Quem fez, quem faz: Camila Romano

Quem fez, quem faz é uma seção do site do CCSP que procura colocar luz sobre trabalhos fundamentais para o funcionamento da instituição, mas que, por diversas razões, permanecem “invisíveis” ao público. Graduada em artes visuais e mestranda em museologia, Camila Bortolo Romano é coordenadora da Coleção de Arte da Cidade há três anos e, na entrevista abaixo, realizada em outubro de 2018, ela conta um pouco sobre as aproximações entre seus estudos e seu trabalho de manuseio, catalogação e organização do acervo na instituição. Leia abaixo a entrevista na íntegra:

Em que ano você entrou no CCSP e como você chegou aqui?
A minha escolha de formação, a princípio, foi contabilidade, mas, como tive alguns problemas de saúde, isso me levou a pensar no que eu realmente queria fazer. Queria ver sentido naquilo que eu fazia. Foi então que comecei a graduação em artes visuais (nesse momento eu vinha muito ao Centro Cultural para passear, assistir aos shows) e sempre tive vontade de trabalhar aqui. Alguns anos depois, surgiu uma vaga de estágio no Laboratório de Conservação e Restauro e eu entrei aqui em 2011. Aprendi desde a higienização de uma obra até o seu armazenamento, como manter o espaço onde ela está em condições adequadas para aquela obra continuar em bom estado de conservação. Desse ponto, eu passei para a Coleção e comecei a aprender sobre a documentação e a importância da pesquisa sobre as obras. Na museologia há vários aspectos e o fato de eu ter passado do Laboratório para a Coleção fez com que eu aprendesse todas as etapas: a conservação, a documentação, a montagem de exposição, etc.
Não apliquei muita coisa que aprendi na faculdade aqui, porque são conhecimentos complementares, mas não a mesma coisa, então foi muito importante ter entrado em contato com essa área de preservação de acervo no CCSP.
Tudo o que eu aprendi nessa área de preservação de acervo foi aqui no Centro Cultural, na prática, e, conhecendo isso, fui atrás de cursos para me capacitar nessa área, que é bem específica. Agora que estou no mestrado, com um viés mais acadêmico, é interessante conceitualizar tudo aquilo que sei na prática.

Quais são o tema e a área do seu mestrado?
Faço museologia na USP. Na minha experiência como documentarista da Coleção de Arte da Cidade, fiz a catalogação do acervo de arte postal da 16ª Bienal que está aqui desde 1984 e nunca tinha organizada nem catalogada completamente. Assumi isso como um desafio e me apaixonei pela especificidade desses materiais, que estão fora daquilo que costuma compor uma obra de arte tradicional.
Essas diferentes formações das obras trazem vários desafios para enquadrar cada item na documentação, o que me despertou interesse em fazer uma pesquisa maior, para destacar a importância desse acervo, que já foi considerado perdido, mas que na verdade está aqui, organizado e disponível para pesquisadores. Esse material não era entendido como obra de arte, não ficava submetido ao mesmo tratamento: não era guardado em reserva técnica nem havia preocupação em catalogá-lo. Isso levou a um descaso que fez com que o material se perdesse.
Além desse cenário, outras perguntas que me faço ao longo da pesquisa são: como ficam as obras feitas para circular fora das instituições, fora de galerias? E como esse material veio parar em um museu? Qual é a relação com seu espaço? É mais ou menos essa a minha pesquisa do mestrado.

Como foi para você, tão jovem ainda, assumir a coordenação de uma coleção de arte tão importante?
Foi difícil, porque, no geral, é uma área que tem muita gente mais velha com uma carreira consolidada, então existe certo preconceito. Mas, desde a minha experiência no laboratório, eu fui subindo aos poucos, passando ainda pela documentação, mostrando para algumas pessoas que eu era capaz de responder por tudo aquilo.
Estou na coordenação da Coleção da Cidade há três anos e vejo que amadureci bastante. Não sei se eu estava preparada na época, mas aprendi a lidar com as solicitações e tive muito apoio das pessoas que trabalham comigo. Assumi a coordenação quando o Eduardo Niero se tornou diretor da Supervisão de Acervo. Ele, inclusive, me apoiou muito nesse início, até eu conseguir dar conta do trabalho, até porque é bem raro mesmo você ver alguém jovem assumir esse tipo de compromisso. Tudo o que eu sei, aprendi aqui. Considero ter uma graduação de sete anos no CCSP.

