Programa de Exposições 2018: Hortência Abreu e Ricardo Burgarelli

Os artistas Hortência Abreu e Ricardo Burgarelli vêm realizando, desde 2015, uma pesquisa artística sobre a Guerra contra o Paraguai (1864-1870), a partir da qual constituíram a proposta de instalação Só à distância mostra-se os dentes, presente na I Mostra do Programa de Exposições 2018. O objetivo do trabalho é propor fissuras no imaginário que se fez da guerra e “balançar o que quer que se tenha solidificado” em relação ao conflito – até hoje pouco lembrado.

O título da mostra de vocês – Só à distância mostra-se os dentes – parece sugerir que a distância histórica de certo episódio pode nos dar outra dimensão da memória e do esquecimento. Nesse sentido, de que modo o trabalho pode colaborar para a construção de um novo testemunho acerca da Guerra do Paraguai?
O título pode ser interpretado dessa maneira e me parece interessante. Mas, por outro lado, também tem a ver com uma imagem construída sobre o Brasil como um “inimigo fraco” pela imprensa paraguaia. Por outro lado, tem relação com a ideia de uma postura imperialista ou sub-imperialista, exercida pelo Brasil no contexto latino-americano, exercendo uma postura “feroz”, à distância dos seus países vizinhos.
Não sei se o termo correto seria “novo testemunho”, já que não há um testemunho de nossa parte ou de quem quer que venha a estudar o acontecimento. O trabalho talvez tente propor uma observação sobre um objeto histórico, mas do ponto de vista do artista, porque não somos historiadores e sabemos o quanto a história pode ser controversa. De alguma maneira, queremos evocar enunciados, fazer emergir as lembranças, lidar com os documentos e com as imagens produzidas durante aquela época como uma forma de rever, próxima até à ideia de revisão, mas não exatamente como se faz um revisionismo. O revisionismo foi feito e também foi feito o pós-revisionismo. Acho que, como artistas, lidamos com o imaginário que se fez dessa guerra e queremos remexer nesse imaginário, balançar o que quer que se tenha solidificado, quando sabemos que, na verdade, essa guerra é pouco lembrada.
Essa ideia da distância também pode ser vinculada às estratégias de visibilidade adotadas na montagem dos núcleos de trabalhos e na instalação como um todo, ou seja, não apenas em relação a distância temporal, mas à elaboração do espaço mesmo.

Colocar luz sobre diversas narrativas não oficiais sobre a Guerra do Paraguai pode trazer à tona uma nova história do conflito?
A narrativas não oficiais são muito importantes. Elas possibilitam furar a narrativa construída a parte de um ponto de vista único, geralmente construída pelas instituições de poder, que narram como melhor lhes parece. Trazer outras possibilidades narrativas é uma tentativa de questionar versões oficiais, mas também abrir um espaço em que se pode debater o assunto, sem colocar pontos finais. A historiografia brasileira dominante sobre o assunto tem uma postura que nos parece defensiva, parece não dialetizar os fatos. Existem exceções, como Mario Maestri. Mas, em todo caso, não se pretende, com a exposição, trazer uma nova história. São muitas as histórias escritas, o que tentamos fazer é colocar luz no imaginário que foi construído e propor algumas fissuras nesse imaginário, refazendo imagens, remontando as peças, tirando as coisas do lugar em que estão normalmente.
Além do mais, camadas históricas e mnemônicas vão se sobrepondo após o conflito, também conhecido como “a grande guerra”. E as contaminações para a política e a cultura dos povos da América Latina são densas e persistem de distintos modos. No nosso trabalho aparecem imagens, comunicados e documentos que dizem respeito a conflitos contemporâneos no Paraguai, como as tensões decorrentes da alta concentração de terras sob a posse de poucos donos, muitos deles brasileiros, ou os chamados “brasiguaios”. Essa realidade, somada à repressão contra os movimentos de luta pela terra e pela reforma agrária, foi preponderante no recente golpe parlamentar aplicado ao ex-presidente Fernando Lugo (2008-2012), e também na emergência de guerrilhas marxistas insurgentes, como “Ejército del Pueblo Paraguayo” e “Ejército del Mariscal López”, que reivindicam a memória de Francisco Solano López (presidente do Paraguai de 1872-1870) e José Gaspar Francia (ditador do Paraguai de 1816-1840).

Chama a atenção a curiosidade de vocês, tão jovens, por um fato histórico que boa parte das pessoas desconhece. De onde surgiu esse interesse?
O interesse surge para cada um de nós de maneira diferente. Em algum momento, é um assunto que nos une. O Ricardo, por um lado, tem o costume de trabalhar com assuntos históricos, e episódios e personagens associados a esse fato permeiam alguns de seus trabalhos anteriores. A Hortência, por outro, se acerca do assunto por uma curiosidade em entender o papel que o Brasil assumia através dos tempos sobre o conflito. Uma fotografia em especial, vista no jornal, despertou o interesse sobre o assunto. O encontro com essa imagem despertou a curiosidade, pois pouco sabia sobre o assunto, ao mesmo tempo em que a própria imagem tinha o poder de não passar despercebida.

Que conexão vocês estabelecem entre as frases retiradas de materiais de arquivo e recontextualizadas por vocês nas pichações em muros e as produções contemporâneas de grafite nas ruas das grandes cidades?
As pichações das cidades ocorrem e existem em contextos muito variados, por vezes muito diferentes da nossa proposta de trabalho. A ação de escrever em muros é uma ação que tem uma existência praticamente ancestral. De alguma forma, nós queremos evocar esse ato da inscrição sobre a superfície das cidades, e nesse sentido existe uma conexão. Por outro lado, a ideia do trabalho é colocar as palavras em um contexto temporal e espacial distinto da história da guerra, fazendo com que as frases tenham sentidos novos, a partir do choque com o presente e do imaginário das pessoas que irão ler essas inscrições que aparecem nas ruas de forma anônima e ganham outras dimensões na instalação. O trabalho também tem uma influência de grupos como “Mujeres Creando”, que propõem esse tipo de ação nas cidades.

Entrevista: Danilo Satou, Marcia Dutra e Vinícius Máximo
Foto: Divulgação

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