Edição de Setembro
“Filme como um objeto no espaço: Um olhar sobre acervos de cinema” é um evento bimestral de cineclube com o propósito de mostrar as diferentes faces da preservação de cinema, por meio de filmes de diferentes períodos e países que foram preservados digitalmente nos últimos 20 anos. As cópias dos filmes vêm de instituições públicas e privadas que são voltadas à preservação, com o intuito de mostrar seus arquivos e o trabalho que envolve levar um filme antigo de volta ao público. O evento acontece no formato de sessões duplas de cinema para representar os acervos, com apresentações antes das exibições pelos curadores e organizadores do evento, Aaron Cutler e Mariana Shellard (da produtora Mutual Films).
A edição de setembro traz um foco em um artista e em uma instituição dedicada a preservar o seu legado. O artista é Paulin Soumanou Vieyra (1925-1987), que nasceu em Daomé (atualmente Benin), cresceu na França e passou boa parte da vida dele no Senegal, onde ele também fez a maioria dos seus filmes. Vieyra trabalhou tanto como um representante institucional do governo da República do Senegal (que declarou sua independência da França em 1960), quanto como um cineasta independente, e assim transitou entre uma grande diversidade de gêneros em sua filmografia: Noticiários, fábulas, documentários criativos e pedagógicos, docuficções e um longa-metragem de ficção satírico, além de vários projetos inacabados no momento da sua morte precoce aos 62 anos. Ele também trabalhou, de forma igualmente pioneira, como um administrador e cronista do então nascente cinema africano pós-colonial, em diversas atividades como a organização de produções de cineastas que ele admirava (mais notavelmente, o senegalês Ousmane Sembène), a fundação do maior festival de cinema africano (o ainda existente FESPACO, em Burquina Fasso) e como historiador do cinema africano e interlocutor durante entrevistas com diversos cineastas africanos – a maior parte delas inéditas quando Vieyra faleceu.
Programação
19/09 (sábado)
16h – Programa de curtas de Paulin Soumanou Vieyra (87min), seguido por um debate com Sílvio Marcus de Souza Correa
20/09 (domingo)
16h – Sob prisão domiciliar (106min), com Masterclass e debate com Sílvio Marcus de Souza Correa
Filmes
Programa 1: Curtas de Paulin Soumanou Vieyra
Curtas de Paulin Soumanou Vieyra
Paulin Soumanou Vieyra, França/República do Senegal, 1954-1965, 87 min, 16 mm para DCP, livre
O programa faz um panorama da primeira década da produção cinematográfica de Paulin Soumanou Vieyra através de uma seleção de cinco curtas-metragens realizados entre 1954 e 1965. Ele começa com a concisa fábula moderna Foi há quatro anos (C’etait il y a quatre ans, 1954, 10min), que Vieyra realizou como projeto de graduação da prestigiosa escola parisiense de cinema IDHEC (Instituto de Altos Estudos Cinematográficos, posteriormente La Femis), onde ele foi o primeiro nativo da África Subsaariana a concluir os seus estudos. O filme autobiográfico se passa no quarto de um aluno universitário africano na França que, impulsionado pela leitura de um livro sobre “a crise de consciência europeia” e seu desejo de escrever uma reflexão que correspondesse à situação africana, relembra rituais catárticos com música e dança de sua terra natal. Sua lembrança é interrompida com a chegada da namorada francesa para uma audição em um toca-discos portátil de composições eruditas ocidentais. Na sequência, a docuficção África sobre o Sena (Afrique-sur-Seine, 1955, 22min, co-dirigido com Mamadou Sarr), que Vieyra realizou em parceria com outros artistas africanos na França (dentro do autodenominado Grupo de Cinema Africano) e que é tido por muitos como o primeiro filme profissional dirigido por cineastas africanos. A sinfonia da cidade indaga sobre o que houve com os sonhos dourados que muitos africanos tinham sobre Paris e, através de uma série de breves cenas impressionistas, mostra a solidão daqueles que deixaram suas terras rurais africanas para a metrópole europeia e a solidariedade discreta que pode existir com imigrantes de outros locais.
Vieyra voltou para a África no final da década de 1950 e eventualmente se estabeleceu na República do Senegal, onde se tornou o diretor de propaganda no Ministério da Informação no governo do presidente Léopold Sédar Senghor. Foi dentro desse contexto que realizou, em comemoração ao primeiro ano da independência do Senegal, um documentário criativo e alegórico chamado Nasce uma nação (Une nation est née, 1961, 19min), no qual os movimentos em direção à soberania são ilustrados em um contraponto entre as performances de dança de um casal africano e a rigidez de bandeiras içadas de diversas como um ato de autoridade. Foi também com a estrutura do governo senegalês que Vieyra fez Lamb (Lamb – La lutte, 1963, 18min), primeiro filme africano pós-colonial a passar no Festival de Cannes. O estudo ensaístico de cores vibrantes sobre as populares lutas tradicionais senegalesas intercala as preparações dos lutadores com os movimentos dos seus espectadores que se deslocam para o estádio ou escutam no rádio, transmitindo a importância dos rituais públicos na unificação de uma sociedade ao mesmo tempo tradicional e moderna.
No meio de uma produção majoritariamente documental de curtas-metragens, Vieyra também conseguiu fazer algumas ficções, entre elas, N’Diongane (1965, 18min), baseado em um conto de Birago Diop (1906-1989), um importante escritor senegalês que eventualmente virou o tema de um dos breves filme-retratos de artistas senegaleses que formaram os últimos filmes concluídos do cineasta. O personagem titular de N’Diongane é um jovem que mora em uma aldeia senegalesa litorânea tradicional e reage mal às imposições familiares de assumir o lugar do patriarca após a morte do seu pai caçador por um leão. A insistência da sua irmã em chamá-lo de “Maridinho” eventualmente resulta em uma tragédia a ser lembrada e recontada na aldeia ao longo das gerações.
