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Programa de Exposições 2018: Raylander Mártis - Centro Cultural São Paulo

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Entrevistas

Programa de Exposições 2018: Raylander Mártis

Artista presente na II Mostra do Programa de Exposições 2018, Raylander Mártis investiga e elabora a experiência do luto com o trabalho Coral de Choros – homenagem a Marcelo Amorcelo, resultado de um processo de cinco meses que contou com a participação de 20 pessoas e uma apresentação do coral na abertura da mostra.

Sua obra fala da ausência de representações do choro do homem ao longo da história da arte; também fala, de acordo com a artista Maíra Vaz Valente, das “impossibilidades e interditos de uma estrutura de condicionamento das emoções do sujeito/homem e aquilo que o define diante desta sociedade”. A partir de tudo isso, como se deu o processo de criação da obra aqui exposta?
O Coral de Choros foi motivado pela vontade de discutir o processo de adoecimento e morte de Marcelo Amorcelo. Também para relembrar um encontro difícil, mas bonito, que tivemos em janeiro de 2017, de frente para um rio. Inicialmente, eu busquei estruturar a minha pesquisa na questão sobre o homem e o seu choro, porque eu estava focado na história de Marcelo e vivendo o luto pelo seu suicídio. Mas, embora Marcelo se visse como homem, ele vivia uma experiência de embate por intermédio do seu corpo, porque se entendia como viado e era inquieto com a imposição do comportamento masculino, o que dilatou o corpo da investigação. Com o desenrolar do tempo, a masculinidade passou a ser entendida principalmente pela perspectiva de seus privilégios; essa mudança se deu quando entendi a amplitude e a complexidade do projeto, que questionava não só sobre o choro do homem, mas sobre toda a tradição do choro na história da arte e suas implicações de gênero, o que gerou boas discussões no grupo e trouxe melhor entendimento do lugar que cada um ocupa. Eu passei a estar ainda mais dentro da obra, porque estava falando de mim e de tantos outros corpos marginais que não se enquadram na categoria de homem/masculino, corpos que, na verdade, nem desejam vestir essa máscara de masculino. O desdobramento dessa pesquisa será focado nesses corpos, que, assim como o meu, querem um outro lugar. Há uma mudança significativa entre o projeto que apresentei para a seleção e a obra que apresentei na exposição, porque, com o contato e fricção do próprio trabalho – que aqui é entendido como os cinco meses de vivência -, eu me coloquei também à prova. Quando a Maíra Vaz Valente diz em seu texto sobre uma determinada “estrutura de condicionamento das emoções”, ela está se referindo ao processo de opressão que a masculinidade impõe em outros corpos e que volta para si mesma, bebendo do seu próprio veneno. Essa é a tese inicial do projeto.

Antes de pleitear a uma vaga no Programa Anual de Exposições, permaneci alguns meses pensando em quais caminhos seriam mais éticos para o trabalho. Isso se deu de forma intensa, porque, neste projeto, eu desejava dar uma pirueta na História da Arte. Se Yves Klein, em 1960, inscrevia na História da Arte a obra Anthropometry of the Blue Period, que tratava de uma coralidade de homens com vestimenta impecável e mulheres sem vestimentas, mencionadas pelo artista como “pincéis humanos”, eu, em 2018, sendo uma bixa-não-binária e ciente dessa história, poderia convidar uma mulher para reger o Coral, invertendo, assim, os lugares que estavam postos na obra de Klein; não havia espaço para um “pincel humano” em meu trabalho. Busquei, também, discutir essas e outras questões inerentes ao Coral com três mulheres que são referência para mim: Débora, Rita e a própria regente, Sarah. Essas pessoas me ajudaram a compreender até onde eu poderia ir sem invadir o lugar de fala do outro. Eu aprendi muito também com os chorões do Coral, que compraram a briga de forma espetacular. Dos onze chorões que iriam se apresentar, apenas um não esteve presente no dia, por motivos pessoais. Dez pessoas persistiram e se desnudaram naquele momento, exercendo a sua própria experiência de choro. Era como se eu tivesse convidado cada um para subir na arquibancada, receber os comandos de Sarah Reis e dizer: “Eu estou aqui para chorar o meu próprio choro.” É curioso pensar que os homens que aceitaram o desafio já questionavam o que é ser homem, como é o caso do Marinho, um homem transviado que transformou os nossos encontros com sua energia.

