Invenção 67

Na primeira semana de junho de 2017, o CCSP debate e experimenta as criações que marcaram o ano de 1967. Confira texto sobre a programação Invenção 67 assinado por Cadão Volpato, diretor do Centro Cultural:

1967, o ano extraordinário

Música, literatura, política, comportamento: parece que tudo aconteceu naquele distante verão dos anos 60

Que ano! Em 1967, os Beatles lançavam o álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, um marco da vanguarda pop. Ainda naquele verão,o chamado Verão do Amor, a banda fez parte da primeira transmissão via satélite com a canção “All You Need Is Love”, que de certa forma resumia o espírito da loucura toda que acontecia notadamente na Costa Oeste americana, em São Francisco. Parecia que o amor estava de fato lá, à espera, com flores no cabelo. John Phillips, dos Mamas and the Papas, escreveu em 20 minutos uma canção para fazer propaganda do Monterey Pop Festival daquele ano. “Se você está indo para São Francisco, esteja certo de usar flores no cabelo”, dizia a letra.

São famosas as imagens de outro Beatle, George Harrison, o mais chegado nas viagens espirituais indianas, andando pelo Golden Gate Park de violão em punho, sorridente, usando óculos de sol em formato de coração. Cerca de 100 mil pessoas invadiram Berkeley, Haight-Ashbury e cercanias atrás do amor e da flor. Claro que virou um caos. Mas, enquanto durou, a fumaça das drogas embalou a moçada errante pelas ruas de São Francisco. O embalo do amor livre durou alguns dias.

Ainda naquele ano incrível, os Doors lançaram seu primeiro disco. O Grateful Dead também. Janis Joplin, Jefferson Airplane, Jimi Hendrix e The Who tocaram na Califórnia, no Monterey Pop. O musical Hair, com todos os cabeludos do pedaço ali parodiados, estreara em Nova York. Mick Jagger e Keith Richards, dos Rolling Stones, foram presos por posse de drogas. Os hippies apareciam estampados na capa da Time sob a manchete “Os Hippies: Filosofia de uma Subcultura”. A BBC se recusava a tocar “A Day in the Life”, do Sgt. Pepper’s, por suas referências a drogas. A Guerra do Vietnã estava no auge e os primeiros protestos de massa tomavam as ruas de Washington.

Era uma bela (bela mesmo) bagunça, um grito de cores e flores.

Enquanto isso, no Brasil

Houve uma certa noite em 1967, transmitida pela TV, que revelou para o país uma geração de garotos na faixa dos 20 e poucos anos. Gilberto Gil, Caetano Veloso, Edu Lobo, Chico Buarque: todos estavam nesse festival da Record, demonstrando como seria o impacto da TV sobre a música. Um pouco mais cedo neste ano incrível, Hélio Oiticica (1937-1980) criava a Tropicália, ambiente labiríntico composto de dois Penetráveis associados a plantas, areia, araras, poemas-objetos, capas de Parangolé e um aparelho de televisão, uma obra que resumia o espírito altamente inventivo do artista. Tropicália batizaria o movimento musical que explodiria logo a seguir, sob o comando dos garotos baianos daquele festival.

No cinema brasileiro, 67 foi o ano em que estrou o filme Terra em Transe, de Glauber Rocha. E que estreou a peça O Rei da Vela, a até então esquecida peça de Oswald de Andrade levada ao palco de forma barulhenta por José Celso Martinez Correa. No teatro também nasceria Cordélia Brasil, que revelou um jovem dramaturgo antenado com o mundo: Antonio Bivar.

Foi o ano de Panamérica, o romance de pura invenção escrito por José Agrippino. Lá fora, a América Latina iniciava um boom literário com Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. Aqui dentro, um pouco antes de morrer, Guimarães Rosa lançava a experiência radical de contos curtíssimos contida em Tutaméia. E ainda por cima foi o ano de Quarup, de Antonio Callado.

Por tudo isso o Centro Cultural São Paulo resolveu homenagear esse ano extraordinário de invenção e imaginação com debates, filmes, música, teatro e cinema. Em 1967 o mundo ainda nutria uma grande esperança no que a juventude seria capaz de fazer. Mil novecentos e sessenta e oito simboliza a explosão. Os anos seguintes, de certa forma, corroboram a frase de mau agouro que John Lennon cunhou sobre o fim dos Beatles: o sonho acabou. Com o complemento de Gilberto Gil: “E quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou”. Em 1967, porém, a juventude ainda sonhava alto.

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