03 a 08/03
- Verifique o horário de cada sessão
- Sala Circuito Spcine – Lima Barreto
- Verifique a classificação indicativa de cada filme
- Grátis
- Retirada de ingressos na bilheteria física do CCSP, 1h antes de cada sessão
Para homenagear o último lançamento do diretor Guilherme de Almeida Prado, o CCSP convida o realizador para pensar uma curadoria inédita que apresenta os filmes que fizeram parte de sua inspiração. Com 8 filmes selecionados pelo diretor serão exibidos para sintonizar com a exibição de Odradek, longa que teve sua estréia na edição de 2025 da Mostra Internacional. A mostra conta com a presença do diretor na abertura no dia 03/03 e um bate-papo no dia 08/03 após a exibição de Odradek. A seguir Guilherme escreve algumas reflexões sobre a programação:
“Toda Arte é Experiência.”
Alfred Hitchcock
Imagine que você foi visitar um Museu ou Galeria de Arte Moderna e decidiu sentar por cinco a dez minutos em frente de cada tela procurando desvendar cada detalhe e sutileza da Obra de Arte. Isso é ODRADEK, que eu defini como “uma orgia-semiótica-cinematográfica-conceitual-delirante”. Cada cena foi concebida como um grande quadro, painel ou mural – em movimento – onde o espectador pode pacientemente buscar entender cada detalhe das imagens e sons. Mas eu sempre odiei os rótulos e definições, que para mim são uma forma preconceituosa e desonesta de enquadrar, simplificar e anular a verdadeira personalidade de uma obra de Arte ou mesmo de uma pessoa, em especial, de um artista. Por isso nunca gostei do rótulo que me colocaram de “cineasta-cinéfilo”. É verdade que eu gosto muito de assistir a filmes. Imagino que a maioria dos grandes diretores também gostem de assistir a filmes. Sinto talvez mais prazer em assistir do que em fazer filmes e me pergunto se teria feito mais filmes se não ficasse tanto tempo assistindo a filmes. Mas acho que meu Cinema é muito mais do que algo apenas “Cinéfilo”. Faço filmes principalmente para Experimentar e busco realizar filmes que gostaria de assistir e ainda não foram feitos. Tenho uma espécie de “nostalgia do futuro”. Por isso gostei muito do desafio proposto pelo Centro Cultural São Paulo para fazer uma Mostra que relacionasse o último e também o mais enigmático e experimental dos filmes que eu fiz, ODRADEK, com os filmes que, de uma forma ou outra, se relacionam com a feitura deste filme. Claro que não conseguimos cópias de todos os filmes, cujos cineastas eu relaciono na última cartela, nos letreiros finais de ODRADEK, mas a lista de filmes que serão exibidos podem dar uma visão clara de como funciona minha relação entre assistir e fazer Cinema. Eu digo que não faço nem Citação e nem Homenagem. O que eu gosto de fazer é a Reciclagem da visão cinematográfica de outros cineastas para uma nova visão pessoal distorcida, modificada ou composta, dentro do universo que busco retratar em ODRADEK. Tarkovsky disse que existem só dois tipos de cineastas: os que buscam imitar o mundo em que vivem e os que criam seu próprio mundo de uma forma poética. Eu, com certeza, quero ser do segundo tipo. Acredito que nenhuma Arte é Arte sem Poesia. A Poesia é a Grande Arte das Artes. Meu mundo nasce de uma observação do mundo “real” (se é que realmente existe um único mundo real) traduzida num novo mundo cinematográfico que serve como um espelho amplificador do mundo “real” e o ressignifica audio-visualmente.
Mas falemos dos filmes:
2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey – 1968) de Stanley Kubrick, para mim o filme mais sensacional que já foi feito, mas que – estranhamente – eu não gostei da primeira vez que o assisti e, no entanto, aquelas imagens continuaram a me perseguir e tive que voltar a assistir e hoje já perdi a conta de quantas vezes assisti a esse filme. Sempre vale a pena rever e encontrar detalhes e sutilezas que eu não tinha percebido antes.
