Democratização para quem?

A temática sobre a democratização do acesso ao cinema no Brasil entrou nos tópicos de discussão recentemente. Calhou de ser um acaso muito oportuno para a história dessa arte no Brasil. No momento em que observamos passivamente o desmonte da Ancine, com nomeações um tanto quanto obscuras e retrógradas, junto de uma ascensão teocrática dentro dos confins de Brasília, devemos pensar sim em democratização.

A história do cinema brasileiro é feita de idas e vindas bastante complicadas, mas sempre muito relacionadas à forma de governo que se instaura. Neste caso, estamos falando mais da produção do que do acesso. Porém, as duas estão integradas quando falamos em “democratização do acesso”. E é aí que precisamos entender o que significa essa tal democratização. Ou talvez a melhor pergunta seria: é possível pensar que existe acesso democrático ao cinema no Brasil?

Segundo dados da Ancine[1], as salas de cinema no Brasil vêm recebendo menos público por ano desde 2016. Ou seja, o brasileiro tem frequentado muito menos o cinema nos últimos tempos. O número de ingressos vendidos em 2018 foi o menor desde 2015.

O Brasil possui atualmente 3.347 salas de cinema ao total. Conseguimos ultrapassar o número histórico de aproximadamente 3.200 salas que havia no Brasil em 1975, o auge do espaço cinematográfico por excelência. Claro que esses espaços ainda não estão distribuídos de maneira igualitária: há uma maior concentração na região Sul. Só no estado de São Paulo encontramos 1.041 salas, já no estado do Acre, oito. Contudo, diferentemente do público, o número de salas de cinema vem crescendo com o passar dos anos. Em 2009 tínhamos apenas 2.110 salas e o pior ano foi em 1995, chegando a apenas 1.033 salas registradas em todo território nacional. Junto com esse aumento, há também o aumento do valor do ingresso: em 2009 o valor médio era de R$8,61, em 2018 passou a ser R$15,04.

Esses são pontos importantes para pensarmos essa tal democratização do cinema. Com o valor do ingresso alto, também ficam mais limitadas as escolhas. As salas de cinema não querem perder dinheiro, os filmes americanos investem pesado em publicidade e a lógica é abarrotar as salas com o mesmo tipo de filme para vender mais pipoca. Como já sabemos, a pipoca é mais rentável que o filme.

Entre a população, aumentam as buscas por algo que ajude a esquecer os problemas, que os transporte para uma realidade longe da nossa e que faça sonhar com um herói salvador da nossa existência insignificante. Só pensarmos no sucesso de feiras que vivem em vender ilusão em forma de realidade como a Comic Com Experience Brasil (CCXP), que reuniu 280 mil visitantes em 2019 em apenas quatro dias[2]. E o valor do ingresso por dia era em torno de R$200[3].

Isso explica porque nossa programação cinematográfica é tão pautada em filmes norte-americanos. Dos 20 títulos de maior bilheteria em 2018, 17 são blockbusters norte-americanos. Até agora, em 2019, entre os 10 primeiros, todos são blockbusters[4] norte-americanos. Mas quando a maioria das salas só oferece isso, é simplesmente lógico que eles correspondam às maiores bilheterias.

Há um domínio cultural que o cinema norte-americano estabeleceu no Brasil (e no mundo), que vem desde a chamada Era de Ouro do cinema Hollywoodiano (1920-1960), e que faz com que a gente pense o cinema da maneira que a indústria americana precisa. Infelizmente não posso retirar o mérito, afinal, eles ainda são os maiores responsáveis por levar pessoas a saírem de casa, enfrentarem filas, sentarem-se ao lado de desconhecidos, ficarem sem visualizar as notificações que pipocam no celular e confrontarem os croc-crocs das mastigações alheias. É triste, mas é a realidade dos dados.

