No entorno: Clínica Pública de Psicanálise

No entorno é uma série que compartilha experiências potentes de convívio e cultura que acontecem na vizinhança do CCSP — um espaço que já nasceu aberto ao diálogo com a cidade e às múltiplas possibilidades de viver o espaço urbano.

A alguns quarteirões do Centro Cultural, a vizinha Vila Itororó sedia a Clínica Pública de Psicanálise, que, desde 2016, oferece sessões de análise gratuitas no galpão do conjunto arquitetônico tombado e atualmente em processo de restauro pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo e pelo Instituto Pedra. Construídas no século passado como moradias, as edificações que formam a Vila, após a restauração de suas ruínas, se tornarão um centro cultural.

De abril de 2015 a março de 2018, porém, um centro cultural temporário se “ergueu” no galpão anexo à Vila, com diversas ações programadas com o intuito de ampliar as reflexões acerca das obras do pátio de casas e dos múltiplos usos e práticas que aquele espaço poderia ter (desde março de 2018, a programação cultural é gerida apenas pela Secretaria Municipal de Cultura). Uma delas, a Clínica Pública de Psicanálise, se mantém até hoje, caminhando na mesma direção de experiências semelhantes, como a Clínica Aberta de Psicanálise na Casa do Povo e o projeto Psicanálise na Praça Roosevelt, que, surgidas em 2017, objetivam democratizar o acesso à psicanálise.

Conversamos sobre o projeto com Daniel Guimarães, psicanalista voluntário da Clínica, para a reportagem Subjetividades e espaço público. Abaixo, você confere a entrevista na íntegra:

