Novo Modernismo: inovação cultural protagonizada pela periferia

O centenário da Semana de 22 colocou o Movimento Modernista no centro de discussões do olho midiático. Enquanto alguns defendem seu tom revolucionário, outros chamam a atenção para a inexistência de pluralidade sociorracial na arte que clamaram ser a cara do Brasil.

Nesse artigo, você encontrará mais informações sobre a história e os reflexos deste movimento e conhecerá o Novo Modernismo, que surgiu para ressignificar a periferia como a principal produtora de cultura atualmente. 

Breve história do Modernismo 

De origem europeia, o Movimento Modernista surgiu no período entreguerras. Um dos fatores que levou ao surgimento do Modernismo foi o nacionalismo herdado da Primeira Guerra Mundial, que cruzou com os avanços da Revolução Industrial. Os artistas, que mais tarde foram batizados modernistas, eram contemporâneos a um mundo que se modernizava tecnologicamente, e logo passaram a buscar pelo progresso na arte. No Brasil, a ausência de investimento nas artes levou muitos artistas à Europa; estes então retornavam ao país com as influências de vanguardas europeias na bagagem. 

Essas vanguardas, por sua vez, já procuravam romper com o academicismo na arte. No Brasil, os primeiros passos do Movimento foram contemporâneos à Política do Café com Leite, momento em que o poder era tomado pela aristocracia e a ocupação do cargo presidencial ficou acordado entre políticos de São Paulo e Minas Gerais. Revolucionário, o Modernismo se afastou do estilo europeu e explorou a essência brasileira, de forma incômoda e sem amarras. 

As criações Modernistas foram divididas em três gerações, que traçaram diferentes características. A primeira geração, denominada Fase Heróica (1922-1930), foi marcada pela ruptura com a arte tradicional. Dentre os principais nomes da época estão Mário e Oswald de Andrade. A Geração de 30 (1930-1945), segunda fase do Movimento, se caracterizou pela abordagem regional e pelo tom político-social nas obras que retratavam o Brasil de Vargas. Na Geração de 45 (1945-1960), sua última fase, o país se redemocratizava e o mundo assistia ao fim da Segunda Guerra Mundial. Ariano Suassuna e Clarice Lispector foram nomes que compuseram a fase final do Modernismo, voltada para a psicologia e o retorno ao formalismo. 

Entre as obras mais famosas do Movimento estão: “O homem amarelo” (1916), de Anita Malfatti; “Samba” (1925), representação de Di Cavalcantti da cultura popular; e o clássico “Os Operários” (1933), de Tarsila do Amaral, que retrata o processo de industrialização de São Paulo no século XX e a diversidade étnica da população.

A gênese do Modernismo brasileiro foi marcada por um evento em especial: São Paulo foi o palco da Semana de Arte Moderna, uma Mostra artística que aconteceu nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, no Theatro Municipal. Uma das motivações do evento era apresentar uma nova forma de fazer arte e chocar o público que valorizava o estilo tradicional. Segundo o modernista Di Cavalcanti, tal agitação cultural seria de escândalos artísticos e literários.

Assim como tudo que é novo, a Mostra gerou estranhamento, principalmente na literatura e artes plásticas. Na segunda noite de apresentações, o poema “Os sapos”, de Manuel Bandeira, que era crítico ao movimento parnasianista, foi vaiado pelo público. 

O elitismo X a livre criação artística 

A Semana de 22, iniciativa do autor Graça Aranha, foi composta por muitos artistas que descendiam das oligarquias cafeeiras de São Paulo. Ou seja, a manifestação foi agitada e financiada pela elite. Naquele momento, por meio dos intelectuais, sobretudo dos modernistas, São Paulo tinha o objetivo de tomar a liderança cultural do país, de forma que colocava em segundo plano a cultura de outros estados.

A Semana de Arte Moderna, não coincidentemente, se deu no mesmo ano em que a nossa Declaração de Independência completaria cem anos. Naquele momento, os modernistas usaram a data da Independência de forma estratégica para projetar uma emancipação artística, além de política. O objetivo era desprender-se da produção colonial e se voltar para a manutenção do que seria uma produção verdadeiramente brasileira. 

