A depressão na obra de Andrew Solomon

A OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que cerca de 322 milhões de pessoas no mundo vivam com depressão nos dias de hoje, sendo que nos últimos dez anos este número aumentou 18,4% – o que revela uma importância crescente de se informar e compreender o problema. Para isso, além de definições e considerações mais diretas que podem ser facilmente obtidas pela internet, diversos autores se debruçam em pesquisas sobre o tema, recorrente na história da humanidade, mas nunca com tamanha força.

Presente no acervo da Biblioteca Sérgio Milliet, a obra do psicólogo estadunidense Andrew Solomon (1963-) discorre de forma delicada e consistente sobre problemas psicológicos como o suicídio, o trauma e principalmente a depressão, tratada com profundidade em O demônio do meio-dia (2001). O livro, relançado pela Companhia das Letras em 2017, figurou nas listas dos mais vendidos daquele ano e rendeu uma reedição no ano seguinte, sucesso de vendas mais uma vez – em um contexto no qual o mercado editorial sofre tanto para comercializar qualquer tipo de livro, especialmente aqueles caracterizados por uma linguagem mais acadêmica e explicativa.

Entretanto, embora seja uma leitura fundamental para psicólogos, psiquiatras e pesquisadores da área, a obra extrapola o limite acadêmico e justifica o apelo popular, já que Solomon transita entre o emprego de conceitos mais técnicos e a narração de casos pessoais e de seus pacientes. Contados de forma simples e acessível, tais casos complementam as definições e sensibilizam o leitor por meio do contato direto com pessoas reais que experienciaram situações particulares e definitivas – de grandes guerras a doenças degenerativas –, passando ainda por casos de insatisfação mental, profissional ou física.

O autor inicia O demônio do meio-dia se utilizando da analogia da depressão como a imperfeição no amor, que, por sua vez, está diretamente relacionada à incapacidade de se desesperar pela ausência de alguém. Ao estabelecer uma relação, independentemente da natureza dela – maternal, fraternal, amistosa, sexual, etc. –, atribuímos algum valor ao momento e à pessoa com a qual compartilhamos experiências e é a ausência dessa sensibilidade, entre outros comportamentos, que caracteriza a depressão.

Diferentemente da tristeza ou do sentimento de luto, a depressão é uma doença que resulta de uma vulnerabilidade genética e se caracteriza por uma inatividade diante de situações que para boa parte da população são corriqueiras. Por isso, tende a ser vista pelo senso comum como um escape, uma fuga das adversidades que enfrentamos no dia a dia e que, em estado “normal”, relativizamos para cumprir nossas tarefas, “nos anestesiando” da ideia inevitável de que morreremos no futuro.

Expondo exemplos de diversas classes sociais, etnias, culturas e gêneros, Solomon é objetivo ao contar histórias chocantes, que sensibilizam e informam a respeito de vidas nas mais diversas condições, sem nunca vitimizar, diminuir ou relativizar experiências violentas e traumáticas ao mesmo tempo que as particularidades de cada relato são mantidas e exploradas pelo autor. Assim como outras doenças, a depressão deve ser entendida em seu entorno, nunca limitando o intenso sofrimento ao paciente, mas dialogando com movimentos de fora para dentro e com as condições às quais o paciente foi submetido ao longo da vida para que o problema se desenvolvesse.

Embora façamos referência à depressão como uma patologia, o conceito de doença também é questionado ao longo da obra, com notas do que é socialmente tratado como doença que se distanciam das ciências biológicas, comumente utilizadas como parâmetro. “Nós patologizamos o curável, e o que pode ser facilmente revertido passa a ser tratado como doença, mesmo que previamente tratado como parte da personalidade ou estado de espírito. Assim que tivermos uma roga para a violência, a violência será uma doença.”

Para Solomon, “a pior dor possível é a dor árida da violação total que chega depois de todas as lágrimas já terem se exaurido. A dor que veda cada espaço através do qual você antes entrava em contato com o mundo, ou o mundo com você”. Para um depressivo que vive a doença em estado severo, a escassa percepção do amor, quando existe, é incapaz de se sobrepor à ideia de que, independentemente do que façamos, vamos todos morrer.

Já que não demonstra sintomas visíveis, como o câncer e a Aids, a depressão foi tradicionalmente tida como um estado de espírito semelhante a uma simples apatia ou um pequeno prolongamento do desânimo, sem levar em consideração a conotação emocional, de estagnação prejudicial e intensa e sem conectar isso à incapacidade de respostas por parte do cérebro e do organismo como um todo, que deixam de receber estímulos e bloqueiam atitudes tratadas como banais por todos nós.

