Em A pianista, Elfriede Jelinek explora os limites da perversidade

Se a relação kafkiana entre pai e filho no livro O processo fosse transportada para o universo feminino, sem dúvidas, a opção mais plausível seria o romance A pianista, da escritora austríaca Elfriede Jelinek, Nobel de Literatura em 2004. Publicado em 1983, o livro – que também ganhou uma adaptação para o cinema, em 2002, pelas mãos do diretor Michael Haneke, com elenco formado por Isabelle Huppert e Annie Girardot – é um polêmico debate sobre as forças incompreensíveis da tirania e o ascetismo, temas recorrentes na literatura de um país que, no pós-guerra, nutriu uma cultura conservadora entre as elites.

“A professora de piano Erika Kohut entra como um furacão no apartamento onde vive com sua mãe. Ela gosta de chamar Erika de “meu furacãozinho” porque às vezes a filha se movimenta com extrema rapidez. É dessa forma que ela tenta escapar da mãe.”

Neste que é o mais autobiográfico dos romances de Jelinek, acompanhamos a história da professora de piano Erika Kohut, uma mulher que, aos 36 anos, leciona em um conservatório em Viena, capital da Áustria. Presa às ambições da elite local, a professora possui um relacionamento autodestrutivo com a mãe, de origem humilde, que sonhava com a carreira de grande solista internacional da filha. O embate entre mãe e filha passa a se justificar quase como uma metáfora de uma sociedade aparentemente harmônica que abafava o passado do austro-fascismo e do nazismo tanto quanto os conflitos sociais próprios da sociedade do pós-guerra.

Erika foi criada para ser uma pianista e nada mais, desprendida de toda sexualidade e das relações externas. No entanto, após falhar na missão de ser a filha dos sonhos, aos olhos da mãe, a protagonista exorciza todo seu desejo sexual reprimido embarcando numa série de atos rebeldes, encontrando autonomia e alívio na perversidade e na autoviolação. Até que um dia Erika passa a ter um conturbado relacionamento com um de seus mais talentosos alunos, Walter Klemmer. Ao usar como pano de fundo elementos clichês de uma história de amor, substituindo cenas pungentes por abuso físico e atos maliciosos, a autora enfatiza a sexualidade sombria e pulsante de Erika. Atenta à questão política de gênero, Jelinek não poupa situações explícitas e animalescas: as cenas de contato sexual e a pura selvageria dos desejos dos personagens servem para sublinhar a insensatez de sanear a sexualidade feminina.

“O tempo vai aos poucos se engessando em torno de Erika. Quando a mãe golpeia o tempo com seu punho, com um pouco mais de violência, o tempo imediatamente se esfarela. E quando isso acontece não resta nada a Erika a não ser ficar sentada com os restos do colarinho ortopédico de gesso do tempo em volta do pescoço, submetendo-se ao escárnio dos outros, e admitir: agora tenho que ir pra casa.”

A mãe, cujo nome não é mencionado nenhuma vez nas 320 páginas do livro, faz uma espécie de alusão ao arquétipo da mentalidade conservadora – ancorada nos valores herdados da monarquia austríaca – da sociedade local, convicta da validade da ideologia hegemônica, que é descrita com muita ironia.

A pianista oferece uma exposição imediata da dicotomia humana, propondo uma experiência distorcida do que seriam o amor e a intimidade. Os protagonistas são ciumentos e gananciosos, a paixão se torna obsessão, o sexo é sujo e a afetividade é violenta, de modo que o romance, não oferecendo solução para os problemas que apresenta, desnuda a sociedade e expõe o que há de mais obscuro pairando sobre a sua superfície. A expectativa de que Erika batalhe por sua liberdade se esvai a cada página, pois sua personalidade desviante só garante mais uma catástrofe.

A escrita de Jelinek dá o tom do livro, não há diálogo como tal e até mesmo as frases longas têm uma sensação de brevidade devido ao ritmo frenético do plano narrativo. A pianista foca no que, para a escritora, é o essencial do comportamento humano e ela examina os piores traços com um olhar frio. É difícil distinguir quanto do pessimismo da história é a visão de mundo de Erika ou da própria autora.

Texto: Fernando Netto
Revisão: Paulo Vinício de Brito

Ilustração: Beatriz Simões (a partir de imagem de divulgação do filme A professora de piano, de Michael Haneke)

+A pianista, de Elfriede Jelinek, está disponível para empréstimo na Biblioteca Sérgio Milliet do CCSP

*Publicado em 11 de maio de 2018

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