Como teve início a Clínica Pública de Psicanálise?
A ideia da Clínica teve início em 2015 e começamos a operacionalizar em junho de 2016. Num primeiríssimo momento, seria uma experiência de escuta voltada aos ex-moradores da Vila Itororó que foram expulsos para que aquele espaço fosse um centro cultural. Seria uma espécie de lugar onde as famílias pudessem se re-encontrar para elaborar esse processo, onde elas pudessem se reorganizar e lutar de alguma maneira, mas, sobretudo, onde pudessem se re-encontrar pra conversar.
A Clínica nasceu de uma não-psicanalista, a artista Graziela Kunsch. Ela fez parte da organização da resistência dos moradores da Vila há mais de dez anos. Então, ela tinha uma relação muito próxima com eles e foi convidada para trabalhar no Canteiro Aberto Vila Itororó, primeiro como artista, depois como formadora de público.
O Canteiro Aberto propunha que ali fosse um espaço onde a própria população desse um uso para aquele galpão provisório, de modo que ele pudesse ser um laboratório das experiências que, depois, desceriam para as casas da Vila assim que elas estivessem restauradas, quando elas viessem a ser o centro cultural; ou seja, a intenção era que não fosse um centro cultural com uma programação pensada por uma curadoria distante da história daquele espaço. Então, ela topou trabalhar lá por causa disso. Nesse momento, ela vai atrás dos ex-moradores, alguns deles viviam ali perto, porque conquistaram casas e apartamentos do tipo CDHU na região. Era uma luta deles não ser excluídos do Centro e de São Paulo, como muitas das famílias foram, por conta daqueles processos de remoção e de gentrificação que a gente conhece… As famílias se mantiveram organizadas por muito tempo e muitas delas conseguiram uma coisa que pareceu uma grande vitória naquele momento, que era continuar morando na região. Só que elas continuaram morando na região em situações diferentes do que era a vida delas antes. Não moravam mais em uma vila, mas em pequenas unidades sem espaço para as crianças brincarem. Algumas foram morar, por exemplo, no Bom Retiro, que é Centro expandido, mas com isso se quebrou uma relação de vínculo cotidiano, comunitário. E a Grazi, como representava muito a relação com as famílias, passou a ser uma espécie de escuta pra essas famílias, que voltaram ao espaço por causa dela, porque ela as convidou para que fizessem coisas no galpão, habitassem aquele espaço de novo. Ela começou a escutar conversas como “a gente tá triste”, “a gente perdeu o contato com as pessoas”… Nessa época, eu estava com um outro colega fazendo um trabalho clínico na escola do MST, em Guararema, e ela sugeriu uma experiência clínica no galpão para os ex-moradores. Esse foi o primeiro momento, uma espécie de vivência contraditória nossa de estar num lugar onde uma violência foi cometida pra trabalhar essa violência pra que ela não fosse esquecida.
No começo de 2016, numa segunda parte desse primeiro momento, a Grazi e eu fazíamos parte do Movimento Passe Livre e houve uma jornada de luta contra os aumentos da tarifa e muitos militantes estavam sem conseguir ir para a rua, estavam muito mal pela escalada de violência da Polícia Militar de São Paulo. Então, a gente começou a pensar, pela experiência mesmo, pelos acontecimentos, como é que a gente abriria um espaço de escuta, de elaboração psíquica pra essas pessoas. A gente se aproximou de grupos que trabalham com políticas de recuperação psíquica de violência de Estado, especialmente o Margens Clínicas, que trabalha com a pauta de reparação da violência de Estado praticada não no período da ditadura militar, mas no período da democracia. A abordagem deles é muito legal, pois se volta aos resíduos não superados (muito pelo contrário) da violência ditatorial no período da democracia. A gente fez uma espécie de extensão disso lá na Clínica ao receber militantes de movimentos sociais, que enlouquecem mesmo, porque é muito violento o cotidiano de luta pela ampliação da esfera pública. Então, a gente foi costurando a nossa história. Estamos num espaço público e em nome do público as famílias que moravam na Vila foram removidas, o que é uma coisa maluca. Essas pessoas não cabem no público? As pessoas que lutam pela ampliação da esfera pública são agredidas pela força pública? Como é que é isso? A gente passou a querer discutir nosso conceito do que é o público. Essas experiências têm que ser acolhidas dentro do público. Então, para nós faz toda a diferença que essas coisas sejam discutidas dentro de um centro cultural público.
Uma terceira parte desse primeiro momento foi pensar, então, no que seria um desdobramento meio óbvio: que essa clínica tivesse uma abertura para qualquer pessoa, não só para aquelas que não podem pagar por uma análise, levando em conta essa questão do público, essa dimensão do “para todos”. E isso é importante porque, no Brasil, particularmente, a psicanálise não é uma coisa ligada às coisas públicas, é uma prática muito elitizada, em todos os sentidos, desde a sua oferta terapêutica até a formação do psicanalista. É muito caro se formar psicanalista, porque a formação da psicanálise passa por fazer sua própria análise, ter tempo pra estudar, fazer a supervisão… Como é que você faz isso se você tiver que trabalhar muito e ganhar pouco? Não tem como, né? É um circuito fechado e que se mantém fechado a uma elite da Zona Oeste, dos Jardins… É uma coisa assim: se cair uma bomba na região dos Jardins, Higienópolis, Perdizes, Sumaré e Pinheiros, acabou a elite da psicanálise no Brasil. E ainda tem o fato de as políticas públicas de saúde mental serem cada vez menos adeptas da psicanálise e se aproximarem mais da neurociência… Até algumas práticas da psiquiatria que ainda têm que se haver com coisas da psicanálise estão sendo colocadas de canto, também pelo esforço que a psicanálise faz de ser tão elitista. A Sociedade Brasileira de Psicanálise, por exemplo, é inacessível até pela classe média.

