Programa de Exposições 2018: Carlos Monroy

Um dos artistas selecionados para a II Mostra do Programa de Exposições 2018, Carlos Monroy apresenta o trabalho Corpus Leve Obis Novus – Erários do Rei Momo El Migrante V, no qual incorpora referências a manifestações típicas do carnaval e do folclore, questionando ainda a condição do migrante e de suas origens por meio do cinismo e do sarcasmo. Abaixo, a entrevista na íntegra:

O escritor Leonardo Araujo Beserra utiliza o termo “re-former migrante” para se referir a você no texto crítico presente no catálogo da exposição. O que seria, no seu entendimento, um re-former migrante?
Na verdade, o termo “re-former migrante”, assim como outros que estão no texto, vem das conversas que tive com o Leonardo antes da exposição. Migrante, basicamente, porque moro no Brasil desde 2006 – além de ter saído da Colômbia pela primeira vez muito novo –, e a reformance vem do meu mestrado chamado Pensamento em reformance, que fiz na USP. Na dissertação, eu explicava que a performance já não existia, que seria impossível de ser feita hoje, por isso tive que “matar a prática” da performance – que eu não creio ser necessária – para defender a ideia. Hoje, entende-se melhor o que é uma performance, já não é mais um termo tão aberto, livre, temos as diretrizes muito claras. Então, inventei esta terminologia “re-”, prefixo que indica a repetição, e “-formance”, no sentido de forma, empregado em performance. A reformance, sendo assim, implica repetir atos do passado, que já existem, contextualizando coisas diferentes, ou reunir vários atos e a partir disso falar sobre outra coisa. E quando digo “reformer migrante” ainda me refiro a aspectos culturais. Dentro da capa, por exemplo, há uma referência a todas as entidades do carnaval latino-americano.

Como se deu sua trajetória profissional até a produção da obra exposta aqui no CCSP?
Eu me formei na Universidade de Salles, na Colômbia, em 2009, sendo que, no terceiro semestre da faculdade, fiz um trabalho chamado Retratos Familiares, que deu um prêmio internacional para a Colômbia e me levou para a Alemanha pela primeira vez. Depois disso, retornei e decidi fazer um intercâmbio no Brasil, onde continuei meu trabalho, conheci instituições como o Itaú Cultural e algumas galerias particulares e participei do Festival Verbo em 2017; por isso me considero um artista institucional. Em termos de temática, um trabalho muito importante para mim foi no Museu da Lambada, no Brasil, em 2014, que realizei para a abertura desse galpão. Convidei alguns grupos folclóricos imigrantes bolivianos para entrar nesse desfile comigo e discutimos toda a questão do carnaval boliviano, da lambada brasileira, do folclore, do parade [celebração pública que implica um grande número de pessoas seguindo em uma mesma direção] e do andar performático típico do carnaval, que surge nesse trabalho com um poder estético particularmente muito forte para mim.

Em outra ocasião, recentemente, estive na França para estudar um movimento de 1550 no qual 50 tupinambás foram apresentar uma espécie de carnaval para o rei da França e terminei descobrindo que havia alguns cavalos fantasiados de elefantes aqui – já que os marinheiros da Normandia queriam dizer ao rei algo como “você quer chegar à Índia, ok, vamos te levar lá, mas como não temos elefantes por aqui, iremos recriá-los usando os cavalos.” Meu trabalho, então, foi recriar algumas fantasias e contar uma história visual do elefante como símbolo da colonização. A ideia consistia em pegar 12 cavalos, fantasiá-los com as roupas que fiz e andar com eles ao redor da Torre Eiffel. De novo, trago sempre a ideia de desfile, de bloco, do parade, de carnaval e da questão profana para simbolizar coisas não tão profanas, mas políticas – recriando algo dos tempos da colônia e, assim, estabelecendo a reformance.

Com sua obra, assim como o rei El Migrante, você também quer ser um crítico implacável das elites e dos bons costumes?
Essa pergunta é maravilhosa. Claro que, na verdade, quero ser um crítico implacável da família “de bem” – e, como alguns dizem, da mulher “bela, recatada e do lar” – e de qualquer valor conservador, qualquer elitismo, qualquer “bom costume” cultural e qualquer coisa que atinge minorias como a comunidade migrante. O manto não é “avesso” sem motivos, já está indo na via contrária de alguma forma. Ele é feito de lantejoulas, que têm a carga muito clara do carnaval pernambucano, do caboclo de lança, mas essa coisa cresce gigantescamente. De fato, acompanho as ligações do público com a obra por hashtags e comentários em redes sociais como o Instagram e acho muito interessante a abrangência de formas, de posturas, de realezas queer, de realezas negras e de outros tipos de realezas – e isso é lindíssimo. Não é apenas um postulado contra a sociedade brasileira, mas contra toda a força opressora.

Originalmente, o rei Momo, além de um crítico implacável a partir do sarcasmo, está baseado na figura de um rei escravo, que seria surreal e improvável. Para mim, ele que é o rei de verdade. Essa deveria ser nossa realidade e não é. É um resgate, ou uma reformance, da tradição do rei Momo – ponto de partida da pesquisa – que veio da Europa e teve sua primeira referência feita na América Latina, em 1888, no Carnaval de Barranquilla (Colômbia), a partir do qual ele se dissemina. Há certa reivindicação na postura dessa figura de um crítico sarcástico e maravilhoso, que se aproxima da composição do manto, desbordada e real.

Entrevista: João Vitor Guimarães, Marcia Dutra e Vinícius Máximo
Foto: Mariane Lima

*Publicado em 19 de janeiro de 2019

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