Laurie Anderson e a resistência da perda

Falar sobre a morte nunca foi um assunto fácil. Quando Albert Camus inicia seu romance O estrangeiro com “Hoje mamãe morreu”, ele nos coloca imediatamente no vazio do que representa a perda de alguém. Por mais que em seguida a história vá se encaminhar por outras reflexões, a frase, em um eterno tempo presente, tem a sua força e nos questiona sobre como nos sentimos em face do luto.

Em seu filme Coração de cachorro (2015), Laurie Anderson imerge em uma poesia audiovisual sobre o luto e suas diversas formas e complexidades. A partir de um belo retrato da relação com sua cachorra Lolabelle, Anderson faz um ensaio sobre a perda, a reparação e a memória.

Anderson consegue captar o elemento principal que nos liga enquanto seres vivos: a incapacidade de superar a morte e o medo que temos diante dela. A partir da sua relação com Lolabelle, Anderson vai nos colocar em reflexões sobre diversos pontos de nossas vidas enquanto seres finitos. Como podemos continuar a questionar o que é a vida se mal sabemos o que esperar do futuro? E como conseguir viver sem saber de onde vem a ameaça que pode acabar com nossa existência? As respostas figuram em uma pequena história que Anderson nos conta. Um dia, quando ela e Lolabelle saíam juntas para caminhar no interior da Califórnia, Lolabelle quase foi atacada por um falcão que sobrevoava a região. Anderson fala que percebeu na expressão da sua cachorra um olhar novo, um olhar de alerta que expressava uma nova percepção de perigo: a de que “eles podem vir pelo ar”. E para Anderson tal sentimento é o mesmo experimentado pelas pessoas depois do 11 de setembro. Ou seja, assim como Lolabelle, estaremos sempre alerta, não importa de onde venha o perigo, nosso instinto é o de sobreviver.

Com imagens recortadas e coladas de arquivo pessoal, a poesia visual de Anderson é digna de apreciação. As imagens têm texturas, sobreposições, assim como palavras. Ali nada é simples. A dimensão do filme é profunda e tocante. Artista multimídia, Anderson também é responsável pela composição da trilha sonora que tem papel importante tanto na vida da artista quanto na obra.

Como um filme experimental, Coração de cachorro se apropria de imagens que representam a perda da cineasta, algo para trazer a memória de Lolabelle para o instante cinematográfico. Nota-se nos créditos do filme que não há apenas uma Lolabelle nas imagens, mas diversas, representadas por outros cachorros que tomaram o lugar dessa ausência. O ensaio, sobretudo enquanto um documentário autobiográfico, é um espaço mais aberto às experimentações e possibilita novas relações entre imagem, som e texto.
A partir das imagens e das sobreposições, bem como da música, o filme nos remete a essa aura da melancolia. A chuva que não para de cair na janela, os tons frios, mas também os espaços vazios, o movimento vago da natureza e sua infinitude enquanto algo sublime. As pinturas de paisagem do século XVIII trazem essa dimensão narrativa de que o espaço da natureza é imutável e eterno, em contraposição à existência do espectador, ou seja, a nossa existência breve, mais próxima de uma tempestade que abala a eternidade daquele ambiente.

É notável a força que Anderson sente nas palavras, tanto as faladas quanto as escritas. Elas aparecem mesmo que efêmeras e, às vezes, impossíveis de serem lidas por completo. Como um lampejo, algumas frases surgem no meio do filme e uma delas é do filósofo Ludwig Wittgenstein: “Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”. É simples entendermos que é a linguagem que nos dá significação, é a partir dela que codificamos o mundo e compreendemos nossa existência, nosso amor e, também, nossa morte.

Anderson consegue estender no tempo o impacto da frase de Camus, realiza digressões sobre a memória e sua consistência digital nos dias de hoje. Mas, acima de tudo, Anderson consegue nos sensibilizar sobre a proximidade que temos da finitude e a noção de que a vida não é apenas uma consequência, mas uma resistência às adversidades. E é isso que nos dá sentido.

Texto: Caio Narezzi (doutorando em estudos cinematográficos pela Université Lumière Lyon 2 e pela Université de Montréal, colabora mensalmente com o site do Centro Cultural São Paulo)
Ilustração da capa: Beatriz Vecchia

*Publicado em 30 de outubro de 2018

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