A Nigéria de Chimamanda Ngozi Adichie

A Nigéria pós-colonial vem produzindo uma notável tradição de escrita em prosa, da qual vem o primeiro romance de Chimamanda Ngozi Adichie, Hibisco roxo, que conta a história de Kambili, uma adolescente que vê sua família e seu país convergirem para o mesmo destino: a beira de um colapso. Como em muitas sociedades pós-coloniais, a vida individual não se separa da vida política e, após o país ter sofrido um golpe de Estado, a trajetória da família de Kambili se torna ainda mais conturbada. A partir de sua experiência enquanto mulher, negra e nigeriana, vinda de uma família de classe média, a escritora demonstra clara preocupação em refutar a visão distante e estereotipada que se construiu sobre o continente africano.

Os acontecimentos se dão em Igboland, na Nigéria oriental, e a narradora Kambili, de 14 anos, é a filha obediente de um patriarca católico fundamentalista, Eugene. Rico produtor local da cidade de Enugu, ele governa sua família com punhos de ferro. Sua incompreensão sobre o cristianismo o levou a rejeitar as crenças animistas de seu pai e a repudiá-lo, odiando perversamente o pecador mais do que o pecado.

“Usando uma longa veste cinzenta como outros oblatos, Papa ajudava a distribuir cinzas todos os anos. A fila que se formava diante dele era a que se movia mais devagar, porque ele pressionava com força a testa de cada um para fazer uma cruz perfeita com seu polegar coberto de cinza e falava de forma lenta e significativa cada palavra da frase: És pó e ao pó retornarás.” (pág. 9)

O romance de Adichie tem consigo uma força poética admirável não somente pela beleza de sua prosa, mas também pela reflexão e pela expansão de perspectivas, trazendo, com precisão, a imagem de uma Nigéria moderna, autêntica e cheia de paradoxos, representada como uma terra cheia de potencial, mas onde, ao mesmo tempo, a divisão de classes é bastante acirrada; um país em que um golpe de Estado emerge e coloca em risco a vida de qualquer um que enfrente as arbitrariedades do poder estatal; um lugar cujos habitantes estão cientes das falhas de sua nação e, ainda assim, são ferozmente patriotas.

“Foi durante a hora da família do dia seguinte, um sábado, que o golpe aconteceu. Papa acabara de dar um xeque-mate em Jaja, quando ouvimos uma música marcial no rádio, com tons solenes que nos fizeram parar e escutar. Um general com um forte sotaque hausa começou a falar, anunciando que ocorrera um golpe e que havia um novo governo. Em pouco tempo, saberíamos quem era o novo chefe de Estado.” (pág. 30)

A dificuldade que Kambili tem de questionar as regras que a cercam e expressar sua opinião começa a mudar depois de ela ser levada, com seu irmão Jaja, para a casa da tia Ifeoma (irmã de Eugene), uma professora universitária que mora com seus três filhos em Nsukka, região de forte instabilidade política. Apesar de a família adotar costumes católicos, o lar se mostra um espaço de maior incentivo ao livre discurso e à liberdade de expressão – ambiente propício para o amadurecimento dos irmãos, este associado, especialmente o de Kambili, ,em diferentes momentos da obra, à transformação de cor do hibisco (do vermelho ao roxo).

“— Vamos levar Jaja primeiro a Nsukka e depois vamos aos Estados Unidos visitar tia Ifeoma — digo. — Vamos plantar laranjeiras novas em Abba quando voltarmos, e Jaja vai plantar hibiscos roxos também, e eu vou plantar ixoras para podermos sugar suco das flores.

Estou rindo. Coloco o braço em volta do ombro de Mama e ela se recosta em mim e sorri.

Lá em cima, nuvens que parecem algodão tingido pairam bem baixas, tão baixas que sinto que posso esticar o braço e espremer a água delas. As novas chuvas vão cair em breve.” (pág. 321)

Em seu primeiro romance, Chimamanda Ngozi Adichie oferece uma exploração comovente e sutil da tensão contínua entre as forças da opressão e o irreprimível desejo humano de ser livre.

Texto: Fernando Netto
Ilustração: Beatriz Vecchia

+Hibisco roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie, está disponível para empréstimo na Biblioteca Sérgio Milliet do CCSP

*Publicado em 5 de abril de 2018

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One thought on “A Nigéria de Chimamanda Ngozi Adichie

  1. Já li o belíssimo livro Hibisco Roxo, e para o momento que vivemos como nação e mundo, seja essa leitura um momento de frescor em nosso árido viver.

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