Quem fez, quem faz: Mariana Nieri

Quem fez, quem faz é uma seção do site do CCSP que procura colocar luz sobre trabalhos fundamentais para o funcionamento da instituição, mas que, por diversas razões, permanecem “invisíveis” ao público. Enquanto estagiou por aqui, Mariana Nieri fez a diferença integrando diversos setores do Centro Cultural. Leia a seguir a entrevista completa:

Em que ano você entrou no CCSP e como foi este processo?

Eu entrei no CCSP em 3 de julho de 2017, dois anos atrás, pra estagiar na Central de Informações. Nisso eu já estava no segundo ano da faculdade, meio desesperada com o curso, com as vagas, meio abalada… Aí eu mandei, bem despretensiosamente mesmo, o currículo pra cá, e me chamaram pra vir aqui fazer a entrevista! Eu lembro que vim, muito nervosa, numa terça-feira, e só fui receber a resposta na segunda. Mas aí eu já estava muito pilhada. Lembro do meu olho lacrimejando, foi tão legal saber que eu passei! Depois eu fui correr atrás dos documentos, e é corre pra USP, para o CIEE, pra cá… É sempre um saco. Mas deu certo!

Qual a sua formação? O CCSP é sua primeira experiência de estágio?

O que eu sempre quis antes de entrar na faculdade era trabalhar com produção cultural e com museu, educativo, mas eu não sabia que trajetória ia tomar. Pensei em jornalismo, mas como era muito concorrido resolvi fazer Educomunicação, na ECA. Achei que a grade, de certa forma, ia dar conta… E não deu tanto, no fim. Educomunicação é um curso novo, muito focado em práticas escolares e educação. Por isso foi bem difícil me encaixar no curso, eu não me identificava. Mas dentro da USP eu fui traçando meu caminho, fazendo matérias optativas, que me garantiam embasamento no que eu queria seguir. Na época eu fazia Iniciação Científica e já estava mandando alguns currículos, mas o CCSP foi minha primeira experiência de emprego.

Com tudo isso que você contou, como foi vir parar em um lugar como o CCSP?

Ah, foi libertador. Até porque esse não é um estágio obrigatório pra minha faculdade, não conta no meu curso. Em Educomunicação o estágio é em escola, tem que completar horas de didática, metodologia, etc. Por isso, cair aqui no CCSP foi uma surpresa tão boa! Achei uma coisa que eu realmente queria, e que eu gostava muito. Como meu curso é novo e ninguém conhece muito, achei muito legal o pessoal daqui ter confiado em mim. O Álvaro falava que Educomunicação era o curso certo para a Central de Informações. E eu concordava, com sinceridade, porque o que eu faço na Central não é só dar informação, nem só atender ao telefone, ou responder e-mail. O que a gente faz ali é comunicação, mediação, negociação. Eu tenho muita gratidão por ter recebido essa chance.

Conte acerca da sua trajetória profissional. Faça um resumo de tudo o que você fez ao longo do tempo fora e aqui.

No segundo ano da faculdade eu fazia iniciação científica em um grupo, que era bem estruturado. Então eu meio que trabalhava ali, mexia em redes sociais e fazia eventos, essas coisas, só que não era nada demais. Então eu comecei a mandar currículos, fazer entrevistas, até que cheguei aqui na Central! É um trabalho muito dinâmico, a gente lida com muita coisa ao mesmo tempo, e por mais que expliquem tudo bonitinho é mais no dia a dia que você pega as coisas. No ano passado duas pessoas foram embora, a equipe esvaziou e eu passei a ficar sozinha. Foi aí que formalizou de fato meu estágio, eu comecei a me virar mais, lidar com todas as variáveis e BOs. Estar lá sozinha realmente mostrou o que eu precisava fazer.

Qual é o trabalho feito na Central?

Eu defendo muito que a Central é um lugar de mediação. A gente faz uma mediação entre funcionário e público, entre público e público, público e terceirizado. É tudo muito dinâmico entre atender ao telefone, encaminhar ligação, ter a informação certa, organizar o espaço e orientar o público. Tanto que no começo foi um desafio dominar e lidar com todas essas demandas. Ainda mais com um público tão diverso! Tem frequentadores natos, tem gente que vem conhecer, que vem só pra um evento, pra estudar para o cursinho, ou só pra conversar.

Lidar com tantos tipos de público foi o que me pegou: você tem que ser muito paciente pra receber muito desaforo, mas muito carinho também. Então no começo foi difícil, porque você tem que ser muito paciente, e isso eu não sou. Mas acaba que, com o tempo, você consegue prever o que cada pessoa vai trazer, tanto pelo perfil dela quanto pela programação do dia, já que algumas coisas são permanentes. E acho que isso me despertou sentimentos, porque eu sempre quis trabalhar em museu, onde o público é muito mais fechado. O Centro Cultural é um espaço muito plural e, por isso, muito potente também.

Você falou muito do espaço do Centro Cultural. Isso é uma coisa que afetou sua estada aqui? Como foi sua relação com o espaço?

No meu primeiro dia aqui o Alvaro (Alvaro Olintho, ex-supervisor da Supervisão de Informação) me passou o vídeo do Luiz Telles, sobre a história e a arquitetura do Centro Cultural. E eu, que sempre gostei muito dessa coisa do espaço, simplesmente delirei. A arquitetura do CCSP me conquistou. O prédio já meio que condiciona a sua estada aqui, né? Minha experiência com esse lugar foi muito de sensibilidade, de pensar o espaço mesmo… E se o vidro não fosse transparente? E se a rampa fosse uma escada? E se tivesse uma porta, uma catraca? Todas essas possibilidades mudariam a experiência. O CCSP é um verdadeiro laboratório de convivência, é um espaço que proporciona a convivência de uma forma muito, muito bonita. Então, estar em contato com esse espaço que propicia uma estada democrática pra públicos tão diversos é muito especial, isso não existe em nenhum lugar. Isso realmente me conquistou.

