Programa de Exposições 2018: Marlos Bakker

Com projetos que investigam o que acontece em momentos banais ou que tornam visível o que acontece quando nada acontece, Marlos Bakker – um dos artistas selecionados para a I Mostra do Programa de Exposições 2018 – expõe e assimila, no trabalho SDDS 3404, o espírito de um grupo de WhatsApp, o BRA Spotters – Fórum, cujos integrantes têm o hobby de fotografar aeronaves. “Ao usar somente o material que eles espontaneamente compartilhavam e que chegava ao meu celular diariamente, eu pretendia dar o máximo de voz a eles, deixando minhas interpretações e pré-julgamentos os mais isolados possíveis”, diz Marlos.

Conte um pouco sobre o processo de SDDS 3404. De onde surgiu a ideia de observar a produção imagética de observadores “profissionais” (os BRA Spotters)?
Difícil precisar de onde surgiu a ideia, mas, fazendo um exercício de memória, consigo pensar em alguns sinais que podem ter convergido e me levado até os Spotters [observadores, olheiros]. Primeiramente, na minha infância eu também tinha um fascínio por aeronaves: montava e pintava aeromodelos (Revell), tinha jogos de cartas com temas de aviões (Super Trunfo) e me interessava por saber os nomes, modelos e fabricantes de aviões. Mais tarde, meu pai, que era produtor de cinema e um viajante nato, chegou a me incentivar a ser piloto, glamourizando a vida do “homem sem fronteiras”, o eterno viajante, etc. Cheguei a fazer um exame médico no Ministério da Aeronáutica, mas nunca me empolguei muito com a ideia. Já na vida adulta, vários dos meus projetos têm uma relação com a observação à distância das pessoas, quase um voyeurismo, da mesma maneira como os Spotters se relacionam com as aeronaves. No meu caso, então, o interesse por eles pode até ser visto como uma dupla camada de voyeurismo: alguém que observa alguém observando alguma coisa. Da mesma maneira como já havia feito anteriormente quando me escondi atrás das telas dos cinemas para retratar quem vinha assistir à sessão.

Seu trabalho parece ter como mote a observação da banalidade. De fato é isso que move SDDS 3404?
Acho que um hobby pode sempre ser visto como uma coisa banal para quem não o pratica. Se você tem o seu grupo que joga futebol às quintas-feiras à noite ou que se reúne para estudar dança cigana, para quem não faz parte, há sempre a chance de se olhar a particularidade do outro com menos entusiasmo. Acho que esse lugar onde observo “o que acontece quando nada acontece” se dá mais em trabalhos como Com que sonham os peixes? (2015), quando escondo uma câmera no porta-malas do meu carro e saio fotografando e filmando as pessoas em transe em meio aos engarrafamentos de São Paulo; em Flare (2012), quando retrato pessoas dentro dos cinemas ou, ainda, em Não Perturbe (2010), quando deixo câmeras montadas e programadas para fotografar as pessoas dormindo em seus quartos. No caso de SDDS 3404 (2018) acho que a atividade que os Spotters praticam, por não ser uma cena tão comum do cotidiano das cidades, não se encaixa no que considero a tal “observação da banalidade”.

Segundo a crítica Julia Coelho, “SDDS 3404 parece incorporar não só um espírito spotter na vocação colecionista e arquivista, mas também um espírito whatsapper na maneira de contar uma história”. O que seria esse espírito whatsapper e como ele atravessa o trabalho?
Acho que o espírito whatsapper se dá na maneira como pessoas que nem se conhecem criam e se relacionam através de uma comunidade imaginada, um grupo virtual que se comunica em alta velocidade, muitas vezes com excesso de informação difícil de se acompanhar e com um cardápio ampliado de possibilidades de expressão. No caso do BRA Spotters – Fórum, criou-se ali uma rede de troca de conhecimento e aprendizado onde todos se apoiam e se aprimoram sobre os temas da fotografia e aviação. No vídeo, tentei trazer um pouco de todas as possibilidades de expressão (mensagens de texto, fotos, vídeos, áudios, memes, gifs, etc.) para dar sentido a alguns dos assuntos que giram diariamente por ali. Ainda, o vídeo, assim como o grupo, é constituído de pequenas doses de informações de dezenas de fontes diferentes que vão se superpondo a fim de criar uma narrativa.

Faz sentido dizer que seu trabalho se interessa muito mais pelo gesto de coleta e ressignificação de materiais do que por um registro eminentemente autoral?
No caso de SDDS 3404, sim, pois nenhuma mídia que está ali foi captada ou produzida por mim. Mas esse gesto se deu também como uma maneira de tentar me colocar o mais neutro possível em relação a um tema que não me era tão familiar e a pessoas que estavam distantes do meu círculo social e faixa etária. Ao usar somente o material que eles espontaneamente compartilhavam e que chegava ao meu celular diariamente, eu pretendia dar o máximo de voz a eles, deixando minhas interpretações e pré-julgamentos os mais isolados possíveis. É claro que a edição também é uma arma poderosa na hora de se contar uma história, mas, pelo menos, tentei expor a paixão deles pelo hobby e seu cotidiano sem que eu emitisse uma única pergunta.

Entrevista: Danilo Satou, Marcia Dutra e Vinícius Máximo
Foto: Divulgação

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