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  • Glauco Velásquez - 4 TRIOS Glauco Velásquez - 4 TRIOS VIOLINO, VIOLONCELO E PIANO
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APRESENTAÇÃO

A MÚSICA QUE MORREU MOÇA

Ao se debruçar sobre a vida breve de Glauco Velásquez, o leitor logo constatará que nela prevalece a fragilidade, agravada pela escassez de informações e documentos. O mistério de seu nascimento, a delicadeza de sua saúde, a falta de um estudo aprofundado sobre sua obra – para inconformismo de Darius Milhaud – não foram suficientes para emudecer a sua música que, neste projeto, desvela a sua força sedutora.
O romantismo domina a obra de Glauco Velásquez. Os estudiosos a aproximam da estética de César Franck, de Guillaume Lekeu e nela encontram ecos da influência avassaladora de Wagner. Se essas são as tintas fortes da pintura, a sua moldura é o conturbado período entre a derrubada da Monarquia e a implantação improvisada da República, em que fermentavam subterraneamente novos valores estéticos que haveriam de emergir, como marco, somente na Semana de Arte Moderna de 22. Em sua obra musical desafortunadamente não há germe de modernismo: “colcheia pontuada para ser tocada à maneira preguiçosa”, segundo Mário de Andrade. Em sua obra predominam ornamentos wagnerianos e acordes entristecidos que evocam Tristão. A morte prematura do compositor em 1914 interrompe uma produção vibrante e promissora, ainda que anacrônica. Mas a morte que prevaleceu foi a estética; a agulha nervosa da bússola já apontava o norte da música nova para outros quadrantes. Aqui, para o nacionalismo de inspiração popular; na Europa, a Sagração da Primavera já havia sido tocada em 1913. Em 1935, Mário de Andrade, um dos idealizadores da Semana, institucionaliza uma política cultural modernista, ao assumir a direção do recém-criado Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo. A ideologia do modernismo conquistava o aparelho do Estado. A valorização do homem comum, aliada à busca da identidade nacional como instrumento de inclusão de uma cultura popular até então recalcada, olha para o futuro. E o futuro não era Glauco Velásquez. O futuro era Villa-Lobos. Às vésperas do centenário da morte de Velásquez, a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo apresenta gravações inéditas de sua escrita integral para trios, pela leitura precisa do grupo de música de câmara Aulustrio, realizada no Theatro Municipal de São Paulo. A realização deste projeto encontrou amparo no Programa PETROBRAS Cultural, que mais uma vez confiou em nosso esforço de valorizar a música erudita brasileira por meio de gravações sonoras e edições de partituras. A grandeza da obra de Velásquez não se mede em quantidade, senão em qualidade, avalizada pelos mais renomados compositores e musicólogos. Nosso gesto não pretende ser uma resposta ao repto de Darius Milhaud. Muito ainda há de ser feito para colocar Glauco Velásquez no lugar de destaque que é seu de direito na história da música brasileira. Nossa proposta visa apenas a atualizar o interesse por essa obra singular, que merece a atenção do ouvido contemporâneo. Um estímulo à realização de outras releituras de sua obra, quem sabe, a produção de sua ópera inacabada Soeur Beatrice no ano de seu centenário.

CARLOS AUGUSTO CALIL
Secretário Municipal de Cultura, São Paulo

 

PROJETOS MUSICAIS DO CCSP APOIADOS PELA PETROBRAS

Neste ano de 2012, em que o Centro Cultural São Paulo (CCSP) completa 30 anos de atividades, é com grande satisfação que anunciamos mais um projeto musical que se concretiza: Glauco Velásquez – 4 Trios. Este é o quarto grande projeto na área de música realizado com o apoio da Petrobras. Fazendo uma retrospectiva, em 2003 todo o acervo de discos 78rpm de música brasileira foi digitalizado possibilitando o acesso à audições de músicas antigas pela via digital. Foram digitalizados 30 mil fonogramas, em sua maioria de música popular. Nessa ocasião, o acervo de partituras brasileiras, da ordem de 12 mil títulos, teve a sua catalogação, em fichas de papel, transformada em banco de dados, facilitando as buscas. Mais tarde, um segundo projeto recuperou a antiga vocação de nossa Discoteca Oneyda Alvarenga de produzir gravações de obras inéditas da música erudita brasileira. Essa proposta surgiu com Mário de Andrade já no terceiro ano de sua gestão como diretor do Departamento de Cultura, quando a então Discoteca Municipal gravou, pela primeira vez, obras dos compositores contemporâneos, como Francisco Mignone, Camargo Guarnieri, entre outros. A recuperação desse pensamento deu origem ao projeto Música Contemporânea Brasileira, no ano de 2006, que publicou catálogos de obras e registrou em CDs músicas de cinco compositores contemporâneos: Almeida Prado, Edino Krieger, Edmundo Villani-Côrtes, Gilberto Mendes e Rodolfo Coelho de Souza. Foram ao todo 60 obras inéditas gravadas por artistas do porte de Gilberto Tinetti, Rosana Lamosa, Fernando Portari, Celine Imbert, entre outros. Além da publicação dos catálogos e o registro fonográfico das músicas, o projeto contemplou ainda a edição das partituras das obras gravadas nos CDs, abrindo espaço para a difusão da música brasileira de concerto. Na sequência, em 2008, outro projeto mais ambicioso registrou em DVD - gravado no Theatro Municipal de São Paulo, com a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo - os três concertos para violino e orquestra de Camargo Guarnieri, que nunca haviam sido gravados. Nesse projeto, também foram editadas, em CD-ROM, todas as partituras das obras (inclusive as partes individuais dos instrumentos da orquestra), o que possibilitou, em 2010, a execução dos concertos, em Israel, pela Orquestra Sinfônica de Jerusalém e pela Filarmônica de Minas Gerais, em 2012. Completando toda essa trajetória, surge agora o projeto Glauco Velásquez – 4 Trios, que, na trilha da recuperação de obras esquecidas da música brasileira, traz à luz a produção para trios (violino, violoncelo e piano) desse compositor brasileiro que ainda está para ser descoberto. A gravação cuidadosa do grupo de música de câmara Aulustrio realizada, em maio de 2012 no Theatro Municipal de São Paulo, revelará para as gerações futuras a música brasileira que estava no esquecimento, pela dificuldade de acesso às partituras originais manuscritas que foram, a exemplo dos projetos anteriores, editadas e disponibilizadas na mídia CD-ROM deste produto cultural, salvaguardando assim a possibilidade de sua programação em salas de concerto no Brasil e no exterior. Duas vertentes transpassam todos esses projetos: a vertente imaterial, traduzida no conceito musical, e a vertente material, traduzida no resultado: um produto com o patrocínio da Petrobras. Mais uma vez o CCSP contou com o apoio fundamental dessa empresa brasileira, a Petrobras, para trazer a público mais um produto de altíssimo valor que difunde nossa cultura guardada entre as preciosidades do imenso acervo que faz deste Centro Cultural uma importante instituição museológica O Centro Cultural São Paulo e a Petrobras cumprem assim a missão de revelar as sonoridades encantadoras, até então desconhecidas, de um dos maiores compositores brasileiros.

