Lucinha Lins, Tânia Alves e Virgínia Rosa encantam o público com espetáculo Palavra de Mulher
Mês de março encerrado: Elas Deram a Palavra.
“Mirem-se no exemplo daquelas Mulheres de… Chico Buarque”. O espetáculo Palavra de Mulher, encenado por Virgínia Rosa, Lucinha Lins, e Tânia Alves, completa 17 anos e em 2025, começou as apresentações na sala Jardel Filho, no Centro Cultural São Paulo, na última sexta-feira (28.03). No palco, um Cabaré ao melhor estilo Ópera do Malandro, com Virgínia Rosa e Tânia Alves como as “Meninas” do recinto, e Lucinha Lins como a Madame, que administra o lugar.

Vou voltar
Haja o que houver, eu vou voltar
Já te deixei jurando nunca mais olhar para trás
Palavra de mulher, eu vou voltar
Posso até
Sair de bar em bar, falar besteira
E me enganar
Com qualquer um deitar
A noite inteira
Eu vou te amar
Na abertura do show, Virgínia Rosa interpretou o tema que dá o nome ao espetáculo e narrou como esse projeto começou, se renovou e ainda é um sucesso de público.
O Chico Buarque entrou na minha vida em 2004, quando fui convidada para cantar no Sesc Pinheiros, numa homenagem pelos seus 60 anos de idade. E já naquela época, o Fernando Cardoso, que é o diretor do espetáculo, já tinha sugerido que a gente navegasse por esses personagens femininos. Aí, em 2008, a gente inaugurou um teatro aqui em São Paulo que nem existe mais e o Fernando teve a ideia de convidar a Tânia Alves e a Lucinha Lins, que eu já tinha encontrado em outros espetáculos. Foi muito bonito o encontro das nossas vozes, timbraram muito bem. Elas são atrizes, são cantoras também, e elas fizeram já tinham feito as peças do Chico, como Ópera do Malandro e Morte e Vida Severina, então elas já tinham um repertório pronto – informou Virgínia Rosa.

É a conta menor que tiraste em vida
É a parte que te cabe deste latifúndio
É a terra que querias ver dividida
Estarás mais ancho que estavas no mundo
Mas a terra dada, não se abre a boca
Talvez a Maria Bonita mais bonita do Cinema Nacional, Tânia Alves, que é fluminense, mas eternizada por personagens nordestinas, contou um pouco de sua carreira e como Chico Buarque influenciou em seus trabalhos. Como uma das meninas no Cabaré, a atriz mostrou uma interpretação tão real como dama da noite, que sua performance parecia mais fatal que as cangaceiras que já interpretou no cinema.
Na peça, fez uma apresentação inicial impactante, declamando os versos de Funeral de um Lavrador, do poema Morte e Vida Severina, do escritor João Cabral de Melo Neto, que foi musicado por Chico Buarque.
Eu sou do Rio de Janeiro, mas meu pai era pernambucano, e para mim não foi difícil interpretar personagens do Nordeste, pois tive muitas influências da cultura musical dessa região através do meu pai. Chico é um gênio da nossa música, nunca consegui entender como ele entrou tão bem no universo feminino e entender nossos sentimentos, nossa paixão, nossos medos, nosso amor, e para nós é um prazer interpretar as personagens de suas músicas, em que cada uma conta uma história, e é justamente o que fazemos no palco – declarou Tânia Alves.

Mas agora o meu dia-a-dia
É no meio da gataria
Pela rua virando lata
Eu sou mais eu, mais gata
Numa louca serenata
Que de noite sai cantando assim…
Em dado momento, Tânia Alves puxou um espectador da plateia e o trouxe para o palco, como se este fosse um dos clientes do Cabaré. O rapaz, de nome Marcos, subiu ao tablado um pouco exitante, mas logo entrou na brincadeira. Tânia Alves encenou um jogo de sedução, e logo Marcos foi ‘disputado’ por Virgínia Rosa, enquanto cantavam O Meu Amor, da peça Ópera do Malandro.
Após o ‘cliente’ voltar ao seu lugar, Lucinha Lins entrou em cena, e ‘passou um sabão’ em suas funcionárias e disse: “Eu quero respeito em meu estabelecimento, pois no CCSP têm gente bonita, culta, inteligente e de dinheiro no bolso. E afinal, quem é Marcos?”, arrancando gargalhadas da plateia.
Em seguida, Lucinha Lins, exuberante em seu papel Madame do Cabaré, ‘desceu’ da personagem e cantou História de uma Gata, da peça Os Saltimbancos, do letrista italiano Sergio Bardotti, com música do compositor argentino Luis Enríquez Bacalov, e que no Brasil ganhou canções adicionais e adaptações de Chico Buarque para o filme Os Saltimbancos Trapalhões (1981). Na obra, Lucinha Lins viveu Karina Bartholo, filha do Barão Bartholo, e que fazia a Gata no musical apresentado no circo.
História de uma gata é uma coisa importantíssima na minha vida. Eu não sabia nem andar, nem falar, eu fui chamada para fazer parte do filme Os Saltimbancos Trapalhões, isso porque eu era bonitinha e cantava bem (entre risadas). E aí, virou o que virou e essa loucura e com o passar dos anos essa música é me engrandece. Até hoje sou chamada de a eterna gata. Eu me flagro chorando às vezes na porta do colégio para buscar meu neto ou quando levo meus netos ao supermercado e tal, foi uma bênção ter feito esse papel e sempre me recordo. Marcou a memória afetiva de muita gente, de mais de uma geração. Lá se vão… sei lá, 40 anos e poucos anos que essa música existe, e atribuída a mim cantar essa música.
Jamais cantei tão lindo assim
E os homens lá pedindo bis
Bêbados e febris
A se rasgar por mim…
Já perto do encerramento, as três artistas cantaram Bastidores, que fora prefixo do cantor Cauby Peixoto, e na sala Jardel Filho, com capacidade totalmente lotada, Lucinha Lins, Tânia Alves e Virgínia Rosa cantaram, cantaram como nem sabiam que cantavam assim, e todo o ‘Cabaré’ no CCSP a aplaudiu de pé quando chegaram ao fim.