Programa de Exposições 2018: Mônica Ventura

Com uma pesquisa artística focada nas culturas afro-ameríndias, feminilidade e negritude, a artista Mônica Ventura apresenta, na II Mostra do Programa de Exposições 2018, obra inspirada em Acotirene, personagem emblemática do Quilombo dos Palmares que, no entanto, foi apagada dos livros de história.

Como se deu o processo de criação do projeto O Sorriso de Acotirene?
Esse projeto nasceu depois que eu assisti ao filme Quilombo (1984), de Carlos Diegues. Apesar de no filme existirem vários equívocos e idealizações sobre o Quilombo de Palmares, a narrativa trouxe dados para minha pesquisa, especialmente sobre a personagem de Acotirene, que eu não conhecia. Mas foi na direção de arte do filme que eu encontrei a inspiração para desenhar minha escultura. Quem assistir ao filme verá que um dos cenários centrais da trama é um amontoado de vasos cerâmicos que representa os indivíduos daquele lugar. Essa montanha de vasos chamou muito minha atenção. Meu desenho vem da ideia de criar uma torre de indivíduos usando as cabaças, que por si só são muito significativas, e trazendo para o observador uma repetição da forma – cada cabaça, porém, com suas características próprias. E claro que durante o processo de produção me aprofundei em muitos aspectos culturais contidos no desenho e que eu desconhecia. Digamos que elementos da minha ancestralidade afro-indígena fortemente apareceram, foi como se eu tivesse acessado uma consciência ancestral.

Sua trajetória se desenvolve bastante apoiada na pesquisa e criação em performance. Como tal linguagem se materializa no espaço expositivo da II Mostra do Programa de Exposições 2018?
Gosto de pensar em ambientes visuais/sonoros para minhas performances. Sempre acabo fazendo instalações para minhas ações, pois vejo performance como um quadro explodido. Na mostra do CCSP a performance está contida na obra em si. Foram quatro meses de ateliê, onde recebi artistas e amigos que deixaram suas impressões nas cabaças. As paredes do estúdio estavam cobertas com as mais de 300 cabaças usadas na escultura. Entendo como uma ação rito. Lavei cada uma, defumei o espaço com tabaco, escutei o chocalho de algumas, observei a forma e as separei por famílias. Entendo que o período de montagem também pode ser lido como uma ação performática. O CCSP é um espaço aberto ao público, o que proporcionou o envolvimento daqueles que observavam meu trabalho. Muitas pessoas vieram conversar comigo sobre a obra. Algumas pessoas se sentiram emocionadas dizendo que a cabaça fazia lembrar o interior ou uma vida mais conectada com a natureza. Outras pessoas vinham me explicar significados religiosos contidos nos elementos que compõe a escultura. Eu penso ser O Sorriso de Acotirene uma escultura viva que nos atrai a atenção.

A pesquisadora Diane Lima, no catálogo da mostra, destaca uma grande energia feminina de criação em O Sorriso de Acotirene. De que modo você identifica nesse trabalho a potência do feminino? E como essa força se articula a questões como negritude e ancestralidade – temas centrais da sua pesquisa artística?
A pesquisa aborda ancestralidade, mas também nos convida a conhecer Acotirene, uma personagem emblemática do Quilombo dos Palmares que foi apagada dos livros de história. Há poucas informações disponíveis sobre esta forte personalidade, que foi antecessora de Ganga Zumba e Zumbi dos Palmares, uma mulher líder quilombola. Acotirene é a força feminina que encontramos em nossas mães, avós, irmãs, tias, professoras e amigas, uma conselheira de pulso forte.
O feminismo negro, cada vez mais em voga, ganha espaço nas mídias e está firmado em suas próprias pautas e eu enquanto artista mulher negra olho com atenção para elas.
A ancestralidade é uma chave para lembrarmos quem somos e seguirmos nos desvinculando do plano colonizador que visa polir a individualidade. A negritute me mostra um novo olhar nas artes e tento trazer esse belo ruído organizado para meu trabalho, fugindo do formalismo estético asséptico.

Entrevista: Marcia Dutra e Vinícius Máximo
Foto: Divulgação

*Publicado em 12 de dezembro de 2018

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