O que faz uma coordenadora dessa coleção?
A coordenadora cuida da gestão do acervo e de tudo o que envolve a conservação, a documentação, os arquivos dos artistas e as informações sobre ele e suas obras. Além disso, trata de empréstimos, para o Brasil e o exterior, e, com isso, envolve ainda tomar todos os cuidados e todas as providências para que certa obra vá e volte em segurança. No trabalho, eu ainda vou em busca de projetos para conseguir verbas e patrocínios: para compra de mobiliário adequado, de material para fazer o acondicionamento dessas obras… Enfim, cuido de todos esses detalhes que envolvem as obras de arte.

Você acha que, em alguma das suas contribuições ao trabalho, o fato de ser jovem foi determinante?
A área de museologia é muito conservadora, você deve fazer de determinado jeito e pronto. Acho que colaborei em tentar simplificar os procedimentos, torná-los menos burocráticos, no processo do dia a dia, mudando alguns aspectos na forma de trabalhar. Tentei buscar uma forma mais dinâmica, mais fluida e mais organizada, que visava facilitar os processos propondo uma coisa nova, como a catalogação do acervo e a reorganização da reserva técnica.
A gente recebeu várias doações e teve um momento em que não havia mais onde guardar de maneira adequada. Aí a Cláudia Lameirinha (a conservadora responsável pelo acervo) e eu começamos a pensar em soluções que são improvisadas e que beneficiaram o conjunto das obras. Com a equipe de manutenção, começamos a pensar em uma estrutura para guardar as obras e não simplesmente “ah, precisa comprar o mobiliário adequado”… Como não há verba suficiente, é preciso fazer algumas adaptações. A gente tem que bolar soluções, usar a criatividade e, dentro do possível, tentar desburocratizar.
Acho que uma cabeça mais nova, ou mais fresca, consegue pensar em soluções que não aquelas habituais e consagradas. E tudo isso sempre em conjunto com a equipe, nunca uma iniciativa solitária, tendo em mente a ideia de “vamos tentar gente, vamos fazer uma experiência?” e tomando as tarefas até mesmo como objetivo pessoal.

Qual é o papel e/ou influência de pessoas com mais tempo de CCSP para o seu aprendizado e para um resultado melhor do trabalho?
Como a minha primeira experiência aqui foi no Laboratório, uma das primeiras pessoas com quem eu tive contato foi a Mariolis Della Torre. Foi incrível, ela é uma pessoa apaixonada pelo trabalho e por ensiná-lo. Isso me contagiou: como ela ama o trabalho, também conseguiu fazer com que eu me apaixonasse.
Como eu disse, tudo o que aprendi a fazer aqui, foi porque alguém teve a paciência de ensinar, desde pessoas mais velhas até aquelas com idade mais próxima da minha. Tudo o que sei, devo às pessoas que trabalham comigo aqui. Foi uma escola mesmo, e a minha formação profissional, ética, tudo isso aprendi aqui. Houve desafios, mas também teve a parte boa de as pessoas se abrirem a ensinar o que sabiam.

E por que estar aqui e sempre voltar?
Para tentar dar o meu melhor, mesmo não fazendo parte de uma área privilegiada e trabalhando com acervo, a que as pessoas só dão o devido valor quando pega fogo, sem se dar conta do trabalho e do cuidado que temos antes disso… Tentar fazer o máximo com pouco, já que esse acervo é de todo mundo. Não temos o melhor salário, o melhor equipamento, mas amamos isso aqui. Devo muito a este espaço, aprendi tudo o que sei aqui.
O fato de eu ter ido atrás de fazer um mestrado é um pouco dessa vontade de me capacitar para tentar melhorar a condição do patrimônio no Brasil. É muito fácil falar “ah, vou para a Europa, já que lá as pessoas valorizam [arte e cultura no geral]” quando o grande desafio em relação ao valor da arte está aqui.

Entrevista: João Vitor Guimarães, Marcia Dutra e Vinícius Máximo
Fotos: Sossô Parma

*Publicado em 14 de janeiro de 2019

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