Diálogos entre acervos: O Grupo Ruptura e o início do movimento concreto paulista

A ideia da série Diálogos entre acervos é criar pontos de contato entre os livros do acervo da Biblioteca (especialmente da Alfredo Volpi) e as obras das coleções mantidas pelo CCSP. No mês de março de 2018, em diálogo com a programação especial que, em abril, celebra os 50 anos do movimento tropicalista, destacamos a história do Grupo Ruptura e sua importância para o movimento concreto paulista, que influenciaria no surgimento de diversas manifestações no cenário cultural do País, como o Tropicalismo.

O Grupo Ruptura e o início do movimento concreto paulista

Acontece em dezembro de 1952, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, a mostra do Grupo Ruptura, que, com o objetivo de introduzir o movimento da arte abstrata e concreta na vida artística da cidade, marcou oficialmente o início do construtivismo paulista – que já se articulava, desde os anos 1930, em trabalhos e debates envolvendo a abstração. Porém, a historiadora e crítica de arte Aracy Amaral aponta que a abstração geométrica se faz presente no País, mesmo que timidamente, desde os anos 1920, como em decorações de interiores.

O Grupo Ruptura foi formado por sete artistas, a maioria estrangeiros residentes em São Paulo: os poloneses Anatol Wladyslaw e Leopoldo Haar, o austríaco Lothar Charoux, o húngaro Féjer, os paulistas Geraldo de Barros e Luiz Sacilotto e o ítalo-brasileiro e porta-voz oficial do grupo, Waldemar Cordeiro. A formação, no final dos anos 1940, não foi por acaso: alguns dos artistas já se conheciam de outrora e o interesse pelos estudos das questões abstratas se fez o mote principal na ideia da criação de um grupo de artistas que, mais tarde, em 1952, apresentariam a exposição no MAM de São Paulo:

“Foi no clima dos preparativos do IV Centenário de São Paulo e a apresentação de exposições internacionais, mostrando o que de mais atual acontecia no mundo em termos artísticos, que os membros do Ruptura deram início ao seu projeto de valor inestimável para o começo de um dos períodos mais profícuos da produção artística nacional.” (trecho do livro Grupo Ruptura: revisitando a exposição inaugural, de Rejane Cintrão, que está disponível na coleção da Biblioteca Alfredo Volpi do CCSP).

A década de 1950 foi, além de uma época de grande crescimento econômico, um dos períodos de maior agitação cultural em São Paulo: acontece a 1ª Bienal de São Paulo, no ano de 1951, que, segundo o crítico Mario Pedrosa, amplia os horizontes da arte brasileira a partir do intercâmbio entre nossos artistas e as vanguardas internacionais. Além disso, em 1952, forma-se o Grupo Noigandres, reunindo os poetas Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos – pautados por questões quanto à abstração – e dialogando com a mesma necessidade do Grupo Ruptura. Todos esses acontecimentos fomentam o interesse do meio artístico brasileiro pela arte abstrata.

Nesse contexto, a mostra do Grupo Ruptura, em 1952, segundo o manifesto dos próprios integrantes, privilegia a renovação dos “valores essenciais da arte visual”. Apresentada no menor espaço expositivo do MAM de São Paulo, a coletiva – e, ainda mais, o manifesto lançado pelo grupo na ocasião – causou grande agitação no meio cultural paulistano pelo posicionamento contrário à arte figurativa e mesmo a uma abstração apoiada na geometrização dos elementos naturais.

Os princípios do concretismo dispensam qualquer conotação lírica ou simbólica. O quadro, construído exclusivamente com elementos plásticos – planos e cores –, não tem outra significação senão ele próprio. Logo, o grupo rompe com todas as variedades do naturalismo na arte do século 20.

