Direto da Curadoria: literatura com Thiago Carvalho

O curador de literatura do CCSP, Thiago Carvalho, traz o tema da violência através do miniconto Histórias do Sr. Keuner, de Bertolt Brecht:

Bertold Brecht é um dos escritores mais importantes do século XX. Sua vasta obra é fundamental e incontornável para os estudiosos de teatro. 

Versado também em outros gêneros literários, Brecht deixa em “Histórias do Sr. Keuner” uma espécie rara de sabedoria que é, ao mesmo tempo, anti-sabedoria. São minicontos, parábolas, aforismos ou como quisermos chamar que nos sugerem significados e deslocam nossa expectativa.

Medidas contra a violência

Quando o senhor Keuner, o Pensador, se pronunciou contra a violência numa grande sala cheia de gente, reparou que as pessoas começaram logo a recuar e a sair. Voltou-se e viu de pé, atrás de si (…) a Violência.

“O que dizias tu?”, perguntou-lhe a Violência.

“Pronunciava-me a favor da violência” , respondeu o senhor Keuner.

Quando o senhor Keuner saiu, os seus alunos quiseram saber o que era feito da sua coragem. O senhor Keuner respondeu:

“A coragem que tenho não chega para me deixar açoitar. Isto porque preciso de mais longa vida do que a violência.”

E contou a seguinte história:

“Um dia, nos tempos da ilegalidade, em casa do senhor Egge, que tinha aprendido a dizer “não”, apareceu um agente com um documento assinado pelos que reinavam na cidade, dizendo que todo o domicílio onde o portador pusesse o pé passaria a ser propriedade sua; de igual forma, também passaria a pertencer-lhe a comida que reclamasse, e todo o homem que se cruzasse com ele passaria a estar ao seu serviço.
O agente instalou-se numa cadeira, pediu comida, lavou-se, deitou-se e, com o rosto voltado para a parede perguntou, pouco antes de adormecer: “Estás disposto a servir-me?”

O senhor Egge tapou-o com uma manta, afugentou as moscas, ficou de vigília enquanto ele dormia e continuou a obedecer-lhe durante sete anos. Não obstante tudo o que lhe fez, houve uma coisa de que se absteve sempre: pronunciar uma palavra, fosse ela qual fosse. O agente, que engordara de tanto comer, dormir e mandar, passados sete anos morreu. O senhor Egge embrulhou-o, então, na manta já gasta, arrastou-o para fora de casa, limpou a cama, caiou as paredes, respirou fundo e respondeu: “Não!”

Bertolt Brecht, Histórias do Senhor Keuner, Hiena Editora, pp.17-8

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