Como funcionam os atendimentos na Clínica?
A Clínica abre os plantões aos sábados e as pessoas que chegam lá podem continuar os seus processos analíticos, se a coisa vai se costurando desse jeito, já que nem todo mundo vai lá pra fazer uma análise engajada. Às vezes, é só um encontro, um dia pra falar, desabafar alguma coisa. Mas tem pessoas que retornam, que querem continuar. Os analistas da Clínica, então, atendem em dias da semana essas pessoas com quem vão construindo relações a partir dos plantões de sábado, que funcionam como portas de chegada. Para os ex-moradores da Vila e os militantes de movimentos sociais, a gente abre a possibilidade de nos procurarem não necessariamente aos sábados.
Uma contradição que a gente tem que sustentar é que a ordem de chegada para os atendimentos não é um bom critério, porque tem pessoas que moram mais perto e outras que moram mais longe. É muito cruel, porém não achamos um jeito melhor ainda. Mas a gente leva muito em consideração isso. Uma pessoa que vem do extremo da Zona Sul e que chega depois de alguém do bairro, como é que a gente acolhe essa pessoa? A gente começou a pensar, então, os dispositivos de grupo, porque nesse caso não precisa de senha, basta chegar, mesmo que a pessoa fique um pouco frustrada porque ela queria uma conversa individual, mas ela pode ficar ali, pelo menos não vai embora sem nenhum acolhimento. Numa dessas a pessoa pode descobrir que é muito mais legal fazer a sessão coletiva do que individualmente. E às vezes é mesmo, a gente já chegou a encaminhar pessoas do atendimento individual para o grupal.
A história da Clínica se mistura com a prática, porque não tinha o atendimento grupal no começo. A gente teve que fazer porque percebíamos que tinha muitas pessoas indo ao plantão sem conseguir a senha, mas elas ficavam ali sentadas num banco, conversando entre si, e de repente aquilo já era um grupo. O público produziu essa coisa e a gente deu uma forma pra esse arranjo. Num primeiro momento não tinha atendimento durante a semana, mas a gente percebeu que tinha que ter, porque as pessoas estavam demandando processos continuados de análise. Então, não são os analistas que definem como é o trabalho, mas se trata de uma construção comum entre os analistas e os atendidos.

O desejo político e clínico de democratizar o acesso à psicanálise é o que está na base do projeto. Os sentidos desse desejo se amplificam na medida em que o projeto se desenvolve num espaço público como a Vila Itororó?
Aí tem um projeto político, que é disputar o que significa um espaço público num momento de agudização de um projeto hegemônico de privatização das coisas. Até a palavra privatização já ficou pra trás, é quase como se fosse natural que as coisas não sejam públicas — e se forem públicas, são um problema. A gente faz uma aposta de que o encontro num espaço público não é neutro, produz conteúdo psíquico na relação, ainda mais um tipo de lugar público que é um centro cultural, um lugar para o qual as pessoas vão pra produzir vida, não um lugar de doença que, paradoxalmente, um hospital é e que traz consigo toda uma dinâmica de relação e gestão de sofrimento a partir da lógica do tratamento da cura de quem está doente. Quando alguém vai lá no galpão da Vila Itororó ou vem aqui no CCSP, não só para a Clínica ou para o Psicodrama, encontra outras experiências coletivas, grupais, outra cor, outra arquitetura, outra dinâmica organizacional que produz outros tipos de vínculos, o que é muito diferente da estética de um hospital ou mesmo de um consultório particular de psicanálise. Tudo bem que cada consultório é diferente do outro, mas ficar na sala de espera de um consultório é diferente da experiência da Clínica. Lá o cara fica esperando o horário pra ser atendido e tem o pessoal do circo ensaiando… Tem histórias incríveis lá. Por exemplo, teve um cara que chegou uma vez, não conseguiu senha e ficou fazendo uma atividade de esgrima medieval com um grupo. Na segunda semana a mesma coisa, não conseguiu senha e ficou lá com o mesmo grupo. Na terceira semana fui falar com ele pra gente pensar numa forma de não deixar aquilo frustrante. Mas ele me disse: “não, tá da hora a Clínica”. Ele entendeu que aquilo tudo era a Clínica. Muita gente que é atendida, por exemplo, depois vai fazer oficina na marcenaria, no FabLab… Tem uma coisa de a pessoa ir até a Clínica porque está sozinha e, de repente, tem a cozinha pública e ela começa a fazer parte do coletivo de troca de receita. Ali não é um lugar só de ficar sentado, conversando com outra pessoa, existe um encaminhamento mais amplo. De alguma maneira, isso foi pensado no fim dos anos 1980 e no começo dos anos 1990 na reforma psiquiátrica brasileira. Nos Centros de Atenção Psicossocial isso era um tipo de pensamento dos hospitais, de haver, sim, o tratamento psicoterapêutico, com acompanhamentos psiquiátricos, mas o lance era colocar a pessoa engajada num processo comunitário, pra que ela pudesse sair de lá e tocar a vida dela adiante, de modo que o espaço fosse um lugar de passagem e não de cronificação. Um centro cultural produz esse tipo de coisa. Toda unidade do Sesc tem uma clínica de odontologia. Por que todo centro cultural não pode ter uma clínica de psicanálise, que seja integrada ao espaço, e não isolada do espaço? A gente tem um lugarzinho lá no galpão da Vila em que mais ou menos a gente simula um consultório. É uma sala que não é fechada, não tem isolamento — só temos uma espécie de biombo no formato de um L, com rodinha pra que a gente possa mover de um lugar para o outro —, tem um divã lá dentro que a gente também consegue mover e uma janela com vista para a contradição da cidade: as ruínas em reconstrução da Vila Itororó, a 23 de Maio e prédios de classe média. Mas a maioria dos atendimentos acontece fora desse lugar, porque a gente atende simultaneamente, enquanto outras atividades estão acontecendo. Então, tem essa coisa de o particular e o coletivo terem outra dimensão, diferentemente do consultório, que é um lugar quase de confessionário. Muito embora tenha momentos em que a gente não possa abrir mão disso, porque as pessoas têm o direito de falar coisas sem que outras escutem. Por isso, criamos esse lugarzinho lá que cria a sensação de que isso pode acontecer. Mas tem essa coisa de a pessoa esperar ser atendida e ver o centro cultural acontecendo. Tem uma bibliotecazinha lá no fundo, a gente vai fazer uma biblioteca da Clínica… Nossa ideia é fazer também, gradualmente, um lugar de formação popular de psicanálise. Não só pra que as pessoas sejam atendidas, mas pra que elas possam se tornar psicanalistas, sem ter que pagar R$1.500,00 por mês numa instituição de psicanálise, mais sua análise pessoal. As instituições de psicanálise exigem diplomas universitários pra que as pessoas entrem, então, esses cortes de classe vão depurando quem pode ou não ser psicanalista. As faculdades de psicologia conseguiram produzir um furo nesse sistema fechado da psicanálise no Brasil, mas ainda não é o suficiente.
Lá na Clínica tem isso, a pessoa vai lá, lê um livro, se não consegue ser atendida por conta da senha, ela fica lá, deita na rede, participa de alguma atividade, como uma oficina de dança ou de defesa pessoal para mulheres. São atividades que acontecem e que, eu acho, produzem tanto efeito terapêutico quanto uma sessão de psicanálise. Não precisamos tornar as coisas equivalentes, mas elas também não precisam ser excludentes.