Quanto à exposição, para além dos trabalhos apresentados ao público, a importância da mostra também está no fato de ter sido a primeira vez em que um núcleo de artistas se reuniu em torno da arte concreta no Brasil. Portanto, ela tem valor histórico enquanto meio de prospecção de um novo movimento que se reverberará em variadas linguagens e nos períodos posteriores.

“Segundo Luiz Sacilotto, em depoimento colhido em janeiro de 2002, os artistas levavam suas obras e as montaram pessoalmente. Ele afirma ter feito várias viagens de ônibus para levar os trabalhos de Santo André, onde residia, até o museu. A localização espacial das obras na mostra, a maneira de fixá-las, assim como a elaboração de etiquetas, concepção, realização e distribuição do Manifesto Ruptura, foram todas definidas e produzidas pelos próprios artistas.” (trecho do livro Grupo Ruptura: revisitando a exposição inaugural, de Rejane Cintrão, que está disponível na coleção da Biblioteca Alfredo Volpi do CCSP).

Geraldo de Barros – um dos primeiros membros do Grupo Ruptura – tem, na Coleção de Arte da Cidade mantida pelo CCSP, uma obra (foto abaixo) produzida no ano de 1950. Antes, em meados da década de 1940, o artista questiona, juntamente com outros nomes, a prática fotográfica no Brasil. Desse modo, a produção de Geraldo investiga os limites do processo fotográfico tradicional e, depois, aproxima-se de pesquisas formais nas quais o que interessa são os ritmos e planos. Assim, o artista une gravura, desenho e fotografia em seus trabalhos – o que resultaria em uma abstração fotográfica no início da década de 1950, período em que Geraldo se associa às teorias concretistas. Posteriormente, em 1952, participa da mostra do Grupo Ruptura. A obra pertencente ao acervo, então, revela esse percurso do artista entre novos estudos da forma até sua aproximação do concretismo.

Anatol Wladyslaw – que em 1951 é convidado a ingressar no Grupo Ruptura – tem uma série de trabalhos integrados a Coleção de Arte da Cidade. Logo, no acervo, é possível ter uma visão panorâmica de sua produção artística, desde meados da década de 1940 – em que inicia sua obra – até os anos 2000. No começo da trajetória, Anatol realiza pinturas figurativas. Por volta de 1950, produz obras abstratas geométricas, o que significa uma variedade técnica dentro de um curto período. Também nessa época tem contato com o Ruptura, ampliando ainda mais sua área de interesse, até participar, em 1952, da mostra coletiva.

Abaixo, selecionamos quatro obras de Wladyslaw pertencentes à coleção do CCSP e que revelam a pluralidade do artista. As composições – produzidas, respectivamente, em 1947, 1949, 1951 e 1955 – mostram, em ordem cronológica, do início, na figuração, até o momento posterior à mostra do Grupo Ruptura, na qual o polonês expõe ao lado de outros expoentes do movimento concreto paulista. A partir dessa seleção de trabalhos, nota-se a mudança gestual do artista ao longo dos anos conseguintes ao seu início na pintura.

Além de toda a produção artística desenvolvida a partir da década de 1950, o legado do movimento concreto também está no advento de diversas manifestações culturais que ecoaram nos períodos posteriores no País. O Tropicalismo, por exemplo, no final da década de 1960, surge enquanto força de renovação social, política e comportamental – mesclando expressões tradicionais da cultura brasileira a inovações estéticas radicais. Manifestou-se como um desdobramento do concretismo dos anos 1950 (especialmente da poesia concreta).

Por conta disso, o CCSP apresenta, no mês de abril, a programação especial São Paulo – a capital tropicalista, que comemora os 50 anos da Tropicália em São Paulo com a exibição de documentários, exposição, conversas com convidados, rodas de escuta e outras atividades.

Texto: Danilo Augusto
Revisão: Paulo Vinicio de Brito

Ilustração da capa: Luiza Zelada
Colaboração: Supervisão de Acervo do CCSP

*Publicado em 19 de março de 2018

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