#CCSPindica: Panorama do Choro Paulistano Contemporâneo

Recentemente lançado pelo Selo SESC, o CCSP indica o Panorama do Choro Paulistano Contemporâneo, documento histórico que registra as composições dos grandes chorões de São Paulo da cena atual. O projeto, formado por um sexteto base e pela participação dos compositores, é composto de dois CDs e um DVD disponível na plataforma Sesc Digital

Em conversa com o CCSP, Roberta Valente e Yves Finzetto, idealizadores do Panorama, comentam os processos de construção desse projeto e a necessidade de ter o choro contemporâneo em registro:

CCSP – Como surgiu a ideia de fazer o Panorama do Choro Paulistano e qual a importância de realizá-lo hoje?

Yves Finzetto – O Panorama do Choro Paulistano Contemporâneo é um projeto que surge de um desejo antigo meu e da Roberta Valente de registrar a cena de choro da capital paulista. Isso porque ao longo do século 20 nós tivemos grandes músicos e compositores da cena aqui da capital, como Garoto, Aymoré e Antonio Rago, mas nunca, que eu tenha conhecimento, houve uma coletânea, uma compilação de fato desse choro produzido em São Paulo. Diferentemente do que aconteceu no Rio de Janeiro, onde existem muitos materiais produzidos de todos os chorões que viveram e atuaram na cidade.

A ideia dessa contemporaneidade do choro que está sendo feito agora também era uma outra intenção fundamental desse projeto. Porque nós, que adoramos e sempre tocamos os clássicos como Jacob e Pixinguinha, também víamos que ao mesmo tempo os músicos jovens que trabalhavam e tocavam aqui na capital tinham muitas músicas. Grandes pérolas e composições maravilhosas! Tanto dos músicos que estavam ingressando nesta cena como também a velha guarda do choro aqui da capital, como os irmãos Izaías e Israel Bueno de Almeida, pessoas que dedicaram as suas vidas e carreiras a esse gênero musical tão brasileiro que se confunde com a própria trajetória cultural do país. 

Então eu e a Roberta tivemos o desejo de registrar essa cena e de fazer, como eu costumo dizer, uma foto desse período tão efervescente da cultura paulistana e no que diz respeito ao choro; que sem dúvida leva o gênero adiante, pois nasceu no século 19 e até hoje continua vivo atravessando e atraindo gerações. 

CCSP – Sobre os compositores que vocês escolheram para participar, o que destacariam na trajetória deles para quem está conhecendo agora o choro?

Roberta Valente Todos os 17 compositores que convidamos para o DVD têm suas carreiras ligadas ao choro de alguma maneira. Alguns começaram tocando choro e depois partiram para outros gêneros, outros tocaram choro a vida inteira, ou até mesmo começaram tocando outros gêneros e depois passaram para o choro.

Então, nós temos o Proveta, saxofonista, clarinetista, professor, arranjador e líder da Banda Mantiqueira; o Danilo Brito, bandolinista – talvez o mais jovem de todos eles –; O Alessandro Penezzi, violonista que começou a sua carreira em Piracicaba, mas que já está em São Paulo há muitos anos; o Zé Barbeiro, violão de 7 cordas; o Miltinho de Mori, multi-instrumentista, mas que aqui gravou sua música no cavaquinho; o Israel Bueno de Almeida, violão 7 cordas e o irmão dele, Izaías Bueno de Almeida, bandolim, que aliás são da são da velha guarda do choro; o Thiago França, saxofonista e flautista; o Edmilson Capelupi, violão 7 cordas; o Arnaldinho Silva, multi-instrumentista mas que no Panorama toca cavaquinho, o João Poleto, saxofonista e flautista, que é integrante do sexteto; o acordeonista Toninho Ferragutti, Laércio de Freitas, pianista, compositor e arranjador de Campinas que mora aqui há muitos anos.

O compositor e violonista Edson José Alves, que como diz o Rolando Boldrin “partiu antes do combinado”, pois faleceu ano passado, foi uma pessoa muito importante para a música brasileira. Além de arranjador, baixista, flautista, compositor, ele foi produtor de discos antológicos da música brasileira e era um dos arranjadores e integrantes da Banda Mantiqueira. Enfim, um músico genial.

Há também uma parceria tripla formada pelo Luizinho 7 cordas, Maurílio de Oliveira e Everson Pessoa. O Everson e o Maurílio eram integrantes do Quinteto em Branco e Preto, que foi um dos grandes grupos de samba de São Paulo.