Seria possível alcançarmos qualidade de vida nos utilizando de espaços das cidades como lugares de práticas corporais que possam beneficiar as pessoas?
Pra mim esse é o único conceito possível de cidade. Se não for isso, a cidade é só um lugar de deslocamento para o mercado. Os norteadores que nós temos para pensar a cidade são o Henri Lefebvre e o David Harvey. O conceito de direito à cidade — que depois o Lefebvre vai chamar de produção do espaço — se aproxima da psicanálise na medida em que nela é o próprio paciente que sabe ou vem a saber do seus conflitos e que produz os sentidos em companhia do analista — e não o analista quem vai dizer que o conflito é tal e que é assim que funciona o ser humano. Para o Lefebvre e o Harvey, é a própria população que deve dizer como a cidade deve ser desenhada, e não o técnico ou o urbanista da Prefeitura que está muito atrelado aos empreendimentos imobiliários, distante da realidade, e que, muitas vezes, produz uma transformação na dinâmica do cotidiano e no deslocamento do corpo das pessoas, que precisam fazer aquele deslocamento necessariamente porque só existe aquele deslocamento necessariamente.
Muitos de nós da Clínica vêm de uma outra prática que se chama acompanhamento terapêutico. Às vezes, eu venho atender aqui no CCSP como acompanhante terapêutico, que é um tipo de prática que nasce do processo do fim da internação compulsória dos hospitais psiquiátricos. Quer dizer, vamos abrir os hospitais psiquiátricos e o que a gente faz com essa galera? Vamos sair por aí e atender na rua. A rua como espaço clínico, essa é uma conceituação que abriu o campo do acompanhamento terapêutico. Deslocar-se pela cidade ou ficar em algum lugar que seja do desejo de ficar, da identificação, do prazer em ficar e dar um novo sentido para aquele espaço. E esse novo sentido para aquele espaço produz uma nova marcação psíquica na relação da pessoa com a cidade, muito diferente daquela de quem precisa, infelizmente, viver as cidades apenas como lugares de deslocamento da sua casa para o seu trabalho e do seu trabalho para a sua casa de novo — o que é resultado desse modelo rodoviarista e de lugares de consumo, de trabalho e de ensino (entendendo a escola como formação para vir a ser trabalhador e não outra coisa).
Tem outra referência pra gente que é o pessoal da Internacional Situacionista dos anos 1950, que trabalhava na crítica da produção do espaço urbano depois da Segunda Guerra. A vitória da Segunda Guerra foi a vitória da sociedade de consumo. Então, a cidade virou um nã0-lugar de deslocamento de corpo alienado. Esses caras começaram a fazer a crítica disso e a pensar utopicamente outras cidades. Eles tinham a noção de que outros tipos de produção do espaço psíquico e do espaço urbano são criados dialeticamente.