O Ano Passado em Marienbad (L’Année Dernière à Marienbad – 1961) de Alain Resnais, enche os olhos com o grafismo da composição cênica e na maneira sutil de sugerir uma trama enigmática e subliminar, sempre presente, mas nunca totalmente desvendada.
India Song (1975) de Marguerite Duras dá um passo além no uso musical das palavras usado em Marienbad ao colocar as palavras muito mais como música do que como significado, fazendo o espectador identificar nas palavras dos diálogos uma poesia sonora e musical que completa o mistérios das imagens.
Onibaba, O Sexo Diabólico (Onibaba – 1964) de Kaneto Shindô resume minha paixão pelo Cinema Japonês e sua adaptação audiovisual dos ideogramas japoneses para uma estilizada imagem fílmica.
Via Láctea (La Voie Lactée – 1969) de Luis Buñuel foi o filme que me provou que nem sempre precisamos entender absolutamente tudo que um filme diz. O importante é saber o tempo todo que alguma coisa misteriosa está sendo dita e que cabe a nós, espectadores, sermos envolvidos pela trama e tentados a decifrar seus enigmas.
Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (Loong Boonmee Raleuk Chat – 2010) de Apichatpong Weerasethakul, por subverter as estruturas tradicionais de dramaturgia e as noções de Tempo cinematográfico, transformando uma realidade hermética numa realidade sensorial.
Muitos podem estranhar a inclusão de filmes como Barbarella (1968) de Roger Vadim e Lisztomania (1975) de Ken Russell, mas a justaposição de contrastes é algo muito importante na minha busca de uma Poesia que seja, ao mesmo tempo, sofisticada e popular e esses filmes apresentam uma excelente mistura de criatividade e cultura “pop” no uso das cores e da sexualidade que eu busco colocar em todos os meus filmes.
Esses e muitos outros filmes estão na essência de ODRADEK.
BOA VIAGEM!
Programação:
Dia 03 – Terça-feira
17h00 – Odradek (270′), com apresentação de Guilherme de Almeida Prado
Dia 04 – Quarta-feira
17h00 – Barbarella (98′)
19h00 – India Song (120′)
Dia 05 – Quinta-feira
17h00 – O Ano Passado em Marienbad (94′)
19h00 – Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (114′)
Dia 06 – Sexta-feira
17h00 – Lisztomania (105′)
18h00 – Via Láctea (98′)
Dia 07 – Sábado
16h00 – Onibaba, O Sexo Diabólico (103′)
18h00 – 2001 Uma Odisseia no Espaço (202′)
Dia 08 – Domingo
15h00 – Odradek (270′), seguido de uma conversa com o diretor Guilherme de Almeida Prado
Filmes: Todas as sessões do filme têm um intervalo de 15 minutos no meio da projeção.
2001: UMA ODISSEIA NO ESPAÇO, de Stanley Kubrick
2001: A Space Odyssey. EUA / Reino Unido, 1968, 149 min, DCP, 12 anos
Com Keir Dullea, Gary Lockwood, William Sylvester
Da aurora da humanidade à viagem interestelar, uma misteriosa estrutura monolítica influencia a evolução. A bordo da nave Discovery, a inteligência artificial HAL 9000 conduz a tripulação a um destino além da compreensão humana. Uma experiência sensorial sobre os limites da consciência e do desconhecido.
O ANO PASSADO EM MARIENBAD, de Alain Resnais
L’Année Dernière à Marienbad, França / Itália, 1961, 94 min, DCP, 14 anos
Com Delphine Seyrig, Giorgio Albertazzi, Sacha Pitoëff
Em um palácio barroco e labiríntico, um homem tenta convencer uma mulher de que eles se encontraram no ano anterior e combinaram um reencontro. Ela insiste em não se lembrar. Um jogo de memória, sedução e tempo onde passado e presente se confundem em imagens hipnóticas.