Uma coisa muito legal desse trabalho é que o Laércio é uma grande referência para o Proveta, e para a minha geração os dois são ídolos. O Izaías é uma referência para bandolinistas mais jovens como o Danilo Brito, o Proveta é uma referência para o Poleto e para o Ale. Enfim… Existe esse diálogo também entre os compositores, e todo mundo aqui de alguma maneira influenciou várias gerações.

CCSP – Vocês coletaram várias composições dos chorões de São Paulo que ainda não haviam sido gravadas. Existe um porquê delas não estarem registradas? Que papel vocês enxergam da indústria fonográfica dentro do universo do choro?

Roberta Valente – A proposta do Panorama é que todas as músicas registradas fossem inéditas, porque é justamente para valorizar a composição de choro contemporâneo. A grande maioria da população conhece o gênero por Jacob do Bandolim, que morreu em 1969, ou por Pixinguinha, que faleceu em 1973.

Todos nós, integrantes ou compositores, somos profundamente apaixonados pelos nossos ídolos e mestres do choro e temos um repertório, modéstia à parte, muito grande. Então podemos ficar o dia inteiro tocando só música do Jacob, do Pixinguinha, Abel Ferreira, Luiz Americano e tantos nomes.

Mas o choro contemporâneo não tinha muita visibilidade. Então ficávamos um pouco chocados em ver a quantidade de compositores incríveis que tem na cidade, mas não havia uma coletânea que mostrasse os novos compositores. A nossa proposta então foi de montar um trabalho que pudesse ter o caráter de mostra dessa riqueza de diferentes instrumentistas e de diversas gerações com influências distintas. Eu acho que tudo isso enriqueceu esse trabalho.

A indústria fonográfica brasileira nunca abriu muito espaço para o choro e para música instrumental em geral. É interessante perceber que os principais lançamentos de choro no Brasil são independentes, com raras exceções, como a do flautista e compositor Altamiro Carrilho, por exemplo.

No Choro Rasgado, que é um grupo que eu montei com Zé Barbeiro, Rodrigo Y Castro e Alessandro Penezzi, gravamos um CD pela Maritaca, gravadora e selo da Léa Freire, só com choros do Penezzi e do Zé Barbeiro. Eu falo desse trabalho porque foi muito importante no registro do choro autoral de São Paulo naquele momento.

Temos também a Acari Records, que é a gravadora da Luciana Rabello e do Maurício Carrilho, a primeira a gravar apenas CDs de Choro. Ambos são músicos incríveis, compositores e produtores responsáveis por muitas ações, como a Escola Portátil e a Casa do Choro no RJ.

O nosso DVD foi lançado pelo Selo SESC, que aliás, é muito importante que fique registrado, porque o Sesc é um grande apoiador da música brasileira e do choro, então ficamos muitos felizes em lançar nosso DVD por esse selo. Os CDS foram lançados pela Pôr do Som, gravadora independente.

CCSP – Fala-se no documentário da ideia de “tirar um retrato do choro de São Paulo”. Qual é a imagem vocês enxergaram dessa fotografia? 

Yves Finzetto – A fotografia tem a característica de registrar um instante, algo que é marcado no tempo e no espaço. Essa era uma das ideias do projeto: tirar uma foto dessa cena atual da produção do choro aqui da capital. 

A imagem que eu enxergo a partir desse projeto é a reunião de pessoas de distintas gerações: Jovens músicos – mas apesar de jovens, bastante experientes do ponto de vista musical – convivendo, tocando simultaneamente com a velha guarda do choro da cidade. E existe a tradição. Porque todas essas pessoas beberam nas fontes da tradição do choro, desde o Callado até o Pixinguinha, Bonfiglio de Oliveira, Jacob do Bandolim e tantos outros que realmente tiveram o papel de formação do choro como gênero musical até a modernidade. 

A modernidade no sentido de trazer para o choro o que é produzido hoje por esses artistas, trazer elementos que influenciaram as suas vidas. De outros ritmos musicais, como o baião, o jazz, ou o universo também da música clássica, por musicistas que se formaram em universidades que também trazem uma bagagem desse universo acadêmico.

No Panorama do Choro nº 2, por exemplo, nós gravamos músicas do Mestrinho que tem essa influência do Dominguinhos, notadamente conhecido por essa influência do universo do baião.

Então essa fotografia é uma imagem da diversidade. Diversidade de pessoas, de gêneros musicais, que de fato mostra a vivacidade do gênero. É um gênero que tem atraído cada vez mais novas gerações, então essa foto é um registro de todo esse cenário. Seria na verdade uma foto em movimento.

Entrevista e texto: Lara Tannus
Fotos: Stela Handa

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