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  • Programação:
    18h – Na terra dos caçadores de cabeça
    20h – Os exilados
  • Sala Circuito Spcine – Paulo Emílio
  • Classificação indicativa: livre
  • Grátis, com retirada de ingressos na bilheteria física do CCSP, 1h antes de cada sessão

“Filme como um objeto no espaço: Um olhar sobre acervos de cinema” é um evento bimestral de cineclube com o propósito de mostrar as diferentes faces da preservação de cinema, por meio de filmes de diferentes períodos e países que foram restaurados nos últimos 15 anos. As cópias dos filmes vêm de instituições públicas e privadas que são voltadas à preservação, com o intuito de mostrar seus arquivos e o trabalho que envolve levar um filme antigo de volta ao grande público. O evento acontece no formato de sessões duplas de cinema para representar os acervos, com apresentações antes de todas as exibições pelos curadores e organizadores do evento, Aaron Cutler e Mariana Shellard (da produtora Mutual Films).

A primeira edição de “Filme como um objeto no espaço” traz um olhar sobre o trabalho da pequena distribuidora norte-americana Milestone Films, fundada em 1990 pelo casal nova-iorquino Dennis Doros e Amy Heller e atualmente presidida por Maya Cade, como um braço da distribuidora Kino Lorber. Ao longo da sua existência, a Milestone se tornou um importante e influente canal de divulgação de filmes redescobertos, com ênfase em histórias não contadas pelo cânone tradicional de cinema por serem de vozes marginalizadas pela sociedade norte-americana. Frequentemente, Doros e Heller trabalham em colaboração com os cineastas e seus familiares no processo de restauração – inclusive comissionando novas composições musicais para filmes da era silenciosa – de grandes obras que, em muitos casos, estão recebendo pela primeira vez um lançamento adequado nos cinemas.

A sessão dupla que vai passar no Centro Cultural São Paulo apresenta dois filmes pioneiros sobre a vida indígena norte-americana que foram realizados em momentos distintos da história de cinema. O longa-metragem etnográfico da era silenciosa, Na terra dos caçadores de cabeças (feito por Edward S. Curtis em 1914), e o filme híbrido independente Os exilados (feito por Kent Mackenzie em 1961) nos levam a refletir sobre a representação da vida indígena no cinema hoje em dia. E, além dos filmes, o evento conta com a presença da pesquisadora e curadora brasileira e indígena de arte Lahayda Mamani Poma para comentar as exibições ao lado dos curadores.

Agradecimentos especiais da primeira edição de “Filme como um objeto no espaço” vão para o programador esloveno de cinema Jurij Meden, cujo livro Scratches and Glitches: Observations on Preserving and Exhibiting Cinema in the Early 21st Century (2021) inspirou o nome do evento, e para Leonardo Bomfim Pedrosa, ex-programador de cinema da Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre. Esta edição é dedicada às memorias da pintora colombiana Beatriz González (1932-2026) e do tio de um dos curadores, o corretor norte-americano de imóveis Wayne Elkins (1958-2022).

Programação:

18h – Na terra dos caçadores de cabeça
20h – Os exilados

Filmes:

Na terra dos caçadores de cabeças, de Edward S. Curtis

In the Land of the Head Hunters, EUA, 1914, 67min, 35 mm para DCP, livre

Com Stanley Hunt, Margaret Wilson Frank, Sarah Constance Smith Hunt

O renomado fotógrafo norte-americano Edward S. Curtis (1868-1952) dedicou sua vida a documentar o mundo dos indígenas do seu continente. Ele criou um dos primeiros longas-metragens dramáticos da história do cinema – uma obra-prima estrelando membros da tribo Kwakwaka’wakw (Kwakiutl), da Colúmbia Britânica. O melodrama fantasmagórico de Curtis é ambientado no século 18 (antes da chegada dos europeus na região) e conta a história da jornada espiritual de amor e desilusão de um guerreiro, frente a uma batalha entre tribos, para salvar sua noiva. O estilo documental do filme, que se concentra em detalhes históricos, e o lendário olhar para composição de Curtis fazem de Na terra dos caçadores de cabeças um dos filmes mais bonitos da era silenciosa e uma impressionante evocação da cultura nativa norte-americana, famosa por sua incrível herança artística. Alguns aspectos do filme se basearam na tradição oral dos Kwakwa’wakw e retratam, com precisão, rituais tribais que na época eram proibidos de serem praticados em lugares públicos e puderam ser executados apenas para o filme. 

Na terra dos caçadores de cabeças estreou em 1914, com uma composição orquestral que foi a primeira escrita originalmente para um longa-metragem. Esta composição, descoberta na década de 2000, acompanha a cópia restaurada da Milestone Films, assim como as belas cores da tintura. Por décadas, o filme foi considerado perdido e existiu apenas em fragmentos em um documentário chamado Na terra das canoas de guerra (In the Land of the War Canoes), antes da reconstrução da Milestone (realizada em colaboração com a UCLA Film & Television Archive) estrear em 2014.

Os exilados, de Kent Mackenzie

The Exiles, EUA, 1961, 73min, 16 mm para DCP, livre

Com Yvonne Williams, Homer Nish, Tommy Reynolds

A sequência de abertura do longa de estreia de Kent Mackenzie (1930-1980) apresenta imagens icônicas de pessoas indígenas que vêm da série do fotógrafo Edward S. Curtis O índio norte-americano (The North American Indian, 1907-1930). O restante do filme mostra 12 horas na vida de um grupo de jovens indígenas norte-americanos que deixaram suas reservas nos anos 1950 para morar em Los Angeles, no bairro de Bunker Hill – uma área residencial degradada com mansões vitorianas decadentes. O roteiro de Os exilados foi montado a partir de uma série de entrevistas que são apresentadas com voz em off. Os atores não profissionais Yvonne Williams, Homer Nish e Tommy Reynolds apresentam um retrato enérgico, sem melodrama, de uma comunidade marginalizada. 

Nascido na Inglaterra, Mackenzie era um homem rico e branco entre indígenas americanos, mexicanos e filipinos, em uma comunidade pobre de Los Angeles. Ainda assim, sua sensibilidade e interesse genuínos em compreender as pessoas brilham em seu primeiro longa-metragem e se contrapõem à tendência sentimentalista e fetichista que frequentemente emergem em tentativas de representar “o outro”. Nenhum outro filme da época retratou os nativos americanos como protagonistas e, consequentemente, Os exilados não conseguiu distribuição, sendo lançado apenas em 2008, décadas depois de sua realização e da morte prematura de Mackenzie, em 1980. Para muitos críticos e pesquisadores, é um dos primeiros filmes neorrealistas feitos nos Estados Unidos.

Minibio da convidada:

Lahayda Mamani Poma, formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo e Mestrado integrado em Programas Emergentes. Com prêmios e nomeações nas áreas de arte e arquitetura. Foi curadora no IAB-SP, SESC-SP e SMC. Atualmente é curadora no Instituto Tomie Ohtake e co-curadora da exposição de acervo do Instituto Moreira Salles.

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