Diálogos entre acervos: a Bienal de São Paulo na coleção do CCSP

A ideia da série Diálogos entre acervos é criar pontos de contato entre os livros do acervo da Biblioteca (especialmente o da Alfredo Volpi) e as obras das coleções mantidas pelo CCSP. Em setembro, com a proximidade da abertura da 33ª Bienal de São Paulo, destacaremos o contexto de criação de um dos eventos artísticos mais importantes e longevos do mundo, sua importância para a arte contemporânea no Brasil e, sobretudo, os artistas presentes no acervo da Coleção de Arte da Cidade cujas trajetórias, em algum momento, cruzam com a história da Bienal.

A 1ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo, concebida por Ciccillo Matarazzo e Yolanda Penteado, em 1951, foi – além da primeira exposição de arte moderna de grande porte realizada fora dos centros culturais europeus e norte-americanos – a inserção de São Paulo no cenário internacional das artes plásticas, colocando artistas brasileiros em contato com a mais nova produção contemporânea mundial. Desse modo, a Bienal, que chega em 2018 a sua 33ª edição, efetivou- se ao longo das décadas como um dos mais importantes espaços para a prospecção da arte contemporânea.

Inspirada na Bienal de Veneza, sua primeira edição recebeu 1.800 obras representando 23 países e aconteceu no pavilhão do Trianon, onde posteriormente seria construído o edifício que abrigaria o novo espaço do MASP (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand) – museu que foi inaugurado em 1947, no centro da cidade. Em 1949, foi aberto o MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo), com a histórica exposição Do figurativismo ao abstracionismo. Esses eventos, juntamente com a criação da Bienal nos anos seguintes, marcam a efervescência cultural de São Paulo em um período de expansão urbana. A 1ª Bienal representou um divisor de águas no cenário das artes plásticas no Brasil, fazendo um intercâmbio entre a comunidade artística e o público do País e os grandes centros produtores de arte.

1ª Bienal de São Paulo | Foto: Reprodução

 

 “Entre os dois e três meses que dura, a Bienal de São Paulo reúne uma parte substantiva da expressão humana mais atual, não fosse ela um fórum consagrado à arte contemporânea, lugar de fronteira onde o ser se reinventa. Lá comparece gente de todos os quadrantes do mundo com suas contribuições para o avanço da expressão e, por extensão, da sensibilidade.” (trecho do livro Bienal 50 anos, que está disponível na Coleção de Artes Alfredo Volpi do CCSP).

Na 1ª Bienal, o público teve a oportunidade de entrar em contato com a novíssima arte apresentada pelas delegações de cada país, que traziam pela primeira vez para o Brasil nomes célebres da arte produzida no exterior, entre eles Pablo Picasso, Alberto Giacometti, René Magritte e George Grosz. Em paralelo, entre os artistas brasileiros convidados estavam, por exemplo, Maria Martins, Candido Portinari, Emiliano Di Cavalcanti, Lasar Segall e Victor Brecheret. Dessa forma, a mostra promovia o contato direto entre a produção artística nacional e internacional, gerando uma troca riquíssima e fundamental entre arte e público que se perpetuaria ao longo das décadas posteriores. Aliás, além da mostra de artes plásticas, a 1ª Bienal de São Paulo trouxe uma exposição internacional de arquitetura, um festival de cinema, entre outras atrações que agitariam o cenário cultural da cidade.

Já a 2ª Bienal, de 1953, ocorreu no recém-inaugurado Parque Ibirapuera e ficou conhecida como a Bienal de Guernica, pois recebeu a famosa tela de Pablo Picasso, de 1937. A presença da obra na mostra influenciou a temática, os traços e a representação das formas dos artistas latino-americanos. Ao lado de Guernica, no mesmo salão, o público conferiu também as produções de Paul Klee, Piet Mondrian, Alexander Calder, entre diversos outros nomes. A exposição trouxe para o País as experimentações das linguagens e das técnicas do cubismo, do futurismo e do neoplasticismo. Portanto, a estética brasileira não tardou em ser influenciada por essas renovações plásticas.

“A 2ª Bienal se confirmou como a mais importante mostra de arte moderna realizada no mundo em todos os tempos. O elenco de artistas aliado à envergadura do evento foi obra de uma convergência especialmente favorável de fatores, algo impensável no mundo de hoje, em que as condições para transporte, segurança e exibição das obras são cada vez mais restritivas.” (trecho do livro Bienal 50 anos, que está disponível na Coleção de Artes Alfredo Volpi do CCSP).

Em 1962 é criada a Fundação Bienal de São Paulo, sendo responsável por promover e organizar, da 7ª edição até a atualidade, a Bienal Internacional de Arte de São Paulo. O evento se estabeleceu, no decorrer das décadas, como um espaço que fomenta a produção artística, identifica tendências e inovações, absorve informações e conhecimentos, além de criar um ambiente fecundo para o debate. São inúmeros os artistas que firmaram sua trajetória a partir da Bienal, e tantos outros – com percursos consolidados – que tiveram a oportunidade de levar suas produções mais recentes para um grande e variado público.