O programa dos cinco filmes será seguido por um debate com Sílvio Marcus de Souza Correa, professor de história na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pesquisador da obra de Vieyra. As cópias de exibição dos filmes vêm de diferentes origens. Foi há quatro anos é uma restauração em 4K (atualmente pertencente à Universidade de Indiana em Bloomington) que foi feita com os negativos originais de som e imagem do filme. Os negativos originais de África sobre o Sena se perderam e a restauração em 2K do Institut Français foi então feita a partir de um negativo duplicado e dos melhores materiais existentes. Nasce uma nação nunca foi restaurado e será exibido em uma cópia digital cedida pela PSV-Films. A magnífica restauração digital de Lamb (que passou na mostra Cannes Classics em 2018) foi realizada pelo Institut Français e preserva cuidadosamente os contrastes no filme e as texturas da areia da praia e da luz do sol. N’Diongane é raramente exibido e a única cópia digital em circulação foi originalmente produzida para um canal do YouTube pela PSV-Films.
Programa 2: Sob prisão domiciliar
Sob prisão domiciliar
En résidence surveillée,Paulin Soumanou Vieyra, República do Senegal, 1981, 106 min, 16 mm para DCP, 18 anos
O único longa-metragem de ficção realizado por Paulin Soumanou Vieyra se passa no país africano fictício e moderno da República de Goué, onde um personagem diz que um presidente pode ser eleito com 99,9% dos votos populares e enfrentar um golpe de estado no dia seguinte. O drama começa com a publicação da densa tese política do autor local Zé Akoulo que analisa “as estruturas políticas do poder tradicional” e a possibilidade de implementá-las, e assim ganha potência entre os oponentes do governo atual. O suicídio misterioso de um membro do Gabinete e as manifestações de rua cada vez maiores levam o presidente da República (interpretado pelo grande ator senegalês de cinema e teatro Douta Seck) a questionar quem é ou não fiel a ele. “Ah, a democracia africana – que fera enorme”, o presidente diz em um determinado momento. Um filme que pode ser um thriller político eventualmente ganha tons melancólicos e tragicômicos conforme vemos como a população, as autoridades e os intelectuais, de diferentes formas, vivem sob prisão domiciliar.
Vieyra realizou Sob prisão domiciliar a partir de uma história original e filmou no Senegal, onde morou desde a independência do país. Ele saiu da direção dos noticiários do governo (As atualidades senegalesas) em 1975 e se tornou um cineasta independente, com interesse em realizar documentários e ficções. Ele filmou retratos documentais de artistas que, para ele, capturavam o espírito do povo senegalês (o escritor Birago Diop, o pintor Iba N’Diaye, o cineasta Ousmane Sembène) e, que assim como Sob prisão domiciliar, foram finalizados e lançados no início da década de 1980, após a saída do Presidente Léopold Sédar Senghor do poder. Na epígrafe do roteiro de Sob prisão domiciliar, Vieyra escreveu: “Esta história é puramente ficcional. A ficção às vezes é, sem dúvida, maior que a vida. A não ser – como acontece muito – quando é o contrário.”
O filme intercala cenas documentais e roteirizadas que são muitas vezes unidas por um movimento de câmera constante e pela hipnótica trilha sonora composta pelo músico camaronês Francis Bebey. Cenas com atores não profissionais nas ruas de Dacar mostrando a desigualdade social se misturam com momentos teatralizados em que os personagens fazem declarações (inclusive para a câmera) sobre o estado de inquietação constante que habitam. Há o administrador governamental sobrecarregado (interpretado por Joseph Sané) que comanda uma sala com diversos telefones ao seu redor; o conselheiro francês (Michel Coulon) que avisa o presidente sobre como determinadas decisões podem parecer aos olhos da Europa; e um burocrata interpretado pelo próprio cineasta que carrega os documentos do presidente, assim espelhando o cargo de diretor de produção que o atento e discreto Vieyra ocupou em filmes de Sembène e outros cineastas africanos.
Sob prisão domiciliar foi filmado com baixo orçamento (com o apoio da editora Presence Africaine) em película 16 mm colorida e depois ampliada para 35 mm para exibição em salas comerciais. Ele passou em festivais como o Festival de Berlim (na mostra Forum), o Festival de Cartago e o FESPACO, porém, ficou esquecido por muitos anos. Ele foi restaurado em 4K pelo Institut Français e CNC em 2025, a partir dos seus materiais originais, que são conservados pela PSV-Films e podem ser encontrados hoje na Universidade de Indiana em Bloomington. A exibição da versão restaurada do filme no Centro Cultural São Paulo será acompanhada por uma Masterclass com o professor Sílvio Marcus de Souza Correa. Pelo que se sabe, é a primeira vez que Sob prisão domiciliar passará no Brasil.
Minibio do convidado:
Sílvio Marcus de Souza Correa é Dr. Phil. pela Universidade de Münster (Alemanha) e foi pesquisador visitante em várias instituições estrangeiras no Canadá, na França e em Portugal. É Professor Titular do Departamento de História, do Centro de Filosofia e Humanidades da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (PPGAV) do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É bolsista do CNPq, modalidade produtividade em pesquisa, desde 2011. Em 2025, fez um estágio de pesquisa (fellowship) no Instituto Nacional de História da Arte (INHA) de Paris e, em 2026, foi laureado pela Fondation Maison des Sciences de l’Homme (FMSH), de Paris, no Programa Diretores de Estudos Associados.