Mesmo sendo eu a pessoa que acompanhou o adoecimento de Marcelo e que foi impelidx pelo desejo de discutir a história do choro, não circunscrevi o trabalho apenas com a minha experiência de vida, pois o processo envolveu diretamente mais de 20 pessoas, que participaram dos encontros, das oficinas de palhaçaria clássica que ministrei e das fundamentais aulas de iniciação vocal de Sarah Reis. Durante a apresentação, eu me dissolvi no trabalho: eu não era maior que ninguém. Curioso é que me perguntavam quem era a pessoa que idealizou a obra, porque não tinha ficado evidente na apresentação. Acredito que isso foi o que possibilitou entender a reunião de nossos corpos como múltiplos protagonistas de uma narrativa não-oficial sobre o choro na História da Arte. Estávamos todxs ali: regente mulher, com sua presença e voz agigantada, uma cellista mulher, homens bixa preta, homem transviado, um único homem hétero que sobreviveu ao processo, eu como não-binário e o público diverso. Poderíamos dizer que o trabalho se dilatou, e falar sobre isso é falar sobre o processo de aprender ele.

Foi a primeira vez que tive a oportunidade de produzir uma obra com a participação de um grupo grande de pessoas, desejo antigo que vem do meu envolvimento com a palhaçaria e o teatro, lugares que estão para o coletivo. Oportunidade de resgate da história de uma pessoa que mudou a minha vida, o Marcelo. Os encontros aconteceram principalmente no CCSP, espaço democrático que nos acolheu nos sábados, domingos e sextas. Nós vivemos o espaço do Centro Cultural São Paulo de maneira plena, interagindo com outrxs artistas, convivendo com o seu entorno e aprendendo a escutar o espaço; nos deixamos ser transformadxs. Acredito que x artista é quem escolhe ser transformadx pelo trabalho, é uma questão de abertura e escuta. Nesse sentido, eu vivi com o Coral uma experiência de transformação e cura de um luto: foi um ritual de passagem e de escuta, porque me propus escutar.

Um homem pode chorar? Como “ele” chora no mundo das artes?
A Arte é um lugar que em sua essência possibilita outras formas de existência; ela não responde a uma demanda ou afirmação universal. Sabendo disso, diria que o homem chora pouco, e pouco se questiona sobre a ética do choro. Quando é permitido chorar? A quem é permitido chorar? Não há representação do choro na Arte a não ser na representação do choro da mulher, que é curiosamente arquitetada por mãos masculinas. Homens não choram na História da Arte, mas pintam mulheres chorando. É o caso das obras que venho catalogando no MASP e na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Eu poderia citar as obras Angústia (1950), de David Alfaro Siqueiros; Criança Morta (1944), de Candido Portinari; e Saudade (1899), de Almeida Júnior. Essas três pinturas estão, atualmente, em exibição em duas das mais importantes instituições de arte do país. Nessa semana, por exemplo, o MASP foi reconhecido pelo The New York Times pela exposição “Histórias Afro-Atlânticas”, a melhor mostra de 2018, segundo o jornal. O que isso significa quando alinhamos o reconhecimento e prestígio dessas instituições ao texto implícito nessas obras de arte? Se analisarmos a obra Saudade, por exemplo, perceberemos que o chapéu de palha em posição superior à mulher que chora não é apenas um chapéu de palha. O texto dessa pintura dá margem para interpretarmos que existem dois homens acima dessa mulher: o homem por quem ela chora e Almeida Júnior, o autor da obra. Interpreto que mais uma vez a carne do feminino é perfurada, e, nesse sentido, é a minha carne sendo perfurada também, porque, quando saio à rua, recebo ataques físicos e verbais por ser “feminine”.

O homem não chora nas artes por meio do seu lugar de fala; o homem chora nas artes pelos rostos das mulheres que eles representam em suas obras. Esse é um lugar confortável e constantemente utilizado pelo homem branco artista. Portanto, se ele não se representa chorando, mas representa outro gênero chorando, qual história estamos contando para o mundo? Falar sobre o choro é falar sobre privilégios, sobre a confusão entre o que é ser vulnerável e o que é exercer um estado humano de choro. Nossa história é predominante cis, masculina, hétero e branca, é a história de quem está dentro do conjunto. Eu precisei responder a essas perguntas, assim como tentar entender a representação do choro presente nos museus, para depois entender qual é o lugar do meu corpo, que não é representado na Arte. Se não sou homem, se não sou mulher, mas choro como homens e mulheres, onde me localizo?

