“O futuro se prepara no presente; é dessa maneira que eu encaro a educação e a ciência”- Dorina Nowill

Por Camila Martins* | Redação CCSP | Fotos: Camila Martins e Reprodução de Ronaldo Gutierrez.

04/2/2026

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Restaurantes, buzinas de carros, prédios altos e uma grande quantidade de pessoas em deslocamento é o que se vê cotidianamente ao caminhar pelos bairros da Vila Mariana e Liberdade. Ao aguardar a luz vibrante verde permitir passagem, semáforos inteligentes e pisos táteis nas calçadas são presenças distintas desta cena cotidiana em São Paulo, mas que logo se destoam em meio à cidade de concreto. Muitas vezes, ao caminhar por espaços sem recursos de acessibilidade, pessoas sem deficiências não se dão conta da dimensão das dificuldades enfrentadas no dia a dia para executar até tarefas mais ordinárias. Passos à frente, porém, o cenário é outro: na Rua Vergueiro, o Centro Cultural São Paulo, pensando nestas dificuldades, visa em cada espaço a inclusão, mostrando que a infraestrutura consciente é possível.

De acordo com o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022, o Brasil possui 14,4 milhões de pessoas com deficiência, um número correspondente a quase 1,5 vezes a população da capital paulista. No Brasil, a Constituição Federal de 1988 garantiu direitos sociais e individuais e permitiu que legislações como a Lei da Acessibilidade (Lei nº 10.098) e a Lei Brasileira de Inclusão fossem criadas. No entanto, enquanto a legislação avança no papel, a realidade urbana e digital brasileira ainda impõe um labirinto diário de exclusão a milhões de cidadãos.

O futuro se prepara no presente; é dessa maneira que eu encaro a educação e a ciência. ” A célebre frase de Dorina Nowill, pioneira na luta pelos direitos das pessoas com deficiência visual no Brasil, resume a filosofia que move iniciativas como a Biblioteca Louis Braille no Centro Cultural São Paulo. Fundada em 29 de abril de 1947 pela mesma, a biblioteca é um exemplo exímio da disposição de alterar o cenário de exclusão. O local, que leva o nome do inventor do sistema de códigos táteis, sistema Braille, revolucionou a educação inclusiva ao oferecer atividades de entretenimento, educação e formação para pessoas com deficiência visual, familiares, profissionais da educação e demais interessados. Também fornece a acessibilização de tecnologias como cursos de grafia braille, impressora braille, equipamentos de tecnologia assistiva, como computadores, scanners, lupa ampliadora e dispositivos de inteligência e visão artificial. Segundo Priscila Viviane Estevam, coordenadora da Biblioteca Louis Braille, a organização do espaço é pensada para facilitar a mobilidade e a orientação dos usuários e ser um lugar de acolhimento: “ Sempre que alguém nos procura para pedir ajuda com assuntos que não estão relacionados à biblioteca, tentamos ajudar ou indicamos lugares que podem ”, relata.

O tradicional Curso de Leitura e Escrita Braille, ministrado por profissionais como Maria Elisa Poli, é oferecido bianualmente e amplia o acesso à escrita, combatendo o analfabetismo funcional entre as pessoas cegas. A presença desses recursos em um espaço público central reforça a ideia de que a inclusão é uma questão de infraestrutura e investimento em métodos que preparem o indivíduo para a participação plena na sociedade em que todos vivam com dignidade, autonomia e independência. Este modelo demonstra que a acessibilidade eficaz não é um custo, mas um investimento no capital humano do país. Algo semelhante ocorreu com o Curso de Musicografia Braille, o qual teve duração de um ano e possibilitou ao público adentrar ao mundo da música através da linguagem tátil.

Mas a autonomia e independência de pessoas com deficiência visual é cotidiana na Biblioteca Louis Braille somado às tecnologias assistivas e arquitetura integrada, livros táteis impressos e audiolivros gravados em CDs ou vídeos online no Youtube, são ambos disponibilizados por empréstimos para qualquer parte do país, por meio do Cecograma (serviço gratuito prestado pelos Correios). As gravações, realizadas no estúdio da biblioteca, ficam por conta de Nelson Katayama, um trabalho contínuo ocorre por um ano todo “Sempre que acaba um livro já começa a ser gravado outro”, conta a coordenadora.

As aulas ministradas e facilidades oferecidas contribuem para mudança de um cenário, onde a educação dita como um direito universal é tomada por discriminações. A falta de recursos adequados isola vastas parcelas da população da informação e dos serviços essenciais. E, talvez a mais difícil de transpor, o preconceito e a falta de consciência persistem como um muro invisível.

No sentido mais literal da palavra educação, a imagem levada a memória é de imediato salas de aula tradicionais, com cadeiras enfileiradas e uma lousa de giz, as mesmas salas em que segundo pesquisas do Censo Escolar de 2024, abrigam 45,5% dos alunos sem o recurso de Atendimento Educacional Especializado (AEE) por eles necessitados. Discussão recentemente explicitada por Anna Paula Feminella, secretária nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência no Senado Federal. Para a profissional, é essencial a garantia deste pilar que “impacta a vida das pessoas” , “ Garantir que as crianças estejam alfabetizadas no tempo escolar adequado requer infraestrutura física e pedagógica adaptada, acessível e em condições de atender à meta de alfabetização de todas as crianças, inclusive as crianças com deficiência” , ressaltou.