As respostas oferecidas pela ciência são mais difundidas no âmbito da química do que no da psicologia, uma vez que a depressão é tida como uma doença de efeito único, o que é desmentido pelo autor por diversas vezes ao longo da leitura. Para ele, “a depressão não é a consequência de um nível reduzido de nada que possamos medir” e, por isso, um nível baixo de serotonina não necessariamente significa a entrada em uma depressão, assim como não é a injeção dessa substância, de uma hora para outra, que resolve o sentimento de frustração e o sofrimento intensos.

No decorrer do livro, o psicólogo propõe comparações da depressão com eventos como a fome, que pode ser saudável por um curto espaço de tempo, mas fatal se estendida em longo prazo; a dor física, “intolerável por ser a única expectativa nos momentos vindouros”; e a sensação de estar “à beira do abismo”, comumente utilizada na descrição da doença pelos pacientes que se sentem em trânsito entre a vida e a morte, mas sem consumar nenhuma das duas condições. No caso mais extremo, a depressão severa abarca a associação do fim de todos os problemas à morte, com a doença sendo descrita pelo autor como “ao mesmo tempo a presença nova e o total desaparecimento de algo”.

O psicólogo ainda chama a atenção para o acolhimento da pessoa que sofre da doença, considerando que encarar o tratamento demonstra força de vontade e resistência, muito importantes por parte do doente, e que, da abertura da janela a simples atos como tomar banho ou comer, os passos a serem dados são curtos, mas essenciais para o tratamento. Assim como o trajeto até a depressão severa é gradativo, seu tratamento também o é e exige paciência tanto de quem tem a doença quanto de quem não tem.

Tida atualmente como uma doença moderna, ocidental e relativa à classe média por muitos especialistas, a depressão não se limita a essas condições, apenas é diagnosticada com mais frequência nesse contexto. Além de sempre ter existido, ela se estende a todas as classes sociais – sendo consideravelmente menos combatida em pessoas mais pobres, que, por consequência, não possuem o dinheiro para diagnóstico e tratamentos – e não se limita à inércia total de afazeres, revelando-se em qualquer indivíduo que se sinta constante e intensamente deslocado de seu próprio entorno, renegando as próprias experiências pessoais e profissionais.

Ainda que seja cada vez mais discutida e enfrentada, a depressão nunca será totalmente erradicada. Contudo, conversar sobre ela com os devidos embasamentos e estudos mais recentes se mostra imprescindível à medida que a desinformação e o julgamento criam e acentuam um afastamento absurdo entre os indivíduos que viveram a doença e aqueles que não viveram, dificultando a compreensão e a convivência entre os dois grupos.

Os tratamentos não seguem um padrão, variando do método eletroconvulsivo ao uso de medicamentos e até o acompanhamento em sessões de psicoterapia que podem, gradativamente, retirar a pessoa do estado depressivo. Ninguém “é” deprimido, mas pode “estar” inclinado de forma mais aguda a um dos sentimentos por diversas experiências ou traumas do passado. Se o humor é adaptável e o problema central é o desajuste dele – uma alegria extrema e contínua ou uma tristeza com características parecidas –, o tratamento também é particular e será mais bem-sucedido dependendo da disposição do paciente a se submeter a ele, como também dos profissionais que acompanham e de amigos e familiares que devem, mais do que nunca, colocar-se no lugar de quem se sente dessa forma e se aproximar do doente.

Solomon constrói um texto híbrido que mescla memórias pessoais, depoimentos de pacientes e conceitos da psicologia, unindo informação a um tipo de leitura leve, capaz de interessar tanto a pesquisadores da área quanto ao público em geral que, se não sofre ou já sofreu com o problema, conhece alguém que já passou por ele. Acima de tudo, a leitura se mostra necessária à medida que amplia as visões a respeito da doença e, principalmente, promove algum tipo de autoconhecimento, seja acerca de reavaliar as próprias escolhas para se tornar um ser humano mais produtivo ou mais feliz – sabendo que, apesar de ambas as condições serem essenciais, não necessariamente uma depende da outra –, seja para tentar entender pontos de vista daqueles que não enxergam a vida, por diversas razões, como algo positivo e pelo qual vale a pena continuar.

+Para saber mais:

TED Talk com Andrew Solomon sobre a depressão (legendada em português)
Resenha “O demônio do meio-dia” (The Guardian)
Links para dados do início do texto:
Anxiety and Depression Association in America
Our World in Data (Mental Health)
Dados atualizados no Brasil – Jornal da USP

Texto: João Vitor Guimarães
Revisão: Paulo Vinício de Brito
Ilustração: Beatriz Vecchia

*Publicado em 29 de janeiro de 2019

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