Esse contexto, onde o homem não é representado chorando e não pode chorar na vida, é uma construção: nem sempre foi assim. No antigo Egito, por exemplo, existiam carpideiros, homens que também eram profissionais do choro e do lamento nas cerimônias fúnebres. Quando, ao final desse processo intenso de investigação, eu concluo que o meu corpo não precisa estar espelhado no ideal de masculinidade do nosso tempo, e que tenho o direito de recusar toda e qualquer imposição de comportamento regularizante, eu posso experimentar o choro de maneira pública e livre. Foi sobre o que tentei dialogar com os homens participantes do Coral. O Coral de Choros inseriu um outro choro na História da Arte. No meu universo de criação, consigo vislumbrar novas e possíveis narrativas: pretas e fora da binaridade.

É possível dizer que, na sua obra, nos deparamos com dois “olhares” aparentemente antagônicos: memória e desaparecimento?
Eu substituiria a palavra “antagônica” pela noção de ambivalência, que é a existência simultânea de ideias ou sentimentos opostos – ou não – num mesmo lugar. A ambivalência é uma questão importante para mim e para o meu trabalho. Ao mesmo tempo em que dedico o Coral de Choros para Marcelo, querendo trazer a memória da sua história, escolho a duração de um instante para fazê-la. A obra é como um rio, que passa assim como o rio que testemunhou o nosso encontro. O Coral de Choros teve a intensidade e a duração da minha história com Marcelo, que rapidamente se transformou em um “isso foi”. A apresentação do Coral de Choros marca tanto o momento de sua estreia como o de seu fim: os cinco meses em que dialogamos como um grupo desaguou ali, naquele momento público de chorar. Nunca se repetirá da forma como foi, e quem não viu e viveu aquele momento não poderá mensurar a experiência. Por isso, não acredito no registro em vídeo de proposições artísticas.

A estrutura de arquibancada e palco foi construída para a apresentação contínua na exposição, de forma a ficar insistentemente vazia durante seis meses. A carta, que é endereçada a Marcelo, foi escrita na parede a giz, para ir se apagando aos poucos durante todo o período expositivo, até não restar mais texto legível. Com esses dois gestos, eu estou refletindo sobre a “preciosidade de um instante frágil e a fragilidade de um instante precioso, que desapareceu”, para citar o texto da parede. Esse instante frágil pode ser a vida de Marcelo, a História da Arte que construímos até então ou a duração de um choro. Talvez, para entender melhor esses “olhares antagônicos”, precisamos perceber, na sutileza, que dá-se vida à obra ao mesmo tempo que morte. Quem visitar a exposição verá propriamente a experiência de luto: ainda existe uma ligação afetiva ao objeto, mas esse objeto se foi; penso a arquibancada com relação à apresentação do Coral e os outros materiais nesse sentido.

Quando lembro das palavras do público do Coral, que nos procurou emocionadx após a apresentação para contar as suas histórias sobre o choro, percebo que o trabalho suscitou emoções em diferentes corpos, e é por meio da memória e do desaparecimento que conseguimos suscitar essas emoções. A escolha de produzir a apresentação de um coral foi tomada em seu sentido mais profundo, como um grupo de pessoas que cantam juntxs. O desejo era pensar o meu trabalho como um convite para um laboratório de discussão e diálogos que gestaria a obra, de acordo com as particularidades de cada sujeito. O Coral de Choros não achatou as subjetividades dos participantes, pois buscamos contemplar cada uma delas, o que gerou um programa musical com várias possibilidades de choro: choro de amor, choro de desamor, choro da fé, choro do medo da morte, choro da perda, choro da infância e choro marcante.

Escrevo muito nesta entrevista, porque eu vivi durante o Coral de Choros um universo à parte, no período de aproximadamente um ano eu só queria pensar no Coral, no grande dia em que subiríamos aquela arquibancada. Com isso, acumulei muita história. Conforme foram se passando os meses, o meu desejo só ia ficando maior, mais agigantado, no dia eu só sabia chorar, aos prantos eu tentava acompanhar o programa que ensaiamos e ler o texto que preparei. Eu me transformei com esse trabalho, e é disso que estou em busca como artista: ser transformadx. E o Programa de Exposições do CCSP é um desses raros espaços voltados para a transformação; basta olhar para a seleção precisa feita pelo júri deste ano.

 

Entrevista: Marcia Dutra e Vinícius Máximo
Foto: Mariane Lima

 

*Publicado em 18 de dezembro de 2018