Quem fez, quem faz: Marta Paolicchi

Quem fez, quem faz é uma seção do site do CCSP que procura colocar luz sobre trabalhos fundamentais para o funcionamento da instituição, mas que, por diversas razões, permanecem “invisíveis” ao público. Em abril de 2018, conversamos com Marta Paolicchi, coordenadora do Arquivo Multimeios, que reúne cerca de 900 mil documentos – registros visuais, audiovisuais e documentos escritos – referentes a diversas manifestações da arte e da cultura brasileira contemporânea. Formada em Biblioteconomia, Marta fez estágio no Multimeios a partir de 1982, ano de inauguração do CCSP. Naquele momento, porém, o Multimeios funcionava na Casa das Retortas, como um braço do antigo Idart (Departamento de Informação e Documentação Artísticas). Foi ainda lá que Marta percebeu seu interesse por dinâmicas de trabalho que permitissem um contínuo processo de revisão do próprio trabalho. Leia abaixo a entrevista na íntegra:

Como você chegou ao CCSP?
Eu entrei no CCSP em 1982 como estagiária do Arquivo Multimeios do Idart (Departamento de Informação e Documentação Artísticas), que, na época, não ficava aqui, trabalhávamos na Casa das Retortas. O Idart era formado pelas áreas de pesquisa do Centro de Pesquisa em Arte Brasileira Contemporânea e o Arquivo Multimeios, que foi criado para ser o depositário do material produzido por essas áreas. Fiz um ano de estágio, e, depois disso, minha chefe conseguiu me contratar como arquivista. Em 1987, prestei o concurso para bibliotecários, passei e fui chamada em 1989 para continuar trabalhando no Multimeios. Em 2000, com a aposentadoria da chefe do setor, eu assumi a coordenação. Antes de entrar no CCSP, eu fiz um ano de estágio no Museu Lasar Segall, e o acervo de lá era muito parecido com o daqui. Eu cheguei a trabalhar um pouquinho, também, no acervo da General Motors antes disso, mas acervo de empresa é outra história, não tem muito a ver com acervo artístico, e quando eu comecei a fazer estágio no Lasar Segall, eu percebi que gostava de trabalhar com acervo relacionado à área cultural. Eu entrei aqui pra trabalhar no processamento técnico do Arquivo Multimeios. A gente recebia as documentações das áreas de pesquisa e, após a conferência, tombava os materiais. Segui nessa função mesmo depois que o Arquivo Multimeios veio para o Centro Cultural, em 1992, ajudando, eventualmente, na indexação dos materiais também. Mas, mesmo antes de o Multimeios vir pra cá, eu já frequentava bastante o Centro Cultural, vinha a shows, assistia a peças de teatro. Sempre tive interesse pela área cultural.

Pensando na sua formação, nunca te passou pela cabeça atuar em biblioteca?
No Lasar Segall, na verdade, eu trabalhei com acervo de biblioteca, só que a biblioteca de lá tinha uma hemeroteca, tinha uma diversidade… Quando eu comecei a trabalhar no Arquivo, que é um centro de documentação, eu vi que o trabalho é muito mais dinâmico do que numa biblioteca e eu percebi que não conseguiria mais trabalhar em biblioteca, porque eu gostava justamente dessa dinamicidade, dessa diversidade. Sem contar que você está sempre se repensando dentro desse trabalho do Multimeios, porque surgem materiais novos e você precisa pensar na forma como você vai trabalhar com aquele tipo de material. A gente trabalhava, por exemplo, com materiais analógicos e, depois, começamos a receber materiais digitais. Quer dizer, você precisa estudar de que modo tombar esses materiais, como recuperar essa informação…

“Como as coisas estão acontecendo cada vez mais rápido, está cada dia mais difícil reter a memória das coisas”

 

Você é uma das fundadoras do Comitê Paulista do Escudo Azul, importante mecanismo de proteção de obras e acervos museológicos. Como se deu a criação desse grupo e qual a relação dele com o CCSP?
Nós (Vera Cardim, Vera Toledo Piza e eu) nos envolvemos com o Escudo Azul muito por conta da Isis Baldini, ex-diretora da atual Supervisão de Acervos do CCSP, que nos convidou para integrar o que viria a ser o Comitê Paulista do Escudo Azul logo depois da queda de um balão aqui no Centro Cultural, em 2007. Em consequência desse acidente, caiu água no nosso acervo, e a Isis começou a articular, com profissionais de outras instituições, a necessidade da criação de um grupo que atuasse na proteção de obras e prevenção de acidentes envolvendo acervos museológicos. A função do Escudo Azul, portanto, é a salvaguarda e o resgate de acervos, atuando como uma Cruz Vermelha dos acervos. Foi meio tortuoso o caminho da criação, porque não havia muita informação de como organizar um grupo como esse. Só agora é que foi efetivado o registro do grupo no Escudo Azul francês, que funciona como a sede mundial, e vai ser possível, então, estruturar melhor o trabalho. Hoje o Comitê Paulista é composto por profissionais da Pinacoteca, do MASP, do MAM, da Fundação Energia e Saneamento, da Biblioteca Mário de Andrade… Há uma grande diversidade de instituições envolvidas.

Qual é a importância da preservação da memória nos dias atuais, sobretudo no contexto de instituições culturais?
Eu acho que mais do que nunca é importante essa preservação porque, como as coisas estão acontecendo cada vez mais rápido, está cada dia mais difícil reter a memória das coisas. A gente tem visto, por exemplo, que muitas TVs estão cada vez mais preocupadas em fazer centros de memória, registrar depoimentos de funcionários, e acho que esse esforço vem muito por conta disso, já que tudo está muito volátil. É uma tentativa de preservação da memória, porque, senão, não vai haver registro do que acontece na nossa época.

O que te move, depois de tantos anos, a vir todos os dias para cá, para desenvolver um trabalho que, muitas vezes, fica escondido e nem sempre é valorizado? Por que estar aqui e sempre voltar?
Em primeiro lugar, o que me move é o amor ao acervo, porque a gente sabe a preciosidade que ele é. Em segundo lugar, é o retorno do público. O número de pesquisadores do Arquivo Multimeios tem crescido muito nos últimos anos, as pessoas vêm ávidas pelas informações que temos aqui. O retorno do público é muito importante, porque, afinal, a gente trabalha pra ele. Aqui sempre foi uma referência pra mim e, depois de tantos anos, resistindo a tudo, a tantos momentos difíceis que já tivemos, eu ainda sinto a necessidade de vir pra cá todos os dias, olhar pro acervo e pensar: “Que bom que a gente conseguiu preservar isso tudo para a posteridade, que bom que isso não foi destruído”. Porque o acervo é muito maior do que qualquer um de nós.

Entrevista, transcrição e edição: Marcia Dutra e Vinícius Máximo
Foto: Fernando Netto

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