24 e 25/07

  • 24/07 (sexta-feira)
    19h – Vem comigo ao cinema – Os Gregors (155min)
  • 25/07 (sábado)
    17h30 – Comprometida (76min)
    19h30 – Filmes do Coletivo Cinematográfico Yugantar (114min)
  • Sala Circuito Spcine – Paulo Emílio
  • Classificação indicativa: 16 anos
  • Gratuito, com retirada de ingressos na bilheteria física do CCSP, 1h antes de cada sessão

Programas:

Vem comigo ao cinema – Os Gregors

Komm mit mir in das Cinema – Die Gregors, Alice Agneskirchner, Alemanha, 2022, 155 min, DCP, livre

Ulrich Gregor nasceu em 1932 e Erika Steinhoff nasceu em 1934. Os dois cinéfilos alemães se conheceram em um cineclube universitário em Berlim em 1957, se casaram em 1960 e fundaram uma sala de exibição de cinema em 1963, que começou como uma parceira da Cinemateca Alemã (Deutsche Kinemathek) e depois virou o espaço conhecido hoje como o Arsenal Filminstitut. O filme-retrato Vem comigo ao cinema – Os Gregors segue o casal no momento presente enquanto recontam suas memórias à frente do Arsenal, com destaque para sua atuação na Forum Internacional para Cinema Jovem, uma mostra paralela do Festival Internacional de Cinema de Berlim que eles lideraram desde sua fundação em 1971 até 2001. Vemos os Gregors assistindo filmes queridos aos dois, como Pai (Apa, 1966), do húngaro István Szabó, e A idade de ouro (L’Age D’Or, 1930), do espanhol Luis Buñuel, e Alemanha, mãe pálida (Deutschland, bleiche Mutter, 1980), da alemã Helma Sanders-Brahms, e ouvimos sobre a importância das obras nas suas trajetórias profissionais e pessoais. Essas trajetórias incluem suas tomadas de consciência como cidadãos alemães se formando nos anos após a Segunda Guerra Mundial e seu entendimento da importância do cinema alemão de refletir uma sociedade em transformação.

O nome do filme da documentarista alemã Alice Agneskirchner (que nasceu em 1966) vem de um poema amoroso da escritora alemã Else Lasker-Schüler, e o filme todo se passa como uma história de amor entre duas pessoas engajadas através do cinema. Vem comigo ao cinema – Os Gregors teve sua estreia mundial na mostra Forum em 2022, com os dois membros do casal presentes para conversar com o público. O filme vai passar no Centro Cultural São Paulo com o apoio do Goethe-Institut.


Comprometida

Committed, Sheila McLaughlin/Lynne Tillman, E.U.A., 1984, 77 min, 16 mm para DCP, 16 anos

Comprometida é um filme híbrido, que varia entre registros experimentais e narrativos, que tem como tema a estrela norte-americana de cinema e teatro Frances Farmer (1913-1970), que foi internada em uma instituição psiquiátrica em meados da década de 1940 essencialmente por causa das suas posições políticas de esquerda. O filme foi uma co-direção entre as cineastas Lynne Tillman (que escreveu o roteiro e eventualmente se tornou uma romancista importante nos Estados Unidos) e Sheila McLaughlin (que também interpreta Farmer). As cenas fragmentadas de Comprometida, filmadas em PB com um estilo de atuação altamente teatralizado, não buscam representar uma biografia de Frances Farmer, mas sim uma interpretação ficcional de partes de sua vida que podem se comunicar com o momento presente. O filme foca na relação conturbada entre Farmer e sua mãe conservadora (Victoria Boothby), que se torna cúmplice de sua institucionalização; no contexto sociopolítico dos anos pré e pós-guerra nos Estados Unidos; na psiquiatria como um fator cada vez mais pernicioso na vida doméstica norte-americana; e no caso amoroso destrutivo que Farmer tem com o teatrólogo renomado Clifford Odets (Lee Breuer), cujos impulsos controladores expõem a hipocrisia de uma esquerda machista que fala sobre libertação. Esse olhar sobre os anos 1930 e 1940 foi feito em parceria com diversos cineastas independentes e experimentais que trabalharam em Nova York nos anos 1970 e 1980, entre eles, Bette Gordon, Lizzie Borden, Yvonne Rainer, Tom Chomont e o cineasta alemão Heinz Emigholz, responsável pela brilhante fotografia em 16 mm que apresenta a ação através de diversos ângulos.