Dos trabalhos que você fez aqui, qual foi o mais marcante?

Eu já tinha percebido que tinha falta de comunicação entre equipes, algum vácuo que precisava ser preenchido, mas tudo começou mesmo quando eu, a Marcia e o Alvaro percebemos que tinha vigilantes no posto do Foyer que nunca tinham conhecido o jardim. Quebrou-me muito saber que uma pessoa que trabalha aqui não conhecia o jardim, ainda mais num espaço que fala que é democrático, convidativo, etc. Então a gente bolou uma formação com os vigilantes e a portaria. Fizemos encontros de grupos pequenos, nós os levamos pra conhecer o lugar, contar a história do CCSP e apresentar para os vigilantes pautas importantes pra instituição, como diversidade e acessibilidade. Lembro que o Alvaro pediu pra eu fazer essa formação justamente porque eu dominava o espaço, eu tinha trânsito com todas as áreas, e isso tinha tudo a ver com as informações que eu teria que passar.

Abrir esse canal pra eles falarem foi muito bom, porque eles tinham muitas perguntas sobre a programação, sobre como agir em determinados momentos, e muitas reclamações também. Eles estavam angustiados, e só o fato de a gente ouvir parecia resolver metade da situação. A formação dos vigilantes foi uma boa forma de ligar toda a questão da licenciatura do meu curso e do Centro Cultural em uma ação só. Foram encontros mais para discussão mesmo, de apresentação do lugar, foi muito bonito. Ouvi coisas muito importantes.

Qual a importância que você dá para o que fez aqui (pessoalmente e para o público)?

É engraçado você perguntar isso, porque meu trabalho não é nada que eu tivesse interesse antes – não era uma vaga de educativo, nem de monitoria, nem de visitas –, mas foi muito especial. Pensando em retrospecto, a coisa da paciência foi muito significativa pra mim. O exercício de lidar com o outro foi importante também, porque lidar com o outro sempre surpreende. Isso foi o que me moveu, me conquistou e me fez ficar aqui. Eu cheguei uma pessoa e hoje saio outra.

E na importância para o público, acho que a gente está no front, representando a instituição, escutando o público, recebendo reclamações, assessorando as pessoas, mas também as acolhendo… Porque tem isso também: a Central é um filtro de informações, mas também é um local de acolhimento. No sentido prático e sentimental da palavra. Só ter um banco ali do lado já é muito convidativo, a pessoa se sente realmente convidada a estar ali e a falar.

Em seu contato diário com o público, houve alguma situação que te marcou?

Eu lembro uma vez. É uma história boba até, mas que me marcou. Uma coisa muito complicada pra mim era sentir o que podia e o que não podia, porque a gente não tem um manual de instruções. No máximo umas diretrizes básicas no site. Daí tinha vezes que a música me incomodava porque era muito alta, no corredor da dança… E, mesmo quando eu “tava com a pá virada”, eu pensava: “ah, mas a pessoa tem que dançar”. É o exercício de tolerância que eu falei. Aí teve um dia em que eu estava sozinha aqui de manhã, e tinha alguém tocando flauta. Só tinha o som da flauta tocando, muito alto. Tava incomodando, eu não conseguia atender ao telefone e nem operar as coisas mecânicas. Daí eu saí assim, pronta para pedir para tocar mais baixo, aí vi o menino tocando a flauta no foyer, muito feliz. Ele estava tendo o momento da vida dele naquela hora, provavelmente aqui era único lugar que ele teria para tocar… Foi muito louco, porque eu estava muito brava, e quando vi o cara pensei: “não, ele está aqui para isso”… Isso é uma coisa que eu sempre lembro, acho que a convivência é isso. A convivência é você entender  as necessidades do outro em conjunção com a sua e ver o que dá para fazer.

Para finalizar, por que estar aqui e sempre voltar?

Porque estar aqui e sempre voltar? Ah, é muito louco, né? Nesse processo de despedida eu percebi que o CCSP, para mim, foi um espaço e um tempo de encontros. Eu encontrei muitos amigos e isso é muito f…! Eu amo o espaço, acho que tem uma potencialidade incrível, mas o mais importante realmente foram os encontros, as trocas. Sem o pessoal aqui o Centro Cultual não seria nada. Sem os funcionários o Centro Cultural não seria nada, sem o público o Centro Cultural não seria nada. Então é um amálgama de pessoas e encontros que o espaço permite uma forma muito mais bonita, eu acho.

Então é isso, o Centro Cultural é especial para mim por tantos motivos! Sinto-me muito grata porque tive a oportunidade do meu primeiro emprego, nesse laboratório profissional e de experiência. Estou triste por estar saindo, mas me sinto eternamente grata pelo CCSP ter sido esse laboratório tanto profissional quanto de experiência mesmo. Mas, realmente, o que fica são os encontros que eu tive, sem dúvida nenhuma! O Centro Cultural não é nada sem a gente.

Entrevista: João Vitor Guimarães e Lara Tannus
Edição: Isabela Pretti Nogueira
Revisão: Paulo Vinício de Brito
Fotografia: João Silva

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