Por que o cuidado com a nossa saúde mental, ainda que pareça uma das grandes urgências dos nossos tempos, é tantas vezes tratado como um assunto de menor importância na nossa sociedade e pelas próprias pessoas individualmente? A que se deve essa omissão?
Houve um período em que havia muito estigma em relação à loucura. A loucura produz muito medo nas pessoas, elas se defendem querendo não ser loucas (risos). Mas me parece que hoje esse estigma é bem menor. Tô pegando como termômetro a Clínica Pública. A maior parte das pessoas que chegam lá é da classe trabalhadora. A gente atende pastores evangélicos, pai de santo… É maravilhoso isso. Eu vou ao pai de santo e tem pai de santo que vai lá na Clínica (risos). Nesse sentido, aliás, uma coisa muito interessante é pensar também quais os instrumentos o povo brasileiro já utiliza há bastante tempo pra cuidar da sua saúde mental. Ir ao terreiro tem a ver com isso, ir à igreja tem a ver com isso. No entanto, ainda hoje, acho que persiste aquela noção de que o cuidado psíquico é frescura, é coisa de rico e que o problema da população pobre é mais elementar. Só que agora todo mundo está sacando, mesmo nos movimentos populares, que as pessoas adoecem psiquicamente e têm direito a um tratamento ou acompanhamento psicológico digno. Tanto é que a gente tem uma relação forte com movimentos sociais, especialmente com o MST, que manda seus militantes para a Clínica; o [Guilherme] Boulos, por exemplo, estuda psicanálise; e a [psicanalista] Maria Rita Kehl está há anos no MST. Os Racionais já diziam: “Miséria traz tristeza e vice-versa”. Eles foram, aliás, uma voz importante na periferia para a afirmação de que o sofrimento e a tristeza tinham que ter um lugar legitimado. Ao mesmo tempo, os movimentos sociais não externam com tanta força sua preocupação com isso nas suas bandeiras, embora deem apoio. Acho que o movimento antimanicomial, por exemplo, sempre teve que correr sozinho, com as próprias pernas e com pouco auxílio.