Emigholz depois trabalhou na Alemanha como professor de cinema e programou filmes no Arsenal, inclusive obras de McLaughlin, com quem colaborou em diversos projetos. Ajudou na seleção de três filmes de McLaughlin (que deixou o cinema após os anos 1980 para se tornar acupunturista) para digitalização e lançamento em DVD em 2013 a partir de cópias fílmicas encontradas no acervo do Arsenal. As versões do Arsenal de Comprometida, mais o curta-metragem Inside Out (1978) e o longa-metragem Ela deve estar vendo coisas (She Must Be Seeing Things, 1987), também foram adquiridos para streaming na plataforma brasileira FILMICCA.


Filmes do Coletivo Cinematográfico Yugantar

Abha Bhaiya/Deepa Dhanraj/Meera Rao/Navroze Contractor, Índia, 1980-1983, 114min, 16 mm para DCP, 16 anos

A palavra “yugantar”, em hindi, significa “mudança para uma nova era”. Surgiu na Índia um coletivo cinematográfico com esse nome alguns anos após a declaração da Emergência pela então Primeira-Ministra Indira Gandhi em 1975, que resultou na repressão dos direitos de muitos artistas e trabalhadores no país. O coletivo foi composto por três cineastas mulheres – a documentarista política Deepa Dhanraj (nascida em 1953) e as ativistas feministas Abha Bhaiya (nascida em 1948) e Meera Rao – mais o importante cinegrafista Navroze Contractor (1944-2023), que foi casado com Dhanraj e filmou a maioria das obras dela. Entre 1980 e 1983, antes de se separar para seguir seus próprios caminhos, os integrantes do Coletivo Cinematógrafo Yugantar colaboraram na criação de quatro filmes pioneiros, em conjunto com grupos de trabalhadoras indianas que buscaram expor e refletir sobre condições de desigualdade social através de uma mistura de cinema direto com momentos de reencenação e teatralização pedagógica.

O programa no Centro Cultural São Paulo apresenta as estreias brasileiras das restaurações dos quatro filmes que o Arsenal realizou em 2K a partir dos materiais em 16 mm: Maid Servant (Molkarin, 1981, 25min), realizado em colaboração com trabalhadoras domésticas na cidade de Pune que buscaram fazer um sindicato para se proteger contra a exploração dos seus patrões; Tobacco Embers (Tambaku Chaakila Oob Aali, 1982, 27min), sobre trabalhadoras em uma fábrica de tabaco na cidade de Nipani; Is This Just a Story? (Idi Katha Maatramena, 1982, 27min), uma ficção sobre uma jovem mãe casada tentando achar sentido em sua vida, realizado em colaboração com um coletivo de ativistas políticas feministas na cidade de Haiderabade; e Sudesha (1983, 34min), o único filme em cores realizado por Yugantar, que foi feito em parceria com os integrantes do movimento ecofeminista Chipko, voltado para a conservação das florestas indianas.

O projeto de restauração dos filmes do Coletivo Cinematográfico Yugantar começou com a digitalização e o lançamento em DVD pelo Arsenal em 2013 de um outro filme realizado por Dhanraj e Contractor, What Has Happened to This City? (Kya Hua Is Shahar Ko? / “O que aconteceu com esta cidade?”, 1986), um longa-metragem documental sobre as consequências de tumultos religiosos em Haiderabade que foi exibido na Forum e tinha uma cópia em 16 mm que pertencia ao acervo da instituição. Dhanraj aproveitou a oportunidade de guardar com o Arsenal os materiais dos filmes de Yugantar, que estavam desgastados pelo tempo e pelas suas diversas exibições para diferentes públicos de trabalhadores e cinéfilos (muitas vezes organizadas pelos cineastas, que levaram as cópias pessoalmente de um lugar para outro). Durou quatro anos para conseguir o financiamento para o trabalho das restaurações dos filmes de Yugantar, que começou em 2017. Duas das restaurações estrearam na Forum em 2019, na presença de Dhanraj e Bhaiya, e o projeto foi concluído em 2021, junto a um website detalhado em inglês sobre o legado do coletivo (https://yugantar.film/). O trabalho com o cinema do Coletivo Cinematográfico Yugantar representa parte de um interesse maior do Arsenal em guardar a memória do cinema político e de vanguarda indiano, com títulos de cineastas como Mani Kaul, Prem Kapoor e Ruchir Joshi, que eventualmente virou o tema de uma antologia crítica chamada One Film at a Time (https://www.arsenal-berlin.de/en/campus/publications/one-film-at-a-time/), publicada pela curadora e pesquisadora indiana de cinema Shai Heredia em 2024 a partir do seu trabalho com o arquivo.