A arte como ferramenta de acessibilidade, imaginação e formação crítica
Fora dos tradicionais espaços de aprendizado, a arte também age como uma extensão da formação crítica dos indivíduos. Ao pensar na arte como meio de verdadeira acessibilidade, “Leituras às Cegas”, projeto teatral inclusivo para pessoas com e sem deficiência visual sensibilizou a platéia por meio de aromas, elementos cênicos e instrumentos musicais e fizeram-lhes sentir a força do drama espanhol em todo o corpo, na manhã do dia 13 de novembro. A prática cuidadosa e disruptiva é derivada da técnica argentina Teatro Cego, que acontece no escuro. Para isso, o público vidente é convidado a ausentar-se da visão e usufrui junto ao público cego de recursos que ampliam a imaginação e criatividade.

A tragédia “Bodas de Sangue”, de Federico García Lorca, escolhida justamente por ser caráter descritivo e conceituado no ramo teatral e educacional, conta a história envolvente e poética de um casal com passados turbulentos e uma noiva em fuga.

Yago Dionizio, ator, jornalista e pessoa com deficiência visual foi intérprete do noivo, peça central das cenas. E fora dos palcos, é protagonista do projeto que busca democratizar o acesso ao teatro como “propósito de vida”. De acordo com o também consultor de acessibilidade, que desenvolveu tal necessidade a partir da dor pessoal da perda de sua visão e ressignificação dela, a importância dos equipamentos vai além do acolhimento e perpassa a luta e o apoio governamental. “ Quando nos deparamos com o apoio do Centro Cultural São Paulo, por exemplo, essa parceria se torna de extrema importância “, exalta o ator, com orgulho da proporção tomada pela iniciativa, que hoje conquista o contato com “um público consumidor de boas peças” mesmo com empecilhos.

Segundo Yago, o maior desafio enfrentado na produção e curadoria de conteúdo acessível está diretamente ligado à falta de acessibilidade aos materiais artísticos e a descredibilização de sua capacidade de atuação devido à deficiência visual, o que o faz lutar mais para adquirir e compartilhar conhecimento. Contudo, as dificuldades são contornadas com a felicidade do público, “Os sorrisos do público com deficiência visual e seus relatos se tornaram nosso combustível para continuar lutando por mais acessibilidade e respeito” . Prioridades que refletiram no público, que esteve maravilhado com a apresentação extra do grupo, por ele dirigido, como quando o café descrito no roteiro e transplantado para a boca dos atores materializou-se em um aroma inconfundível nas narinas dos espectadores, ao fazer valer o direito de usufruir e ocupar os equipamentos públicos da cidade como qualquer outra pessoa.

Práticas inclusivas no campo da cultura
A Biblioteca Louis Braille é um desses espaços fundamentais, dedicada a ampliar o acesso à leitura para pessoas com deficiência visual e a fortalecer práticas inclusivas no campo da cultura. Verônica Aguiar, administradora, pontua a importância do acesso facilitado: “Receber os livros em casa mudou completamente minha relação com a leitura. O Cecograma me dá autonomia e garante que eu continue tendo acesso às histórias, ao conhecimento e à imaginação. É um serviço que faz a diferença no dia a dia”.

Essa diferença citada por Verônica é um dos serviços oferecidos pela Biblioteca chamado Cecograma, que consiste no empréstimo gratuito de capítulos de obras enviados pelos Correios diretamente para a casa do leitor. Essa iniciativa garante mais autonomia e acesso à leitura, respeitando as necessidades do público atendido. O Cecograma é um serviço exclusivo da Biblioteca Louis Braille e integra suas políticas de acessibilidade.

Além disso, o público também pode contribuir de forma ativa por meio do Voluntariado na Biblioteca Louis Braille, ajudando a perpetuar e ampliar esse programa para alcançar ainda mais pessoas. “O Cecograma e o voluntariado existem para garantir que mais pessoas tenham acesso à leitura. Cada livro enviado, gravado ou revisado representa mais inclusão, autonomia e direito à cultura. No meu caso, sou voluntária na gravação de audiolivros. Eu chego para ler, mas saio transformada. Saber que minha voz ajuda alguém a acessar um livro é uma experiência potente e cheia de sentido” diz Paloma Veronezi, nutricionista e voluntária da Braille.

O voluntariado pode acontecer de diferentes formas, como a gravação de audiolivros no estúdio de rádio do CCSP, em que o voluntário realiza a leitura da obra; a revisão de livros em tinta, feita presencialmente, em leituras acompanhadas por um funcionário que realiza simultaneamente a leitura em braille, com dedicação semanal de aproximadamente 1h30; e o voluntariado em informática, que pode ser realizado de forma remota, a partir da revisão de arquivos digitais (PDFs) de livros escaneados.
Para participar do voluntariado, é necessário:
* Ser maior de idade;
* Ter disponibilidade de tempo;
* Realizar um treinamento inicial com um funcionário da biblioteca, com a leitura mínima de um livro, que servirá como etapa de avaliação e aprovação.

Para saber mais sobre o Cecograma, o voluntariado ou outras condições de acessibilidade, entre em contato com as Bibliotecas pelo telefone ou WhatsApp (11) 3397-4088. A Biblioteca Louis Braille funciona de terça a sexta, das 10h às 19h, e aos sábados, das 10h às 18h, permanecendo fechada aos domingos e feriados que caem em dias de semana. Dúvidas também podem ser encaminhadas para o e-mail: bibliotecabraille@prefeitura.sp.gov.br.

*Estagiária sob supervisão de Fellipe Cartier