O festival TransluciDay celebra o Dia da Visibilidade Trans ao promover cultura enquanto celebra trajetórias que rompem de vez com o estigma da marginalidade

Por Camila Martins | Redação CCSP | Fotos: Júlia Carolina

29/01/2026

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Em 2004, a campanha governamental “Travesti e Respeito” articulada por diversas lideranças do movimento trans, em conjunto ao Ministério da Saúde, protagonizou uma cena histórica: a entrada de 27 travestis e transexuais no Congresso Nacional. Desde então, o Dia da Visibilidade Trans, 29 de janeiro, marca o resultado da luta pela existência e inclusão de pessoas trans no Brasil.

Avanços, Direitos e a Luta Contra a Violência

Nas últimas duas décadas, o cenário mudou. A conscientização trouxe leis especializadas e facilitou o acesso a direitos fundamentais, historicamente negados a essa população, como a retificação de nome e gênero diretamente em cartório e o acesso a políticas de saúde específicas. Entretanto, o progresso caminha lado a lado com estatísticas alarmantes.

A letra T da Comunidade LGBTQIAPN+, que abarca transexuais, travestis e pessoas não-binárias, ainda enfrenta marcas profundas da violência de gênero. Segundo o Dossiê da Rede Trans Brasil, o país lidera os rankings de assassinatos de pessoas transgêneras desde 2008. Esse estigma se manifesta na exclusão escolar, na dificuldade de inserção no mercado de trabalho e na negação de acolhimento familiar.

Isabella Santorinne, secretária adjunta de Comunicação da Rede Trans Brasil, em entrevista à Agência Brasil, afirma: “Faltam políticas públicas voltadas para a proteção de pessoas trans. Embora existam iniciativas pontuais, elas são insuficientes diante do cenário de exclusão e violência que a população trans enfrenta. É urgente criar ações que promovam educação inclusiva, empregabilidade, acesso à saúde e segurança, além de garantir que crimes transfóbicos sejam devidamente investigados e punidos. Sem políticas públicas eficazes, a luta pela sobrevivência e dignidade continua sendo uma batalha diária para pessoas trans no Brasil”.

Contudo, o reconhecimento jurídico da identidade de gênero foi um divisor de águas. No Brasil, o entendimento do STF de que a transfobia se equipara ao crime de racismo e a decisão de que a cirurgia de redesignação não é pré-requisito para a mudança de documentos são vitórias que garantem o “direito de ter direitos”. Mas a lei, sozinha, não ocupa cargos, é preciso intenção social. O combate a essa violência e controle corporal que afeta até mesmo as pessoas cisgêneras é um dever de todos os cidadãos que prezam pela democracia e pela justiça social.

Além da Margem

Pessoas trans estão ocupando frentes de trabalho que antes lhes eram negadas, ao romper o estigma da marginalidade. Hoje, encontramos profissionais trans na medicina, na engenharia, na educação e na política institucional, por exemplo. Inserir-se no trabalho formal e espaços de decisão é político.

O Centro Cultural São Paulo (CCSP) como fomentador cultural e de formação visa estabelecer-se como lugar de afirmação para a comunidade. Palco de visibilidade para diversos corpos discentes e de iniciativas internas como o podcast “Artevimento”, idealizado por Henry Oliveira, mulher trans e assistente da curadoria de Teatro do CCSP. O nome Artevimento é uma junção das palavras “arte” e “movimento”. O objetivo do podcast, que está no canal do youtube do CCSP, é dialogar e construir pontes com artistas e agitadores culturais da cena independente. “A ideia é receber histórias diversas para fomentar que não pertence ao “mainstream”, e que é muito viva no país”, como consta na descrição.