Em 2012, a Ancine criou o projeto “Cinema perto de você”[5] que consiste em construir ou melhorar salas de cinema em municípios e bairros populares de grandes metrópoles que não contam com salas. A lei financia a construção dessas salas e, segundo Milena Times de Carvalho e Elen Cristina Geraldes[6], os maiores beneficiados dessa lei foram empresas internacionais: Cinemark (EUA) e Cinépolis (México). Em 2018, as duas empresas juntas totalizaram 1.017 salas no país, cerca de 30% do total. Segundo as autoras, “o programa é eficaz no incentivo à construção e modernização das salas, porém carece de estratégias mais contundentes para garantir a descentralização geográfica e a inclusão de novos estratos sociais nos cinemas”. Ou seja, acesso democrático ao cinema ainda é algo problemático e distante da realidade brasileira. Principalmente se pensarmos que esse acesso deveria estar ligado a uma valorização aos pequenos proprietários de sala, que investem em uma programação diversificada, por um valor mais acessível. É preciso melhorar a oferta para melhorar o público.

Ir ao cinema é algo que vem se tornando raro no Brasil, mesmo entre a classe média e até mesmo entre os cinéfilos. Poucas pessoas se permitem ao luxo de assistir a um filme como experiência coletiva. Ou por conta de uma programação padronizada e baseada em blockbuster, ou por questões financeiras. Há uma troca das salas de cinema pela comodidade de streamings que investem massivamente em marketing e em filmes de valor artístico questionável. O importante é mais a quantidade do que a qualidade. Assim como sabemos que não devemos comer fast food todos os dias, talvez devemos nos preocupar e repensar nossa saúde cultural.

Porém, democratização diz menos sobre a escolha em si e mais sobre a possibilidade de escolher entre o que fazer. O programa da Ancine é importante, porém é preciso também favorecer a exibição diversificada de títulos. Com a nova formatação da agência, é muito possível que isso não chegue nunca a ocorrer. O cinema no Brasil enfrenta uma grande crise que parte para todos os sentidos, da produção à recepção, por isso é o momento certo do assunto ser discutido. O que consumimos culturalmente não passa isento, existe uma influência na nossa forma de viver e de entender o mundo em que vivemos.

O cinema pode nos ajudar a esquecer os problemas sim, mas ele também deve questioná-los, deve ser um vetor para compreensão de nós mesmos. Precisamos valorizar as pequenas salas que nos oferecem qualidade em programação. Sair do óbvio nos torna mais preparados para enfrentar outras realidades, para conseguir dialogar com outros universos e, principalmente, para conhecer outras histórias. Felizmente as salas de cinema não vão acabar no Brasil, mas precisamos lutar por uma programação diversificada, que exija de nós uma locomoção para um espaço outro, para um local que não nos é de costume. Para, então, aproveitarmos do que o cinema tem de melhor: a diversidade de possibilidades.

Notas:

[1] Ancine. “Anuário estatístico do Cinema Brasileiro 2018”. https://oca.ancine.gov.br/sites/default/files/repositorio/pdf/anuario_2018.pdf

[2] Vitorio, Tamires. “CCXP de SP bate recorde de público e se consolida como a maior do mundo”, Exame, consultada em 9/12/2019 às 10h38. https://exame.abril.com.br/negocios/ccxp-bate-recorde-de-publico-e-se-consolida-como-a-maior-do-mundo/

[3] Marques, João Victor. “Comic Con Brasil 2019 anuncia data de venda e valores atualizados dos ingressos”, Folha de S.Paulo, consultada em 9/12/2019 às 11h50. https://f5.folha.uol.com.br/nerdices/2019/03/ccxp-2019-anuncia-data-de-venda-e-valores-atualizados-dos-ingressos.shtml

[4] Dados retirados do site Box Office Mojo: https://www.boxofficemojo.com/weekend/by-year/?area=BR&ref_=bo_in_table_31

[5] Para maiores informações sobre o programa “Cinema perto de você”: https://cinemapertodevoce.ancine.gov.br/

[6] Cristina Geraldes, Elen; Times de Carvalho, Milena. “Cinema Perto de Você: análise de uma política pública de acesso ao cinema nacional”, in Revista Eptic, vol. 18, nº 2, maio-agosto 2016, p. 106-116. https://seer.ufs.br/index.php/eptic/article/viewFile/5218/pdf

Texto: Caio Narezzi (doutorando em estudos cinematográficos pela Université Lumière Lyon 2 e pela Université de Montréal, colabora mensalmente com o site do Centro Cultural São Paulo)
Ilustração: Marina Ester

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