Quem fez, quem faz: Vera Toledo Piza

Quem fez, quem faz é uma seção do site do CCSP que procura colocar luz sobre trabalhos fundamentais para o funcionamento da instituição, mas que, por diversas razões, permanecem “invisíveis” ao público. Desde que entrou no CCSP, em 1997, Vera Toledo Piza sempre esteve envolvida com um dos mais importantes acervos mantidos pelo CCSP, a Coleção de Arte da Cidade, da qual foi coordenadora por sete anos, além de ter realizado recentemente pesquisa de mestrado sobre esse acervo. Leia abaixo a entrevista na íntegra:

Qual é a sua formação e em que ano você entrou no CCSP?
Sou formada em História, com especialização em História da Arte e mestrado em Museologia. Minha pesquisa se chama Moderno e pioneiro – a formação do acervo de artes visuais da Biblioteca Mário de Andrade na gestão de Sérgio Milliet (1943-1959), que é justamente a maior parte do acervo que nós recebemos aqui no CCSP e que integra atualmente a Coleção de Arte da Cidade. Em 1997, eu entrei no CCSP, numa vaga da então Divisão de Artes Plásticas.

Como foi esse convite para trabalhar no Centro Cultural e como se deu sua trajetória na instituição até hoje?
Eu trabalhei na Bienal em 1996 e recebi algumas pessoas que trabalhavam aqui, fiz visita com elas. Uma dessas pessoas me indicou para a Camila Duprat, na época diretora da Divisão de Artes Plásticas, e fui chamada para uma entrevista. A Camila e eu tínhamos uma formação muito parecida, tínhamos feito os mesmos cursos, nas mesmas faculdades, com uma distância de uns 10 anos. Eu entrei aqui, principalmente, para montar um serviço de ação educativa nas exposições de arte, ao mesmo tempo em que trabalhava na Pinacoteca Municipal (atual Coleção de Arte), a princípio como ajudante, mas depois fui entrando na pesquisa.
Aqui já tinha um serviço de visitas feito pelo Mauricinho [Maurício Faria Ramos, funcionário da Central de Informações] e a Aninha [Ana Maria Campanhã, funcionária aposentada da Supervisão de Ação Cultural], mas era mais voltado para o prédio, para a arquitetura. Não tinha nada específico para as exposições de artes visuais, principalmente de arte contemporânea. Poucas instituições tinham essa ação educativa, que na época se chamava monitoria para exposições. Quando eu entrei aqui, a minha maior missão era, então, formar esse serviço educativo. Não tinha funcionários, trabalhava com estagiários, o que era muito legal, trazia um grande frescor, mas quando o contrato acabava tínhamos que formar a equipe de novo. Tínhamos também umas visitas independentes das exposições em cartaz, visitávamos obras espalhadas pelo prédio, como a Eva, do Victor Brecheret (instalada no Piso Caio Graco), os painéis do IV Centenário… Então, quando havia um intervalo das exposições de arte contemporânea, a gente continuava recebendo os grupos, fazíamos atividades em paralelo com o Ateliê de Artes Plásticas. Fizemos depois alguns grupos contínuos de escolas daqui de perto, e as mesmas turmas vinham em várias exposições, o que era muito bom para eles e para a gente também, porque quem trabalha com ação educativa em instituições geralmente atende o grupo e depois nunca mais vê, você não sabe o que de fato aquilo gerou. Então, acompanhar um grupo por um ano ou um semestre é super legal. Havia também aqui o grupo de saúde mental, que a gente atendia e com o qual trabalhei por uns três anos. Esse foi um dos grupos que mais aproveitou, porque eles participavam das visitas e das atividades de todas as exposições.
