Programa de Exposições 2017: Dora Longo Bahia

Dora Longo Bahia, convidada da II Mostra do Programa de Exposições 2017, apresenta seu trabalho Polícia vai, polícia vem, com imagens do embate entre militares e manifestantes da greve geral de 28 de abril de 2017. O título da obra também dá nome à música da banda punk As Mercenárias, que, apesar de composta nos anos 1980, serve à militância de hoje e extravasa a atitude muitas vezes comedida em exposições.

Confira abaixo a entrevista com a artista.

A crítica social, especialmente a crítica ao Estado, parece ser o mote do trabalho Polícia vai, policia vem, que você apresenta na II Mostra do Programa de Exposições 2017. A matéria social é indissociável da sua produção e atuação artística?
A matéria é, de fato, indissociável. Mas não definiria como crítica social, só acredito que existe um lugar em que a matéria é o mundo, então, de alguma forma, isso aparece em meu trabalho.

Você iniciou seu trabalho artístico durante os anos 1980, no fim da ditadura militar. Desde então, muitas das suas criações tratam de situações de violência e repressão. De que modo produzir artisticamente a memória de contextos passados de repressão e violência ajuda a pensar a repressão e a violência do contexto atual, mesmo que diverso daquele dos anos de chumbo?
Para além dos anos 80, acredito que ainda vivemos em um momento de intensa repressão tão grande quanto a dos anos 70/80. Talvez os modelos coercitivos tenham mudado, mas há uma série de grupos sociais que estão desaparecendo, deixando de ter voz social, tampouco papel político, e sendo ensinados a ficar no lugar. Todos esses fatores fazem parte dos moldes de repressão hoje. E meu papel, como artista, é tornar visíveis questões que estão camufladas, ou até notórias, mas que fogem da realidade de transformação combativa. Por outro lado, existe uma onda conservadora que vem se consolidando de forma assustadora. É difícil encontrarmos lugares onde possamos ter a liberdade de se colocar, de flertar com o politicamente incorreto.

Pego como exemplo meus alunos da USP: dia desses passei um vídeo do Andy Warhol, de 1974, e sempre que passo tem alguém que sai da sala, pois o filme não é moralmente maniqueísta. E, na época, era muito evidente essa questão do sexo, drogas, rock’n’roll, preconceito, racismo e hoje em dia alguém levanta da sala e vai embora, pois o filme não é maniqueísta e foge dos códigos morais da sociedade.

Há uns dias, aconteceu uma situação semelhante na abertura de uma exposição no Rio de Janeiro. O Cão [banda formada pela própria artista, ao lado de Maurício Ianês, Bruno Palazzo e Ricardo Carioba] criou uma instalação sonora intitulada Maria da Penha, no Labsonica, a partir do aniversário da Lei Maria da Penha, e, durante a abertura do trabalho, uma menina me questionou sobre a abordagem proposta, afirmando que “as mulheres não aguentam mais passar por isso, mas que não deveríamos falar dessa forma”.

Pô, então vamos fingir que nada está acontecendo. Como é conscientizar as pessoas? Precisamos estar numa palestra para isso acontecer? Acredito que as formas de arte e do sensível, às vezes, não conscientizem racionalmente, mas elas fazem você perceber algumas coisas num nível que, talvez, permaneça no seu inconsciente. Mas, de modo geral, acho que estamos piorando cada vez mais, principalmente se tivermos um Bolsonaro por aí.

Por outro lado, desde meados dos anos 2000, existe uma insurgência de pessoas que têm se mobilizado e, talvez, isso dê um fundo de esperança de que a mudança está por vir. Nunca houve tantos artistas como hoje, tantas instituições ligadas à cultura, e isso, sim, se difere do que era em 1980.

Nessa época, havia um nicho de artistas bem reduzido e a ideia de registrar exposições e performances não tinha se consolidado, tampouco a ideia de transformar isso num produto, mesmo que seja um produto de memória, é um presente que está existindo. Acho isso muito legal, pois, ao contrário da ideia do movimento punk de “não tem futuro” – e se não tem futuro não vamos documentar nada, pois temos que mudar o aqui e o agora -, hoje em dia essa dinâmica é bem diferente, já na faculdade os “caras” estão documentando todo trabalho, sabem fazer portfólio, criar projetos, etc.

Mas existe algo que me deixa muito intrigada: vejo muitas pessoas sendo “artistas” antes de fazer arte, entende? Como elas se denominam? Quantos trabalhos elas têm? São questões que parecem ser incertas, mas, se caso der certo, isso é tratado de forma institucional e mercadológica. “Olha, esse artista aqui foi descoberto por tal instituição!”, existe perversidade nisso. É um paradoxo pensar que, em 1980, não havia um mercado voltado para as artes plásticas como hoje, mas também nunca fui tão censurada como nesses últimos dois anos. Não é uma censura propriamente, mas não deixa de ser uma censura imposta pelo capital.

Você trabalha com diferentes meios, como fotografia, vídeo, pintura e performance. Até que ponto tal vocação multimídia pode ser entendida como uma crítica às definições, por vezes estanques, estabelecidas pelo circuito institucionalizado da arte e também como uma característica da geração de artistas dos anos 1980?
Uma das coisas que entendo como arte é esse lugar de você colocar perguntas de uma forma sensível. Nunca me senti confortável com essas definições. Ser fotógrafo, ser pintor, ser artista. E a necessidade de definir o que é isso, o que é aquilo, é uma questão que vem desde o moderno. E, de certa forma, isso também é uma forma de controle bem problemática. É fácil você determinar as categorias, mas onde se encaixa a zona turva?

A crítica Ana Maria Maia termina o texto de apresentação sobre a sua participação na II Mostra do Programa de Exposições 2017 com o seguinte questionamento: “No hematoma dos fatos, das instituições e de nós mesmos, convém perguntar-se: que estratégias, papéis e lugares cabem à arte em tempos difíceis?”. Como você responderia a essa questão?
Cabe à arte desvelar aquilo que está velado. Para fazer isso, acho que os artistas precisam experimentar, correr riscos. Acho que se você ficar preso a procedimentos que já são conhecidos, se estagnar no mesmo consciente, se preocupando com o lugar do racional ou de algo estabelecido, ou mesmo uma relação do mercado, você nunca vai conseguir desvelar o que está velado, você só estará reproduzindo alguma narrativa daquilo que já foi desvelado. E, talvez, isso acaba dificultando ainda mais, tornando o véu mais rígido. É responsabilidade do ser enquanto artista buscar brechas para que questões de urgência venham à tona.

Entrevista: Fernando Netto e Marcia Dutra
Edição: Fernando Netto e Vinícius Máximo

Foto: João Silva

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