Comendas foram concedidas em quatro categorias do cenário do Hip-Hop
Por iniciativa da Câmara Municipal de São Paulo, o Centro Cultural São Paulo (CCSP) recebeu a solenidade de entrega do Prêmio Sabotage 2025, na sala Adoniran Barbosa, na última terça-feira (25). Esta é a nona edição do evento, que contou com apresentação de artistas do cenário do Hip-Hop da cidade. A premiação visa homenagear o famoso músico e ator Sabotage, morto em 2003, além de incentivar a cultura da Dança Urbana, já tradicional na cidade de São Paulo há quase 50 anos.
Foram quatro categorias e seus vencedores foram:
Categoria I
Melhor Disk Jockey (DJ)
● DJ $mokey Dee – DJ, MC e Educador Cultura.
Categoria II
Melhor Mestre de Cerimônia (MC)
● Chai Odisseiana – MC, Arte-Educadora e Produtora Cultural.
Categoria III
Melhor Artista de Graffiti
● Coletivo OPNI – Grupo de grafiteiros da zona leste de São Paulo.
Categoria IV
Melhor Artista de Breaking
● B-Girl Angel do Brasil – Dançarina com histórico de competições internacionais.
A importância do Prêmio para o movimento preto e periférico
O evento faz menção a um homem que, mesmo com tantas adversidades, conseguiu transformar sua arte em uma ferramenta de transformação e conscientização, sendo lembrado e celebrado como um dos maiores representantes do Rap brasileiro e da luta pela valorização da cultura preta. Marcelo Cavanha, coordenador do Núcleo Hip-Hop da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa de São Paulo (SMCSP), fala sobre o sucesso do evento.
Essa é uma iniciativa da Câmara dos Vereadores e que surge também de um diálogo com o movimento Hip-Hop de manter vivo as ideias, o legado do Sabotage. E na edição anterior, a Câmara procurou a Secretaria de Cultura, pensando numa parceria de fazer esse prêmio no local que não fosse dentro da Câmara. É muito importante o Hip-Hop ocupar todos os espaços, entre eles a Câmara Municipal, mas pensando numa celebração, seria legal que fosse num espaço onde tivesse mais a ver também com a questão de acomodações para cultura, voltado para cultura. E o CCSP é um espaço incrível, não é? A sala Adoniran Barbosa, em especial, a gente ficaria aqui até amanhã falando o número absurdo de grandes artistas que já passaram por esse espaço. Aqui é de fácil localização, e o público que sai do trabalho e vem curtir a cultura no Centro Cultural São Paulo numa plena terça-feira e de forma gratuita – relatou.
Também houve espaço para os grupos que não faziam parte do concurso, como por exemplo, o Coletivo Future K, de danças urbanas. Os integrantes do Coletivo apresentaram uma coreografia com passos de Breaking, sendo ovacionados devido ao alto grau de dificuldade na execução.
O nosso intuito é fortalecer a cultura do Hip-Hop, e como o Sabotage é uma grande referência para nós, mesmo que não na dança, mas na música, tem tudo a ver com a nossa arte, que é o Breaking e as demais linguagens em que estamos envolvidos. Após me formar, sonho atuar na Educação, mas nunca deixarei de dançar. Nós costumamos dizer que o Breaking é o nosso life style, isso faz parte da nossa vida, todos os dias a gente dança, todos os dias a gente pratica, como também estamos envolvidos nas outras artes do hip-Hop, como a grafitagem, o contato com os Mcs, com as batalhas de rima…Então, quando eu me formar, sei que nunca vou parar de dançar, porque é isso o que eu sou – avaliou Maria Eduarda Pimentel, 22 anos, e estudante Letras, da Universidade Mackenzie.
Sabotage, além de ser um artista de referência, se mostrou um exemplo de coragem e de compromisso com sua comunidade, e seu legado permanece presente na música e na cultura. Para Guilherme Tavares, de 25 anos, técnico e produtor de audiovisual, professor de Danças Urbanas, o Breaking é uma motivação na vida de jovens e crianças.
Eu aprendi a dança Breaking numa ONG, e hoje, eu ministro aulas neste mesmo lugar, que é na Cedeca (Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente) Sapopemba, onde eu atendo jovens, adolescentes e crianças. O Breaking atua de várias formas, de forma social, principalmente, então a dança não vem só para formar educadores, mas para transformar e mudar a vida das pessoas. Através da prática da dança, nós percebemos mudanças de tratamento dos jovens com suas famílias, assim como uma curiosidade para descobrir mais sobre essa cultura e adquirir mais conhecimento. Eu vejo o Breaking como uma motivação para a vida – afirmou.
Já Richard Waldir, de 26 anos, empresário de Marketing Digital, o Breaking o possibilitou criar e adaptar passos novos, o que de acordo com ele já é bastante difícil, pois muitos deles já foram feitos através das décadas em todos os cantos do mundo.
A dança do Breaking, assim como outros ritmos, nos abre portas para a criatividade. É muito difícil criar algo, pois quase tudo já foi feito por alguém em algum lugar, mas eu poderia dizer que sim, um passo ou outro tem a minha assinatura, mas ainda não dei nomes a eles. Mas um deles eu chamaria de “Martelinho”, que é quando eu faço um CC, ando para trás e dou uma pancada no chão, como se fosse um martelo – disse.
Honrar o pai e o artista
Além de sua contribuição artística, o rapper também deixou um legado pessoal com seus filhos, Thamires e Wanderson. Este último, esteve presente no evento que celebrou o trabalho e a memória de seu pai. Ele falou da importância do Sabotage (artista) para a comunidade do hip hop e, especialmente, para o povo preto.
Quero agradecer o Centro Cultural São Paulo por dar essa prioridade para nós, através desse evento. Uma oportunidade de levar a história do meu pai. É uma satisfação trazer os beeboy, o skate e o grafite aqui. Mesmo para aqueles que não conseguiram vencer o que vale é o processo. Os que não chegaram a ganhar já venceram só de estar aqui e também falar da importância do Sabotage. Ele com certeza, deve estar muito feliz em saber que sua arte está viva!, pontua Wanderson.
A presença de Wanderson nessas ocasiões reforça o quanto o legado de Sabotage continua vivo na família e nas gerações que o sucedem. Para ele, a continuidade desse trabalho é um ato de resistência e afirmação da cultura e identidade negra, algo essencial para a luta social e racial no Brasil.
O legado do Sabotage para a música
Sabotage, nascido no dia 3 de abril de 1973 no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, foi um dos maiores nomes do rap nacional. Rapper, ator e compositor, ele se destacou por suas letras fortes e conscientes, que abordavam questões sociais, raciais e de periferia. Sua habilidade de traduzir a realidade de sua comunidade, com uma visão crítica e ao mesmo tempo poética, fez dele um ícone não apenas do hip hop, mas também da música brasileira em geral.
Sabotage teve um impacto imenso no cenário musical brasileiro, principalmente no movimento do hip hop, e sua obra continua sendo uma fonte de inspiração para gerações. Seu trabalho não só refletia a vivência nas ruas e os desafios enfrentados pelos jovens de periferia, mas também trazia à tona a luta pela igualdade racial e a valorização da cultura negra. Ao longo de sua carreira, ele construiu um legado que transcende a música, influenciando o cinema, o teatro e a cultura popular.