Durante a gestão da Camila Duprat, uma coisa muito legal foram as pesquisas sobre obras sem identificação. O Paulo Monteiro [ex-funcionário do CCSP] e eu começamos a pesquisar em vários lugares de São Paulo, em bibliotecas, e a Camila também mandou cartas para fora, como para a Biblioteca Nacional de Paris, daí descobrimos um Fernand Léger, um Renoir, um Chagall no acervo. Eram pesquisas super legais e eu ajudava nessas pesquisas. Depois, quando o Calil [Carlos Augusto Calil, ex-diretor do CCSP e ex-secretário municipal de cultura de São Paulo] entrou, ele resolveu dar um gás na pesquisa, no sentido de reunir e promover mesmo, uma coisa que já vinha sendo feita na gestão anterior. O acervo já tinha sido recatalogado, muita coisa já havia sido reacondicionada, a reserva técnica já havia sido montada. Quando o Calil entrou, ele deu continuidade a esse trabalho e também investiu bastante nisso, porque ele contratou sete pessoas, entre estagiários e funcionários, para recatalogar o acervo de novo, para refazer os acondicionamentos, para fotografar todas as obras, desenvolver um banco de dados, higienizar… A equipe ficou muito animada, teve um incentivo grande com o dinheiro recebido da Fundação Vitae. Isso tudo, eu acho, deu uma outra cara para a Pinacoteca Municipal (nome da Coleção nessa época). Quando o Calil foi para a secretaria no lugar do Emanuel Araújo, já havia um contrato com o Banco Safra em andamento, então, em seis meses, fizemos o catálogo da Pinacoteca, que foi muito legal e contou com textos da Stella Teixeira de Barros e da Camila Duprat, que havia me contratado e estava fazendo na época doutorado sobre a Coleção. Nesse meio tempo, eu acabei virando coordenadora da Coleção. Houve aquela reformulação de organograma aqui no Centro Cultural, e a Coleção deixou de ter uma gestão curatorial e passou a ser gerida por uma divisão de conservação e de acervos, que era uma vontade de todos nós para padronizar as atividades de acervo: os procedimentos de empréstimo, de conservação, de consulta. A gente nunca conseguiu fazer isso muito bem, porque cada acervo tem um caráter muito diferente, tem muitas especificidades, é diferente um arquivo de uma coleção museológica de arte, de uma coleção museológica da discoteca, que também tem livros, partituras e que estão disponíveis para consulta. Tudo isso poderia ser interessante, porém a Coleção ficou sem um curador, porque eu fazia a gestão, havia sido pesquisadora, documentalista, mas não curadora. Nesse momento ganhamos o Laboratório de Conservação e Restauro, então ganhamos restaurador, conservador, funcionários que antes a Coleção não tinha. Quando eu entrei, nós é que fazíamos tudo: o acondicionamento, a higienização, a documentação, os empréstimos, a parte administrativa. Eu fiquei coordenadora uns sete anos. Daí a Secretaria Municipal de Cultura havia restaurado a Chacára Lane, na rua da Consolação, e resolveram equipar a casa para receber exposições. Fui convidada para montar lá o Gabinete do Desenho, que seria um lugar expositivo para a Coleção. Eu saí daqui no final de 2011, inauguramos o Gabinete no final de 2012, e foi muito legal. Lá tinha um andar só da Coleção de Arte, foi uma exposição bem bonita, com curadoria do Agnaldo Farias. Quando houve troca de gestão, a nova não quis dar continuidade, então ficamos lá um ano com a exposição de obras daqui. Depois, a casa fechou e fomos para o Museu da Cidade trabalhar na curadoria da Oca e de outras casas também. Nessa época o diretor era o Afonso Luz, que reestruturou o Museu da Cidade e criou um núcleo de acervos, um núcleo de curadoria, e nós passamos a trabalhar lá. A Chácara Lane ficou sendo usada como escritório, mas, nessa mesma gestão, resolveram abri-la de novo, não sendo mais chamada de Gabinete do Desenho, e sim Chácara Lane mesmo. Reabrimos com uma individual da Marilá Dardot e uma outra da Carmela Gross. Eu fiquei ainda um tempo no Museu da Cidade trabalhando em várias coisas e, como eu estava fazendo mestrado sobre a Coleção, eu pedi para voltar para cá, porque também interessava para a Coleção essa pesquisa e eu estaria mais perto, mais bem aproveitada. Eu já havia trabalhado 15 anos aqui e lá fazendo curadoria de casas históricas estava difícil para eu me encaixar. Eu até me encaixei, mas eu não estava rendendo o que eu poderia render se estivesse aqui. No final de 2017 eu voltei para cá, terminei o mestrado sobre a Coleção, até apresentei a pesquisa para a equipe toda duas vezes, todo mundo ficou muito interessado, porque é nosso trabalho. Foi super legal para a Coleção e para mim também, porque o que eu fui pesquisando eu fui colocando no banco de dados. Agora eu trabalho com pesquisa, curadoria, documentação na Coleção.

