Com a participação especial de Linn da Quebrada no dia 29 de janeiro o grupo celebra o pertencimento e a potência artística de corpos não cisgêneros
Por Camila Martins* | Redação CCSP | Reprodução: Coral Vozes Trans
27/01/2026
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O Coral Vozes Trans, inteiramente integrado e dirigido por pessoas de identidades não cisgênero, é uma iniciativa pioneira no Estado de São Paulo. O projeto iniciou-se com um curso no Sesc Consolação e, hoje, expande-se cada vez mais. Criado em 2024 por idealização do pianista Luís Chamis e da cantora Eva Dantas (também conhecida como Eva Treva), nasceu da percepção da falta de destaque de pessoas trans na música e busca quebrar paradigmas, especialmente o da voz.
Mais do que técnica, o coral tornou-se um refúgio. “No primeiro dia, já sentimos quase instantaneamente uma forte sensação de pertencimento”, relata a fundadora. Para muitos, o coletivo é a primeira oportunidade de não ser “a única pessoa trans” no recinto, criando uma rede de apoio que evoluiu para uma família. “Cantar em coral desperta nossa humanidade; nos sentimos partes importantes de algo maior que um indivíduo. É algo mágico”.
A desconstrução da voz
A organização foge dos modos tradicionais que exigem divisões ligadas ao gênero. A altura do canto, graves, médios e agudos , são o que determinam a estrutura. Uma escolha sensível e política. Segundo a regente e fundadora do grupo, Eva Dantas, que destaca a agêneridade da voz, “Tentar enquadrar a voz partindo do gênero é violento e transfóbico”, explica. “Voz não tem gênero; é construção. No coral, as vozes podem soar livremente, respeitando a identidade de cada um e buscando uma educação libertadora”.
A proposta de autonomia e liberdade serve como antídoto à disforia e ao medo, transformando a voz, historicamente usada como fator de identificação binária, em potência de ressignificação da individualidade de cada componente. As aulas de técnica vocal e instrumental, mais do que um simples curso, fazem ecoar, por meio da força da expressividade sonora e da musicalidade, a necessidade de respeito, integração social, segurança e visibilidade para uma população que segue marginalizada. Sejam advindos de corais de igreja, grupos teatrais ou iniciantes, todos incorporam a verdadeira função da arte: a autoexpressão, o despertar de sentimentos no outro, a representatividade e o confronto à padronização, em um lugar de resistência, conquistas e pertencimento.
O repertório musical segue a mesma visão. O coral serve como meio para a disseminação de produções de autores, como Liniker e sua premiada obra “CAJU” (vencedora de três Grammys Latinos em 2025), e diversos outros cantores brasileiros. “O intuito é dar visibilidade a artistas trans do Brasil e falar com outras pessoas trans na plateia, para que se sintam vistas e para que o público cisgênero possa mergulhar no nosso universo e exercitar a empatia.”
Ocupação do espaço público
Com passagens marcantes pelos Sescs Consolação, Sesc 24 de Maio e Pinheiros no Campeonato PaulisTrans, o Coral Vozes Trans agora ensaia nas dependências do Centro Cultural São Paulo (CCSP). Para Eva, a ocupação deste espaço é vista como um marco na luta por visibilidade e luta coletiva de toda a sociedade contra preconceitos enraizados: “Quando espaços como o CCSP abrem suas portas para pessoas trans, também estão abrindo para a diversidade e para a vida em sua potência mais bonita“.
Além do impacto social, o apoio institucional resolve desafios logísticos de grupos independentes, que raramente encontram recursos e salas adequadas para o canto coral. Essa parceria culmina na participação do grupo no TransLuciDay, no emblemático dia 29 de janeiro (Dia da Visibilidade Trans). O evento contará com a colaboração de Linn da Quebrada, que sugeriu pessoalmente a canção que será interpretada pelo coletivo no festival.
Ao ocupar o espaço público com harmonia, afeto e posicionamento, o Coral Vozes Trans reafirma que visibilidade não é concessão, é direito. Cada ensaio, cada apresentação e cada voz que ecoa rompe padrões, amplia imaginários e convoca a sociedade a escutar com mais empatia e responsabilidade. No CCSP, essas vozes não apenas cantam: elas marcam presença, constroem memória e transformam o silêncio em potência coletiva.
Venha comemorar o Dia da Visibilidade Trans no Centro Cultural! Saiba mais sobre essa data e veja outras recomendações de obras e artistas. (clique para acessar o link)
*Estagiária sob supervisão do jornalista Fellipe Cartier.
Para saber mais da programação de dezembro, acesse o site do CCSP.