Ricardo Resende
Diretor do CCSP

Francisco Coelho
Coordenador do Projeto

 

GLAUCO VELÁSQUEZ

Nasceu em Nápoles, Itália, em 1884 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1914. A sua curta vida de 30 anos foi cercada de mistério pela falta de informação, uma vez que o seu nascimento foi fruto de uma relação não oficializada de seus pais, numa época em que eram rígidas as regras da sociedade burguesa do Rio de Janeiro. Seu pai, Eduardo Medina Ribas, era um barítono português, descendente de uma grande família de músicos, que havia se estabelecido no Brasil como cantor de ópera e professor de canto, a partir da década de 1840. Na ocasião desse relacionamento o pai era viúvo e tinha já idade avançada, tanto que morrera antes do nascimento do filho, aos 60 anos. Com a situação da gravidez inesperada, a família encaminhou a moça, Adelina Alambary, para a Itália, onde estaria protegida de escândalos, ao mesmo tempo em que o nascimento da criança poderia ser mais bem dissimulado. Com sobrenome falso, o menino ficou confiado a uma família italiana em Nápoles, enquanto a mãe cruzou o Atlântico de volta ao Brasil, não se sabe sob quais tempestades de lágrimas. A farsa estava montada por um roteiro calculado por homens, como que desafiando o destino, no afã de desenhar o enredo de vida de outros homens. Tudo ficara então organizado. O plano havia dado certo, o jogo podia continuar, pois “o tempo, que tudo gasta”, colocaria a vida de volta no teatro, secaria lágrimas, apagaria memórias. Porém, o tempo surpreendeu invertendo as coisas. Para aqueles que acreditam que tudo não passou de um jogo com o destino, este teria lançado mão de uma carta não imaginada, algo que poria tudo a perder: o menino nasceria com um talento especial para a música e com isso popularizaria a tragédia de seu enredo. Com 11 anos Glauco Velásquez é trazido ao Brasil por empenho da família paterna. Sem falar uma palavra em português, ficou sob a guarda da mãe verdadeira, Adelina Alambary, num refúgio da Ilha de Paquetá como sendo seu filho adotivo. Estudou inicialmente violino e começou a compor a partir de 1902. Como suas obras chamavam a atenção, recebeu o apoio do compositor Francisco Braga, amigo da família, para ingressar na classe de harmonia de Frederico Nascimento no Instituto Nacional de Música. Frederico Nascimento era um violoncelista português que se radicou no Brasil, dedicando-se ao ensino da harmonia e difundindo ideias musicais progressistas para a época, o que em parte significava a estética wagneriana. Essa estética já havia sido defendida antes por Leopoldo Miguez. Talvez por essa linha se explique a influência wagneriana em algumas obras de Velásquez, como no terceiro movimento do Trio nº II, gravado neste projeto. À medida que o tempo passava suas composições ganhavam admiradores, pois representavam uma novidade, surpreendiam pela beleza, tudo dentro de uma estética que se aproximava da música francesa e do romantismo europeu, mas com um toque singular. Havia sobre ele uma aura de esperança para a música brasileira à medida que esse grupo de admiradores, formado por compositores e intérpretes, esperava por novas composições

Em 1911 ele se lança como compositor publicamente, mas viveria apenas mais três anos, pois a sua frágil saúde demonstrava mais e mais os traços da doença do romantismo, numa época em que a tuberculose era considerada uma doença terminal. Em 1914 morreu Velásquez, deixando consternado o universo da música do Rio de Janeiro. Com a liderança de Luciano Gallet, a Sociedade Glauco Velásquez foi criada após a sua morte com o objetivo de tornar viva a sua música, tanto pela sua execução, quanto pela sua edição. Se hoje a sua música é considerada uma obra do período romântico brasileiro ela é, antes de tudo, o reflexo de sua vida forjada entre o romantismo e a tragédia.

Francisco Coelho
Coordenador do Projeto

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