29/04

Canções escritas ao longo de 15 anos investigam as forças que atravessam o cotidiano.

“Arrasto” é o primeiro álbum de Gustavo Ortiz e reúne onze canções autorais e uma regravação. Com lançamento previsto para abril de 2026 pelo selo TRUQ, o disco amplia o caminho iniciado com o EP “Desafogo” (2025) e marca a estreia do artista em um trabalho de maior fôlego, tanto em número de faixas quanto em densidade conceitual e sonora.

O título do álbum, que também dá nome ao show, concentra múltiplos sentidos. “Arrasto” é a força física que resiste à queda de um corpo em movimento, mas também nomeia a pesca predatória orientada pela lógica do mercado, o gesto de carregar afetos e relações ao longo da vida, e o movimento do mar que aproxima e afasta. Ainda que a palavra não apareça diretamente nas letras, seus significados atravessam todo o disco como metáfora das pressões sociais, emocionais e materiais que incidem sobre a experiência cotidiana – especialmente sobre a vida da classe trabalhadora.

As canções que compõem “Arrasto” foram escritas ao longo de cerca de 15 anos e organizadas a partir de um recorte conceitual desenvolvido em parceria com Romulo Fróes, responsável pela direção artística do álbum. O processo não partiu de um apanhado cronológico, mas da construção de um conjunto coeso, em que temas como trabalho, luto, amor, amizade, preconceito, espiritualidade e resistência coletiva se articulam a partir de diferentes perspectivas.

O show de lançamento apresenta o disco e propõe uma escuta atenta às forças que nos atravessam e aos modos possíveis de enfrentamento. “Sangue Lunar”, apresenta um registro de amor atravessado por pulsão, vertigem e movimento. “Antena Atenta” surge como um eixo conceitual do álbum, dialogando com o pensamento indígena de Ailton Krenak e a necessidade de criar “paraquedas coloridos” diante das quedas inevitáveis da vida. A regravação de “Afoxé do Nego Véio”, de Naná Vasconcelos, introduz a celebração do corpo como gesto político e resistência cotidiana.

Canções como “Peixe Pescado” e “Cícera” abordam diretamente o trabalho, o racismo estrutural e a força da criação coletiva, enquanto canções como “Dia de Morrer na Praia”, “Quando Já Era Saudade” e “Por Ser Assim” se voltam a experiências de fracasso, luto e transformação íntima. O disco se encerra em tom épico e ritualístico, reafirmando a ideia de que a resistência só pode ser construída de forma coletiva, como um movimento contra as redes que tentam nos arrastar.

A sonoridade do show se estrutura a partir de uma banda base formada por Pedro Dantas no baixo, Árquetipo Rafa na bateria, Rodrigo Campos na guitarra, cavaco e percussões, Allan Abbadia no trombone e Bruna Lucchesi, Graciela Soares e Luisa Caetano no coro, além de participação especial de Romulo Fróes dividindo os vocais em duas canções.

“Arrasto” foi viabilizado por meio do Edital Fomento CultSP PNAB Nº 24/2024 para Gravação e Lançamento de Álbum Musical Inédito, permitindo uma produção remunerada e tecnicamente mais ampla. O disco também evidencia o papel fundamental das políticas públicas de incentivo à cultura e os desafios estruturais enfrentados por artistas no Brasil, cujas trajetórias frequentemente dependem de editais e financiamentos específicos para se concretizarem.

Cantor, compositor e antropólogo, Gustavo Ortiz desenvolve uma obra que dialoga diretamente com sua formação em Ciências Sociais e com pesquisas realizadas junto a povos indígenas ao longo da última década. Em “Arrasto”, essas experiências se transformam em canções que observam com cuidado a vida cotidiana e afirmam a criação coletiva como uma possível força de resistência diante das pressões do mundo contemporâneo.