Diálogos entre acervos: O espaço como possibilidade de criação no site specific

Diálogos entre acervos

A ideia da série Diálogos entre acervos é criar pontos de contato entre os livros do acervo da Biblioteca (especialmente da Alfredo Volpi) e as obras das coleções mantidas pelo CCSP. No mês de maio, apontamos relações possíveis entre obra de arte e espaço – nas produções chamadas de site specific –, mostrando novas relações da arte com o espectador.

O espaço como possibilidade de criação no site specific

Do inglês, o termo site specific é utilizado, no meio artístico, para designar obras produzidas em determinado espaço, em que os elementos dialogam com o meio circundante para o qual o trabalho é elaborado. Trata-se, portanto, de uma relação inerente entre obra de arte e lugar, de modo que o artista se volta para o ambiente – incorporando-o à obra e/ou transformando-o –, seja ele o espaço da galeria, a natureza ou as áreas urbanas.

Revisa-se, então, a ideia da paisagem apenas enquanto meio para a expressão plástica. Recorrentemente, na história da arte, em diversos períodos, os artistas representaram a natureza em suas produções. Agora essa natureza é pensada enquanto lugar onde a obra de arte se enraíza. Nesse sentido, os trabalhos site specific questionam a relação hierárquica do ambiente a serviço da arte – o espaço pode assumir a posição de ponto de partida no fazer artístico ou ser o próprio mote para o artista.

Outro ponto é que esse tipo de produção remete à noção de arte pública. Logo, a arte supera os espaços tradicionais para os quais é frequentemente destinada: os museus, as galerias e as instituições de cultura. Assim, é possível pensar em trabalhos que, além de intervirem na paisagem, superam certas relações institucionalizadas entre arte e espectador – diante da expansão do trabalho no espaço, o público deixa de ser observador distanciado, podendo intervir e mesmo se tornar parte da obra.

Diversos artistas já criaram diálogos entre o espaço do Centro Cultural São Paulo e suas produções. Thiago Bortolozzo, na instalação que faz parte da série Vital Brasil, de 2002, instigou o público a partir do vínculo entre obra e ambiente. “Trata-se de uma obra de arte ou de uma reforma no espaço?” A partir desta questão, o trabalho se materializava com elementos instáveis e típicos de reformas, como tapumes que se adaptavam às vigas e colunas do piso expositivo, estabelecendo uma relação mútua com a arquitetura. A instalação integrou a mostra do Programa de Exposições do CCSP de 2002 e foi incorporada ao acervo da Coleção de Arte da Cidade.

Thiago Bortolozzo – Vital Brasil | Foto: divulgação

 

Thiago Bortolozzo – Vital Brasil (estudo) | Foto: divulgação

 

A série do artista ainda esteve, em 2004, na 26ª Bienal de São Paulo, na qual uma estrutura de madeira foi criada no primeiro andar do pavilhão, saindo do prédio, e chegava ao Parque Ibirapuera. Cada trabalho da série assume diversas formas e procedimentos que questionam a arquitetura do meio circundante. Então, a noção de site specific se explica pela capacidade que a obra tem de transformar e, também, aderir os elementos do espaço que a contextualiza.

Amélia Toledo (1926-2017) tem uma vasta produção que explora a arte enquanto elemento complementar do espaço – e vice-versa. O experimentalismo, a utilização de uma extensa gama de materiais – da natureza e industriais – e o interesse em recriar a paisagem são recorrentes na produção da artista. A obra Memória das Águas, de sua autoria, está no Jardim Suspenso do CCSP, desde 2006, integrando a arquitetura da instituição e também criando um lugar de convívio entre o público que transita por esse espaço/obra. Memória das Águas pertence ao acervo da instituição.

Amélia Toledo – Memória das Águas | Foto: João Silva

 

A artista, na série Parque das Cores do Escuro, revela mais do seu interesse pela relação entre arte e espaço. O primeiro trabalho que integra a série se compõe de muitas famílias de pedras – como quartzos rosa, branco, marrom e verde – e foi inaugurado no Ibirapuera, em 2002, como obra complementar do paisagismo do Complexo Viário João Jorge Saad. “O núcleo inicial do Parque das Cores do Escuro traz à luz as cores guardadas no escuro da Terra para o habitante da cidade ter a oportunidade de conviver com aspectos da natureza interior do planeta.” (trecho do livro Amélia Toledo: as Naturezas do Artifício, de Agnaldo Farias, que está disponível na Coleção Alfredo Volpi do CCSP).

Amélia Toledo – Parque das Cores do Escuro | Foto: divulgação

 

A segunda parte da série foi criada na Vila Maria, em uma praça pública, em 2003, também interagindo com o meio circundante e propondo interação dos moradores do bairro com a obra. “Pedaços da crosta da Terra emergem na praça, convidando as pessoas a se relacionar com suas cores, brilhos e transparências.” (trecho do livro Amélia Toledo: as Naturezas do Artifício, de Agnaldo Farias, que está disponível na Coleção Alfredo Volpi do CCSP).

Aproximar arte e vida é um desafio para os artistas da contemporaneidade. Diversos trabalhos em site specific, direta ou indiretamente, além de dialogarem com o espaço em que estão inseridos, questionam certas relações habituais e esperadas entre público e arte. Portanto, essas relações são renovadas pela aproximação e/ou interação.

Texto: Danilo Satou
Revisão: Paulo Vinicio de Brito

Ilustração da capa: Beatriz Simões
Colaboração: Supervisão de Acervo do CCSP

*Publicado em 4 de maio de 2018

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