Henry trabalha ao lado da primeira mulher trans a assumir uma curadoria no CCSP, Gui Miralha, curadora de Teatro, que dedica sua vida a arte da dramaturgia; Uma trajetória de quase 20 anos no setor cultural. Formada pelo Senac e pela Escola de Arte Dramática da USP, ela acumulou experiência como atriz, diretora e produtora antes de assumir o cargo atual. Embora o Centro Cultural seja um espaço frequentado por diversos corpos trans, a ascensão de Gui ao cargo de curadora estabelece um novo paradigma de representatividade na estrutura do equipamento. “Talvez o maior marco seja a minha ocupação dessa cadeira como a primeira mulher trans a assumir a curadoria do CCSP. Isso define inevitavelmente as escolhas, os temas e os corpos que passam a estar em diálogo com o público”, explica.

Questionada sobre o que diria a outras pessoas trans que buscam entrar na área, Gui enfatiza a necessidade de preparo técnico e visão aprofundada e contínua nos tempos atuais. “Entender o sistema para conseguir entrar nele, e, quem sabe, transformá-lo. Porque às vezes uma porta pequena que se abre para uma de nós pode virar um portão para muitas outras”, diz a curadora.

TransluciDay, o evento como um ato político

Essa estratégia de transformação fica evidente na recepção de projetos como o TransluciDay, festival idealizado por Leona Jhovs. Para a curadora, realizar um evento transcentrado no “coração institucional de São Paulo” tem um peso político que vai além da visibilidade momentânea. O evento TransluciDay – Festival Transcentrado é uma iniciativa cultural de um dia dedicado à promoção da inclusão, visibilidade e celebração da comunidade trans, que conta com 150 pessoas trans trabalhando dentro e fora de cena, longe da “margem, do improviso, da erotuização e da violência”. Ocupando os espaços por 8 horas consecutivas, as programações variam entre teatro, circo, música, dança, cinema, performance, shows, painéis e oficinas guiam o olhar social para existência dessas pessoas neste e em outros lugares.

Jhovs, idealizadora do evento e presidenta do Instituto Luz, também teve o teatro como impulsionador de sua carreira, tendo passado 12 anos em uma companhia teatral no território da Luz e da Cracolândia. Para ela, ocupar o Centro Cultural São Paulo com o festival não é apenas um evento, mas uma “retomada” de um lugar que pertence à comunidade por direito.
Após uma primeira edição no SESC Bom Retiro, Leona celebra a chegada ao CCSP, o maior centro cultural da América Latina, especificamente no Dia da Visibilidade Trans. Ela reforça que a ocupação integral do equipamento é um ato político de direito. “Eu tenho a alegria de ocupar o Centro Cultural São Paulo, é um equipamento cultural de todos, todas e todes. Então, se ele é de todos, ele é meu também, ele é nosso”.

Ao transitar entre performances artísticas e a mediação de temas sensíveis, como a mesa sobre famílias transcentradas que integra a programação, Leona reafirma sua identidade como uma artista múltipla. “Eu adentro, eu avisto, eu ocupo e aí eu crio. Vou construindo essas possibilidades através da minha corporeidade, da minha luta e do meu talento”, explica. Para a idealizadora, o peso de estar à frente desse movimento é acompanhado por uma sensação de dever cumprido em relação às gerações passadas.
Sobre o processo de curadoria, que selecionou diversos talentos das artes visuais, moda, cinema e debates, a artista destaca que a escolha foi natural, baseada no consumo e no reconhecimento de seus pares, “Na verdade, é muito fácil fazer essa curadoria porque nós temos muitos artistas e pensadores talentosos e inteligentíssimos que ocupam a cidade e o mundo. Eu afirmo para você que foi simples por que a gente já está ocupando muito.”, explica.
O TransluciDay se consolida, assim, como uma “vitrine política e poética” no coração de São Paulo, provando que a presença trans no ambiente institucional não deve ser uma exceção. A programação ocorre hoje até as 22h e será encerrada, com chave de ouro, o show TRANSlúcido conta com a presença de Linn da Quebrada, Ventura Profana, Banda Transcentrada e Coral de Vozes Trans (clique para acessar o link).
Estagiária sob supervisão do jornalista Fellipe Cartier

Para saber mais da programação de dezembro, acesse o site do CCSP.