De alguma forma, a Clínica Pública de Psicanálise recupera uma conexão (intrínseca, porém, muitas vezes, fragilizada) entre as noções de subjetividade e coletividade. Em que medida essa “reconciliação” pode ser útil para a construção de uma cidadania mais plena?
Um discurso público sobre a saúde psíquica já coloca a questão num outro lugar. Como é o mundo do trabalho? Como é a organização espacial da cidade? Como é a organização da família? Como é o discurso sobre a sexualidade num contexto amplo? Como é que todas essas coisas atravessam o corpo das pessoas que estão manifestando o sofrimento? E quem não está manifestando o sofrimento, mas que sofre em silêncio, como que é pra essa pessoa tudo isso? Botar a questão nesse campo já modifica tudo. O Centro Cultural é saúde pública. Direitos sociais é saúde pública. Direito à cidade é saúde pública. E saúde pública enquanto saúde psíquica, sem diferenciação do corpo e do psíquico. Como a gente está num momento de retrocesso na esfera pública e como o sofrimento ganhou um novo estatuto de legitimidade, acho que é possível reinaugurar uma dimensão de luta social pela esfera pública a partir dos efeitos que a não esfera pública provoca nas pessoas, que é esse sofrimento psíquico. Quer dizer, o SUS precisa existir porque as pessoas precisam ter acompanhamento psíquico. O transporte público não pode ser tão inibidor do deslocamento das pessoas porque, por exemplo, um pessoal lá da USP que é vinculado ao Hospital das Clínicas e que trabalha políticas públicas produziu um estudo (Estudo epidemiológico dos transtornos psiquiátricos na região metropolitana de São Paulo) apontando que as regiões com menor índice de mobilidade com o restante da cidade, ou seja, onde as pessoas estão mais isoladas porque o transporte não chega ou porque elas não têm dinheiro para pagar a tarifa, esses são os lugares onde existem os maiores índices de sofrimento mental. Isso quer dizer alguma coisa. Então, o deslocamento pela cidade, o direito à cidade têm a ver com isso. Cidade que não é acessada produz pessoas que adoecem mais.
Vocês falaram “cidadania”, mas essa palavra não existe mais no vocabulário, ninguém mais fala. Nem a esquerda usa muito esse termo mais. Usa-se mais o termo “acesso”. Mas eu acho que acesso e cidadania são coisas diferentes. Cidadania é uma palavra que produz mais consequências políticas do que acesso. Cidadania não é só ter acesso ao que a cidade produz: é você próprio produzir a cidade. Se você pode fazer parte da construção do que é a cidade e ser um sujeito da própria vida social, é outra coisa. Isso tem efeitos de saúde psíquica, de desalienação.

Em grande parte de nossas vidas, somos educados a nos comportar exclusivamente de modo produtivo em locais de trabalho, a consumir no tempo livre e a nos dedicar a aspectos de saúde somente em locais para o cuidado com o corpo (hospitais, clínicas, academias, etc.). Como podemos inverter essa situação para ressignificarmos as cidades, de modo que ocorra um equilíbrio entre esses fatores?
Acho muito difícil haver esse equilíbrio. Essa pergunta implica um diagnóstico das formas produtivas da sociedade. Aliás, não sei se a nossa tarefa é distensionar as pessoas pra que elas continuem produtivas. No limite não é possível que isso aconteça, porque, se tudo vai bem, a gente pode suportar que a realidade é essa e fazer alguma coisa a partir disso. Existe uma diretriz para o nosso corpo e para a nossa capacidade intelectual que é a de ser funcional para a manutenção das coisas. E o estado das coisas é insustentável. Não acredito que seja possível um equilíbrio, mas acho que dá pensar que o sofrimento psíquico existe e se relaciona com o sofrimento do corpo. E, no limite, angústia é uma sensação do corpo, não é abstrata. O Lacan fala que a angústia é o único sofrimento que não mente. É uma coisa da qual não se escapa. Se eu estou com um problema nas costas, eu faço sessões de fisioterapia e eventualmente aquilo se resolve. Mas o que você faz com a angústia? Ela vai contigo pra onde você for. O sofrimento é um conflito entre nossas partes desejantes, nos constitui e nos dá personalidade.
Não sei se há uma forma de equilibrar as coisas, mas o que eu acho mais fundamental não é equilibrar, e sim procurar reconhecer tanto as formas corporais de sofrimento quanto o sofrimento psíquico; e reconhecer, também, que esse sofrimento não é só um problema individual, de uma pessoa que não sabe lidar com algum conflito, mas é dialético. Essa pessoa existe neste mundo, neste tempo histórico, nesta cidade, neste bairro, nesta situação, teve certos encontros, com certas pessoas, foi recebida no mundo de certa forma, foi amada ou foi abandonada… Tudo isso conta e é grupal. O Freud diz que não existe psicologia individual que não seja social, porque o indivíduo faz parte de uma sociedade. As formas de sofrer mudam porque a história muda e as relações sociais mudam. Não existe equilíbrio até mesmo por isso, porque a vida social não para de se transformar e produzir novas formas de subjetivação e sofrimento.

Entrevista: Fernando Netto e Vinícius Máximo
Fotos: Divulgação

*Publicado em 13 de junho de 2018

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