual uma mulher morta é menos chocante que uma mulher livre. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública apontam que, em 2025, ocorreram quatro mortes por dia no Brasil. Diante dessa realidade, reafirmamo-nos como um local de acolhimento, resistência e impulsão da transformação social.

Segundo a Assessoria de Imprensa do Governo do Estado de São Paulo, a  Polícia Civil tem aumentado suas atividades de prevenção, apoio e investigação através das Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs), além de melhorar os meios de denúncia e os serviços oferecidos às vítimas.

Questionada sobre os desafios e as estratégias no combate à violência, a delegada de polícia titular da 9ª Delegacia da Mulher de São Paulo, Aline Albuquerque Ferreira, trouxe um forte componente pessoal ao debate. Tendo vivenciado um caso de feminicídio em sua própria família, ela demonstrou preocupação com a escalada da violência e foi enfática:

“Não podemos ignorar que o feminicídio tornou-se uma verdadeira epidemia. É claro que leis fortes e efetivas, medidas protetivas e políticas públicas são essenciais para mudar o cenário atual, mas, mais do que isso, precisamos relembrar o papel que cada cidadão tem nesse combate.”

A delegada destacou ainda a importância da educação para reverter o que chamou de uma “tragédia invisível”. Segundo ela, a mudança estrutural começa na base: “Precisamos ensinar nossos filhos a respeitar e nossas filhas a nunca aceitar menos do que merecem. A luta acontece nas escolas, nas empresas e dentro de casa”, afirmou.

Tramas culturais

Da pluralidade das mulheres como um todo aos recortes sociais, observamos a necessidade da luta coletiva para o combate ao patriarcado e à misoginia. Isso envolve a educação de mulheres e a ressocialização de homens. Estudiosas como Bell Hooks e Sueli Carneiro são exemplos da projeção deste diálogo e da compreensão da interseção entre gênero, raça e sexualidade. No CCSP, a programação assinada por mulheres seleciona e retoma obras artísticas que, muitas vezes, não teriam espaço em instituições mais tradicionais.

Programações como Feminismos em Fricção, que ocorrem desde 2019, buscam criar diálogos que perpassam diversas mulheres. Além dos rotineiros encontros, o Centro Cultural São Paulo já recebeu projetos como: Slam das Minas (primeira batalha de SP com recorte de gênero, que completa 10 anos neste mês), o espetáculo Escola de Mulheres – Uma Sátira ao Patriarcado, Céline e as Garotas, Mulher Sem Fim, Agora é que São Elas e De quantas Mulheres você é feita?, entre tantas artistas que defendem a pauta, como Rosana Paulino, Leci Brandão, Cia. Hiato e Ajuliacosta.

No presente, além das corriqueiras tratativas de temas sociais e reflexões da sociologia, teremos programações especiais para a data, que contemplam o ideal da instituição. Verifique abaixo e anote o que vai ocorrer na sua agenda:

Segundo Marisabel Mello, servidora da Supervisão de Ação Cultural e feminista, a luta das mulheres nos tempos atuais é de extrema relevância. “Neste mês de março, reafirmamos a importância da articulação de todas as mulheres frente à crescente onda de feminicídios no Brasil”. A idealizadora do projeto Feminismos em Fricção, junto a Ana Beatriz Oliveira Souza, destaca a abertura das edições de 2026 com uma temática especial sobre a história da data e seus percalços. “Seguimos na abertura de espaços de reflexão e de combate à cultura da violência, convidando todas as pessoas interessadas a somar nestas trocas”, diz Marisabel.

Múltiplos olhares, uma mesma missão

Reconhecendo as vivências plurais aqui existentes, convidamos diferentes personalidades para responder a perguntas relacionadas ao tema. O Dia Internacional da Mulher no CCSP é visto por suas colaboradoras como um termômetro político da desigualdade.

Para Marta Fonterrada, a data é um “reunir de forças” necessário, pois os altos índices de feminicídio provam que o Brasil “ainda está engatinhando” na proteção feminina. Essa urgência é reforçada por Iris de Souza, que define o dia como um alerta contra “violências institucionais”, pontuando que a celebração é o sintoma de que algo ainda precisa ser mudado. Já a curadora Gui Miralha traz uma camada crítica sobre o retrocesso e a violência contra mulheres trans, defendendo que o avanço real reside no direito de se colocar “inteira no mundo”.

Sobre a ocupação dos espaços, o consenso é que a representatividade define quem é visto. Rosemeire Araújo resume o sentimento coletivo ao afirmar que as mulheres buscam o direito de serem “vistas, ouvidas e respeitadas”. Gui Miralha, a primeira curadora travesti em 43 anos de instituição, enfatiza: “quem ocupa a cadeira define quem passa por aqui”, transformando a curadoria em um exercício de responsabilidade social.

No cotidiano institucional, a liderança feminina quebra hierarquias tradicionais. Marta Fonterrada destaca a “escuta” como ferramenta de gestão, enquanto Rosemeire Araújo, que iniciou sua jornada na limpeza e hoje lidera o controle de acesso, define-se como alguém que “abre caminhos”. Gilmara Vieira reforça que sua atuação na segurança é tão vital quanto a das artistas, garantindo que o espaço seja “seguro, plural e aberto a todos”.

As inspirações citadas conectam o passado ao futuro, unindo nomes como Dona Ivone Lara e Conceição Evaristo à força de Taís Araújo. Iris de Souza encerra o painel homenageando a lendária Lizete Negreiro, mulher impulsionadora do teatro infantil e jovem em São Paulo que dá nome a sala de leitura infantil do CCSP desde 2024, assim como Oneyda Alvarenga  lembrando que a história da cultura brasileira é indissociável das mãos femininas que, muitas vezes nos bastidores, sustentam a engrenagem pública.

As entrevistas na íntegra com nossas servidoras você confere também aqui no site (clique no link para acessar). Acesse também indicações literárias de grandes mulheres e artistas de nosso tempo no Instagram (clique no link para acessar) ou ainda revisite obras das primeiras escritoras do país (clique no link para acessar).

*Estagiária sob supervisão de Fellipe Cartier