Você acha que sua maturidade, seus anos de estrada, seu tempo aqui colaboram para desenvolver um melhor trabalho e, mais do que isso, ajudam na sua convivência com os mais jovens? E o que a juventude de pessoas como a Camila Romano e a Luciana Nicolau [funcionárias da Coleção de Arte da Cidade] traz para você todos os dias?
Em primeiro lugar, acho que colaboram muito porque eu sei a história do percurso da instituição. Muitas coisas, por mais que se tente, a gente não consegue documentar totalmente, então eu explico muita coisa para esse pessoal mais jovem sobre o percurso de cada obra, a história das obras anônimas, daquilo que envolve minha pesquisa de mestrado, o objetivo de cada coisa ontem e hoje… Tudo sempre foi muito discutido, e eu trago essa discussão para elas, até porque tenho uma formação longa, um percurso longo aqui, e a Camila e a Luciana super confiam. Acho que colaboro também com a parte de pesquisa e conteúdo, porque eu tenho a prática em pesquisa e já venho pesquisando essa coleção há muito tempo, e com o mestrado muito mais ainda.
E elas colaboram muito comigo, são muito interessadas, legais, respeitosas, e valorizam demais esse conhecimento. Temos uma relação de muita confiança e muita parceria. Além disso, elas trazem o frescor de novos interesses, sobretudo em relação à arte mesmo. É claro que cada caso é um caso, e a gente discute essas relativizações, mas tem umas coisas básicas, uns procedimentos de museologia que, por mais que a gente tente ser criativo, você precisa cumprir, é aquilo e ponto. Agora, em relação às novas formas de arte e ao valor que se dá às coisas, para mim é ótimo, por exemplo, que a Camila seja super interessada em arte postal, que está muito mais ligada à arte conceitual, e a Luciana, muito mais ligada em livro de artista, que também tem muito mais a ver com arte conceitual. A gente valoriza muito a coleção de arte moderna, que é realmente valorosa, maravilhosa, mas, para alguém da arte contemporânea, isso hoje tem, num certo sentido, um valor histórico. É outra visão de arte mesmo, outra relação, e acho super legal que a gente tenha essa percepção do que está interessando e sendo necessário agora, que é diferente do que eu pensaria muitas vezes.

Depois de tantos anos, o que te move a vir para cá e desenvolver um trabalho de catalogação, de restauração, de pesquisa, um trabalho que é de formiguinha e que na maioria das vezes fica escondido, nem sempre é valorizado, às vezes só por quem está muito perto desse mundo da arte?
Eu gosto desse trabalho, de arte, de história, e eu já sabia, de certa forma, que esse trabalho não é tão valorizado (embora a gente espere que seja diferente), mas nesse meio em que a gente trabalha ele é valorizado por nós mesmos e por nossos pares. Acho, também, que pegamos uma efervescência nessa coleção. A partir das ações de catalogação e da publicação do catálogo, a coleção passou a ser mais emprestada, mais publicada, mais pesquisada. É isso que move a gente, que esse acervo seja visto, seja usado, seja preservado. Se tem momentos que são ruins, eles passarão, nós passarinhamos, porque os acervos ficam, a gente vai sair daqui e eles vão ficar, então todo esse trabalho de formiguinha que não aparece, na verdade, ele aparece, sim, porque, quando o acervo é mantido e você produz conhecimento sobre ele, ele é exteriorizado. Claro que a gente gostaria que fosse mais, tanto em exposições como em ações, e claro que existem muitas dificuldades, tanto financeiras quanto de compreensão do que ele é, do potencial que ele tem, mas esse acervo guarda uma parte importante da história da arte brasileira, que é uma super coleção de papel, e continua abrigando arte contemporânea.

Por que você volta todos os dias para o CCSP?
Não é só porque eu trabalho aqui, mas porque eu adoro esse lugar. Eu acho que o acervo não é o cerne do Centro Cultural, pois aqui não é um museu, onde as coisas começam a acontecer em torno de um acervo. Não é o caso daqui, os eventos e o público é que são o cerne do CCSP. O Centro Cultural, além da programação cultural, é um lugar para onde as pessoas vêm, esse lugar é delas, elas usam. As pessoas gostam de trabalhar aqui, e não sou só eu, pois encontro pessoas que estão felizes e que estão construindo coisas aqui dentro.
Para mim é uma honra e uma oportunidade cuidar da Coleção e pesquisar sobre ela. No caso do acervo a renovação de gerações, de equipe, muito jovens chegando e o pessoal mais antigo saindo, pode ser legal. Mas não se pode perder a história, porque para o acervo isso é um tranco, não no bom sentido, porque se perde muito conhecimento sobre aquilo. Então, estou super feliz de passar as coisas para a Camila e para a Luciana, que são pessoas superinteressadas e que vão dar continuidade, e isso é muito importante para o acervo.

Entrevista: João Vitor Guimarães, Marcia Dutra e Vinícius Máximo
Fotos: Sossô Parma

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