A Semana de 22 foi fundamental para que um novo processo artístico se estabelecesse por aqui. A busca pela identidade nacional deu o tom de todo o Movimento que revolucionou a forma como produzimos arte e como nos percebemos enquanto brasileiros. Embora seu caráter inovador, é real a problemática de um Movimento financiado e protagonizado pela elite. 

A elitização da arte a restringiu aos grandes centros, privando regiões periféricas de acessar cultura e ter suas produções divulgadas. Um século depois, a arte passa por um novo processo de independência; artistas de regiões descentralizadas se articulam para ocupar os espaços que antes tinham apenas um único alvo. 

Em 2022, cem anos após o acontecimento que mudou os rumos de como a arte nacional é vista e produzida, o cenário artístico acompanhou as mudanças que aconteciam no mundo. Nos novos processos que embalaram as culturas, o senso de progresso jamais ficou para trás. No Brasil, demandas antigas e urgentes, como a descentralização da arte no eixo Rio-SP, passaram a ser finalmente ouvidas. 

Novos tempos, Novo Modernismo 

Dez décadas após a Semana de 22, uma nova visão da arte modernista será apresentada. Esse olhar vem com o Novo Modernismo: uma movimentação que coloca a criação periférica e livre das regras academicistas em maior evidência. Se 100 anos atrás a cultura periférica não era referenciada, hoje diversos produtos culturais são popularmente consumidos.

No Modernismo brasileiro, a elite intelectual, com apoio monetário da burguesia, ocupou o protagonismo cultural da época. Os novos modernistas, que constituem a construção periférica, produzem de forma independente, espalhando transformação coletiva. 

Assim como os modernistas do século passado apresentaram obras que quebravam a norma vigente na arte, os novos modernistas expõem a fragilidade do discurso que dita quais características é preciso ter para ser apto a produzir artisticamente. Além do trabalho ativo, esses artistas ajudam a expandir o público que tem acesso à cultura. 

A forma com a qual os novos modernistas percebem a vida e sua existência no mundo é impressa nas diversas formas em que a arte se manifesta no movimento. No espectador, esse trabalho pode causar duas possíveis reações: a identificação de um sentimento em comum ser retratado ou o estranhamento ao se chocar com uma realidade diferente. Sobretudo, essas obras propagam informação. 

A arte também pode surgir enquanto um recurso de luta e resistência. Diversos grupos que sofrem com a repressão usam de elementos artísticos para exprimir ao mundo a sua realidade. O rap, gênero musical que nasceu nos Estados Unidos e possui origens de grupos marginalizados, usa de rimas para expor à população o que não chega aos olhos midiáticos. 

A arte periférica constitui a cultura popular 

As criações que nascem na periferia preenchem a lacuna cultural deixada pelos ideais elitistas. A exemplo dessa afirmação estão o funk e os bailes, manifestações que, fortificadas ao longo das décadas no lazer coletivo, se constituíram como cultura popular. 

O Manifesto da Antropofagia Periférica, escrito por Sérgio Vaz, intercede por uma arte livre de quem ainda fala a língua do colonizador. Os brasileiros de cem anos atrás, que procuravam abandonar a impressão portuguesa na arte produzida, não incluiram as diversas camadas sociais no movimento que buscava retratar e resgatar a identidade nacional. 

Quem faz o Brasil não ocupou um espaço no Theatro Municipal. Horácio Costa, professor de literatura portuguesa da USP, expõe o Modernismo brasileiro como raso ‘enquanto representação da diversidade da população’. O Movimento Modernista foi revolucionário, mas isso não deve isentá-lo de críticas por suas faltas. 

Neste centenário da Semana de 22, celebremos os artistas que trazem novas maneiras de fazer arte; e assim, nos abrem os olhos para novas formas de ver o mundo, alterando a maneira com a qual nos enxergamos enquanto integrantes de um coletivo. Celebremos também a inovação cultural da periferia que se banha em subversão, ousadia e beleza.

O povo faz parte ativa da cultura periférica; desprezá-la é um ato de rejeitar pessoas. Por fim, o manifesto de Vaz entoa: “contra a arte patrocinada pelos que corrompem a liberdade de opção (…) A periferia unida, no centro de todas as coisas.”

 

Texto: Paloma Santiago 

Revisão: Isabela Pretti 

Ilustração: Kelly Sumadossi 

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