INDIA SONG, de Marguerite Duras
França, 1975, 120 min, DCP, 14 anos
Com Delphine Seyrig, Michael Lonsdale, Claude Mann
Na embaixada francesa em Calcutá, nos anos 1930, a esposa do embaixador definha em meio ao tédio colonial enquanto vozes em off narram sua história de amor e decadência. Corpos deslizam em câmera lenta, diálogos são apenas sussurrados. Um poema fílmico sobre ausência, desejo e memória.
ONIBABA, O SEXO DIABÓLICO, de Kaneto Shindô
Onibaba, Japão, 1964, 103 min, DCP, 16 anos
Com Nobuko Otowa, Jitsuko Yoshimura, Kei Satō
No Japão medieval em guerra, duas mulheres sobrevivem assassinando samurais perdidos e vendendo seus pertences. A chegada de um vizinho que retorna da guerra e o desejo que desperta na mais jovem desencadeia ciúmes e possessão. Filmado em campos de capim alto que ondulam como mar, um pesadelo expressionista sobre desejo e loucura.
VIA LÁCTEA, de Luis Buñuel
La Voie Lactée, França / Itália, 1969, 98 min, DCP, 14 anos
Com Paul Frankeur, Laurent Terzieff, Alain Cuny
Dois peregrinos caminham pela estrada de Santiago na Espanha, encontrando em seu caminho figuras de diferentes épocas que personificam heresias e dogmas da fé católica. Uma peregrinação surrealista onde tempo e dogma se dissolvem em provocações sobre crença, absurdo e liberdade.
TIO BOONMEE, QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS, de Apichatpong Weerasethakul
Loong Boonmee Raleuk Chat, Tailândia / Reino Unido / França, 2010, 114 min, DCP, 14 anos
Com Thanapat Saisaymar, Jenjira Pongpas, Sakda Kaewbuadee
À beira da morte, Boonmee decide passar seus últimos dias na zona rural da Tailândia. O fantasma de sua falecida esposa aparece para cuidar dele, e seu filho perdido retorna sob a forma de um macaco de olhos vermelhos. Memórias, reencarnações e espíritos da floresta se entrelaçam em uma meditação sobre morte, transformação e os ciclos da existência.
BARBARELLA, de Roger Vadim
França / Itália, 1968, 98 min, DCP, 14 anos
Com Jane Fonda, John Phillip Law, Anita Pallenberg
No século XLI, a aventureira espacial Barbarella recebe a missão de viajar até a cidade de Sogo para deter o cientista Durand-Durand. Uma odisseia psicodélica por planetas excêntricos e criaturas bizarras, onde o sexo e a fantasia se misturam em uma explosão pop de cores e delírios.
LISZTOMANIA, de Ken Russell
Reino Unido, 1975, 105 min, DCP, 16 anos
Com Roger Daltrey, Sara Kestelman, Paul Nicholas
Franz Liszt é retratado como um rockstar do século XIX, cercado por groupies, histeria coletiva e conflitos com o establishment musical e religioso. Uma biografia musical alucinada e anacrônica que transforma a vida do compositor em uma ópera-rock repleta de sátira, sexo e exageros visuais.
ODRADEK, de Guilherme de Almeida Prado
Brasil, 2024, 270 min, DCP, 12 anos
Com Oscar Magrini, Cinthya Hussey, Natalia Gonsales
Em uma imensa e vazia mansão neoclássica, cercada por uma invisível e indefinida guerra, a filha de uma família burguesa volta da Europa trazendo um kafkiano brinquedo. A partir desse objeto sem utilidade específica, todos (pai, mãe, filho, filha) começam a discutir sobre a vida e a descobrir as próprias fraquezas e loucuras. Esse processo de autodescobrimento os levará ao encontro de fobias, hipocrisias e preconceitos, mas também de sua verdade mais íntima.