O surrealismo nas artes visuais e no cinema

Quando pensamos em surrealismo logo temos a ideia de uma arte que extrapola os limites do racionalismo. De fato, o termo surrealismo, cunhado pelo poeta André Breton, traz um sentido de afastamento da realidade comum que o movimento surrealista celebra desde o primeiro manifesto, de 1924. Na teoria de Breton, autor do manifesto, a arte surrealista procura resolver a contradição vigente, até aquele momento, entre sonho e realidade pela criação de uma realidade absoluta – a suprarrealidade, em que os artistas, em contato com a obra de Sigmund Freud e a psicanálise, valorizam o mundo onírico, o irracional e o inconsciente.

“SURREALISMO, s.m. Automatismo psíquico puro, pelo qual se pretende exprimir, verbalmente ou por escrito, ou de qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento. Ditado do pensamento na ausência de qualquer vigilância exercida pela razão.” (trecho do livro Manifestos do surrealismo, de André Breton, que está disponível na Biblioteca Sérgio Milliet do CCSP).

O movimento surrealista começa na França, no início da década de 1920, e não leva tempo para se propagar pelo mundo, nas mais variadas linguagens artísticas – artes visuais, literatura, cinema, música –, bem como no pensamento e nas práticas política, filosófica e na teoria social.

Entre os artistas adeptos do surrealismo estão: na literatura, André Breton, Georges Bataille, Louis Aragon, Max Jacob, Michel Leiris, Philippe Soupault e outros; nas artes plásticas, Joán Miró, Max Ernst, René Magritte, Salvador Dalí e outros; na fotografia, Brasaï, Dora Maar e Man Ray; e, no cinema, Luis Buñuel.

O contexto histórico em que o movimento surge corresponde ao período entre as duas guerras (1918-1939), marcado nas artes pela eclosão das tendências construtivas e formalistas – a escola Bauhaus, na Alemanha, por exemplo – e pelo fenômeno artístico conhecido por “retorno à ordem” – reação às experimentações empreendidas pelas vanguardas a partir da recuperação do realismo, dos gêneros tradicionais e dos valores culturais nacionais. Se o racionalismo visa a uma reforma gradual das estruturas sociais, o surrealismo se proclama extremista e revolucionário.

Salvador Dalí – The Persistence of Memory | Foto: Reprodução

 

Logo, a estética surrealista, na contramão da racionalidade que se estende nas novas tendências, traz para o gesto artístico a soberania do sonho e do fantástico, a partir de certos temas e imagens que são sempre tratados pelos surrealistas de maneiras distintas, como, por exemplo, o corpo, suas mutilações e metamorfoses; as civilizações primitivas; e o mundo da máquina.

A escrita e a pintura automáticas, tão utilizadas, dispensam o pensamento consciente do autor e consistem em formas de transcrição imediata do inconsciente na obra de arte, pela expressão do “funcionamento real do pensamento”. Dalí, um dos principais expoentes do movimento surrealista, dizia que seus quadros excêntricos eram “fotografias de sonhos pintadas à mão”. Ao longo da sua trajetória, produziu ilustrações para livros, litografias e trajes de teatro. É autor de um grande número de pinturas, desenhos, esculturas e vários outros projetos.

“O inconsciente não é apenas uma dimensão psíquica explorada com maior facilidade pela arte, devido à sua familiaridade com a imagem, mas é a dimensão estética e, portanto, a própria dimensão da arte.” (trecho do livro Arte moderna, de Giulio Carlo Argan, que está disponível na Coleção de Artes Alfredo Volpi do CCSP).

René Magritte – Personal Values | Foto: Reprodução

 

Tecnicamente, o surrealismo traz a desinibição dadaísta, como no emprego de procedimentos fotográficos e cinematográficos ou na ressignificação de objetos. Também se utilizam as técnicas tradicionais, como na obra de artistas interessados no conteúdo onírico das figurações.

Décadas depois da eclosão do movimento, podemos associar diversos procedimentos utilizados pelos surrealistas do século 20 em produções de artistas contemporâneos. São trabalhos que, além de explorarem novas dimensões para além dos suportes tradicionais, tentam, por meio do universo onírico, expandir a imaginação do espectador para a multiplicidade de relações e associações existentes entre as coisas.

Jared Domício, artista cearense, tem na Coleção de Arte da Cidade do CCSP seu trabalho Limpando o céu, de 2003 (foto abaixo). Trata-se de uma instalação com fotografias que sugere, metaforicamente, uma pessoa varrendo o céu. A poética onírica da obra desperta no público uma nova forma de ver o mundo, que ultrapassa os limites da racionalidade e da funcionalidade e invoca a fantasia como instrumento para a interpretação.

Na obra Cubo nº 6 (1991), de Antonio Lizárraga, se percebe o parentesco do artista argentino com a prática poética surrealista. Liberto da sujeição à lógica, o cubo de madeira não se revela por um significado habitual, mas, antes, em um jogo imagético de planos e cores. O trabalho também pertence ao acervo do CCSP.

Antonio Lizárraga – Cubo nº 6 | Foto: Acervo do CCSP

 

O surrealismo no cinema

Revolucionando não só a linguagem literária e das artes visuais, o surrealismo no cinema deu vazão a novas técnicas e abordagens que o libertaram da narrativa tradicional, transformando o meio em algo que poderia ser explorado de diversas formas, revelando – às vezes até replicando – o impacto dos nossos sonhos. Os filmes surrealistas muitas vezes nos deixam com imagens chocantes que se alojam em nossa psique e nos distanciam de histórias facilmente legíveis, na mesma medida que se mostram convincentes em suas profundas expressões do desejo. A tela de cinema se torna um portal através do qual o espectador pode viajar para onde as construções comuns de realidade não podem chegar, como a busca de um poeta através de um espelho (Sangue de um poeta, Jean Cocteau, 1932).

Jean Cocteau – The Blood of a Poet | Foto: Reprodução

 

Ao perceberem que a câmera poderia capturar mais do que o mundo real, técnicas singulares transformaram a imagem original em frente à lente em algo novo, fazendo com que os filmes tivessem a capacidade de desafiar as fronteiras entre fantasia e realidade, especialmente no que se refere a espaço e tempo. Como sonhos que desejamos trazer à vida, os filmes não têm limites nem regras.

Do trabalho com luz e sombra do expressionismo alemão aos filmes noir independentes de David Lynch (Veludo azul, 1986), a maior parte da estética que muitos diretores se utilizam, mesmo atualmente, deve-se ao trabalho de artistas surrealistas da década de 1920 até o final da década de 1940.

Embora os elementos surrealistas possam ser vistos em filmes americanos como os de Maya Deren (Tramas do entardecer, 1943), o cinema surrealista estava enraizado na vanguarda francesa, com Man Ray (A estrela do mar, 1928), Jean Epstein (A queda da casa de Usher, 1928), Jean Cocteau (Sangue de um poeta, 1932) e, talvez o mais famoso, Luís Buñuel (Um cão andaluz, 1929). Este último, considerado um clássico do cinema surrealista, continua a surpreender o público com sua estrutura narrativa e suas imagens ilógicas. Para Buñuel e outros cineastas surrealistas, a câmera era mais do que apenas um meio de capturar o mundo e contar histórias: era a lente através da qual eles poderiam distorcer e transformar representações do mundo naquilo que eles realmente viam.

Texto: Danilo Satou e Fernando Netto
Revisão: Paulo Vinicio de Brito

Colagem da capa: Beatriz Simões
Colaboração: Supervisão de Acervo do CCSP

*Publicado em 22 de maio de 2018

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