As Bienais arejam, valorizam a arte, ao passo que questionam tabus, preconceitos. Ao lado da Bienal de Veneza e Documenta de Kassel, a Bienal de São Paulo tem uma longevidade fundamental para o cenário da arte contemporânea, pois enriquece a experiência e a visão de artistas, historiadores da arte, mídia e visitantes. Em 2018, o evento chega a sua 33ª edição e vem sugerir uma mudança no próprio modo de se organizar a exposição. Sob o comando de Gabriel Pérez-Barreiro, a Bienal deste ano tem o intuito de questionar a centralidade do papel do curador na arte contemporânea.

O Centro Cultural São Paulo realizou, em 2010, uma mostra que apresentava ao público parte de sua coleção de arte postal, que hoje soma 10 mil peças. As obras expostas estiveram presentes na 16ª Bienal de São Paulo. Esses trabalhos, provenientes do acervo de Walter Zanini, foram doados em 1984 à Coleção de Arte da Cidade, mantida pelo CCSP. O público conferiu obras de Falves Silva, Hudinilson Junior, Regina Silveira, entre tantos outros nomes que estiveram na Bienal de 1981, evento que na época apresentou um núcleo – ligado à arte conceitual – dedicado à Arte Postal, de curadoria de Júlio Plaza. Três mil metros de paredes iam sendo, de maneira progressiva, preenchidos pelos assistentes à medida que as cartas, atendendo ao convite feito pela Bienal, iam chegando.

Trabalho de Falves Silva, presente na Coleção de Arte da Cidade | Foto: Acervo do CCSP

 

Diversos artistas que estiveram presentes na história da Bienal têm trabalhos que integram a Coleção de Arte da Cidade do CCSP. Não são especificamente obras que estiveram expostas em uma das mostras, mas que representam, de maneira significativa, a trajetória de nomes que marcaram a arte brasileira. Lasar Segall, artista convidado da 1ª Bienal, tem no acervo a obra Casal, de 1950 – ano anterior em que participa da exposição. O desenho é realizado em um período em que o artista tem mais liberdade plástica, aproximando-se da abstração para compor figuras expressivas em suas composições.

Lasar Segall – Casal | Foto: Acervo do CCSP

 

Anatol Wladyslaw e Arthur Luiz Piza, que também estiveram na 1ª Bienal, têm um número considerável de obras no acervo do Centro Cultural. Os trabalhos abaixo, ambos de 1951 – ou seja, contemporâneos à produção apresentada pelos dois artistas na primeira edição da Bienal –, revelam as linhas e formas abstratas que eram experimentadas por eles.

Anatol Wladyslaw – Sem título | Foto: Acervo do CCSP

 

Arthur Luiz Piza – Sem título | Foto: Acervo do CCSP

 

Situations (1975), de Lydia Okumura, participa atualmente da mostra Arte tem gênero? Mulheres na Coleção de Arte da Cidade, em cartaz no CCSP e que traz a público as produções femininas do acervo da instituição. O trabalho em questão é realizado no início da carreira da artista e explora um jogo sutil entre a percepção visual da obra de arte e sua materialidade. Lydia integra o time das 12ª e 14ª Bienais, 1973 e 1977, respectivamente.

Lydia Okumura – Situations | Foto: Acervo do CCSP

 

Rosângela Rennó – que, em 1994, participa da 22ª Bienal – tem em nosso acervo Espelho diário, de 2008, um livro homônimo à instalação multimídia, de 2001, resultante da parceria entre a artista e a escritora convidada Alicia Duarte. A ideia central da instalação é a seguinte: notícias de jornais brasileiros que envolviam alguém cujo nome é Rosângela foram colecionadas durante oito anos e então foram organizadas num diário-colagem pela artista e recontadas, sob a forma de monólogos, pela escritora.

Rosângela Rennó – Espelho diário | Foto: Acervo do CCSP

 

No mesmo ano de sua participação na 26ª Bienal (2004), Paulo Climachauska realiza a obra Guarany, que hoje integra a Coleção de Arte da Cidade. O desenho é composto a partir de linhas que são formadas por sequências de números.

Paulo Climachauska – Guarany | Foto: Acervo do CCSP

 

A fotografia Coruja (2011), de Sofia Borges, instiga visualmente o espectador pela sua materialidade. A obra do acervo integrou a exposição coletiva Bestiário (2017), de Raphael Fonseca, que esteve em cartaz no CCSP como parte do Programa de Exposições. Sofia participa da Bienal deste ano como um dos nomes da equipe curatorial.

Sofia Borges – Coruja

 

Texto: Danilo Satou
Revisão: Paulo Vinicio de Brito

Ilustração da capa: Beatriz Vecchia
Colaboração: Supervisão de Acervo do CCSP

*Publicado em 3 de setembro de 2018

Tags:, , , , , , , , , ,

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *