#OcupaCCSP: Comportamento, corpo, democracia – diversidade de estilos em movimento

Vestir-se, além de ser uma prática guiada pela norma social e pela busca por conforto, é também um exercício de subjetivação, expressão e posicionamento. Do corte do vestido ou da camisa ao uso de acessórios, cada detalhe do que aderimos e exibimos em nosso corpo revela algo sobre nós mesmos e sobre a sociedade na qual estamos inseridos. No contexto de espaços públicos como o Centro Cultural São Paulo, que inclui frequentadores dos mais diversos grupos de classes sociais, faixas etárias, etnias e gêneros, e agora conta com uma curadoria de moda, os estilos acompanham o comportamento do público, incorporando os jogos de cores, curvas, tamanhos e formatos introduzidos e movimentados por ele.

Tudo o que é exposto de alguma forma repercute no comportamento de outras pessoas e, por consequência, no nosso próprio. Além disso, por esses estímulos que recebemos serem cada vez mais vinculados à aparência, de posts nas redes sociais a filmes e shows superproduzidos, valorizamos também aquilo que é visual, especialmente quando enviesado para o estabelecimento de padrões, como a juventude e a esbelteza, tidas como positivas pelo senso comum.

Se o sistema democrático, porém, pressupõe que todos os cidadãos tenham o mesmo direito ao voto, suas condições sociais, econômicas e culturais devem ser abordadas e compartilhadas nos modos de comunicação e de expressão de cada um, contemplando lugares de fala e perspectivas distintas. No entanto, essas percepções são conduzidas por aquilo que o sistema disponibiliza para comprarmos ou, em casos menos comuns, fazermos o que comemos ou usamos. Assim, nos limitamos a certas estruturas e normas que impusemos a nós mesmos anteriormente e à ideia de democracia – que não diz respeito a cada um agir ou opinar como quiser, mas levar em consideração que um ser humano completo – sua cabeça, sua sentença e seu corpo – tem a mesma importância que outro.

Como revela o estudo de Gilda de Mello e Souza, O espírito das roupas (1987), lançado na época em que os primeiros cursos superiores de moda foram inaugurados no Brasil, o Ocidente, após a Revolução Francesa, transformou – além da economia, da política e do cotidiano como um todo – também o vestuário, procurando padronizar e “desbotar” as vestes masculinas, uma vez que este gênero deveria ser destacado pelo trabalho e, portanto, o uso de trajes sociais, mais fechados e com cores mais neutras que pudessem massificá-los e torná-los iguais. Já às mulheres, relacionadas ao lazer e a casa – e, portanto, o oposto do trabalho – comumente eram oferecidas peças mais leves, estampadas e coloridas, levando em consideração o ponto de vista de desejo e objetificação dos homens heterossexuais. Este binarismo formou o que conhecemos e vemos, ainda que de forma menos diametralmente oposta, com o passar do tempo, em lojas, propagandas e no uso do dia a dia. Como as funções sociais e a noção de gênero transitam em espectros cada vez mais fluidos, as roupas acompanham as mudanças ao invés de se submeterem às normas criadas pela própria sociedade.

Para Karlla Girotto, curadora de moda do CCSP, a moda “está muito mais vinculada à ideia de sazonalidade, de tendências e, consequentemente, de consumo”, enquanto o estilo, por sua vez, “se relaciona muito mais à presença, ao corpo, à gestualidade, ao movimento, funcionando como uma produção de subjetividade e de vida, como qualquer pessoa vê a sua imagem no mundo e como se relaciona com o contexto a partir dela. Há uma grande parcela da população que acredita demais na moda e de menos no estilo. O mais importante é saber se relacionar com a própria imagem, com o próprio corpo e com aquilo que faz mais sentido para você, sem se importar exatamente com as tendências que a moda dita e se preocupando com a construção de imagens em nosso repertório”.

As noções de cobrir, alterar, colorir e editar o corpo – diretamente ou pelo intermédio de tecidos – se relacionam diretamente com a liberdade de expressão e com o meio onde cada organismo material ocupa naquele momento, refletindo atributos psíquicos, sociais e individuais e reiterando funções voltadas para o conforto, da temperatura à flexibilidade ou até mesmo para a decoração.

Vivemos em uma constante tensão entre as práticas feitas para o corpo – comer, beber, transpirar, gestar, etc. – e contra ele – cortar, queimar, bater, etc. Nossas vestes, portanto, devem proteger o corpo de intempéries e ameaças externas ao mesmo tempo que expõem e valorizam o estilo de cada um. A moda, pertencente a uma ordem mais teórica e geral, dessa forma, deve contemplar os diversos estilos próprios e particularizados por cada indivíduo. O estilo se relaciona muito mais com o modo de aproveitar o momento presente e com as possibilidades de ressignifcar e recriar as particularidades de cada sujeito e suas transformações ao longo do tempo.

Na cultura ocidental, a região do alto corporal – que compreende o espaço ocupado pelo pescoço e pela cabeça – é a mais valorizada, estando relacionada ao pensamento, à fala e à produtividade de um determinado indivíduo para o sistema capitalista, sendo a única parte do corpo sempre exposta em eventos sociais. Enquanto isso, o baixo corporal deve estar sempre coberto por ser associado ao grotesco e às necessidades fisiológicas e sexuais.

Em contrapartida, calças coladas e coloridas, conjuntos e vestidos monocromáticos fazem parte do que se costumou usar na maior parte desta década, muito influenciada pelas modas hipster e alternativa que marcaram a contracultura dos anos 1960 e por elementos unissex do grunge, introduzidos principalmente por bandas como Nirvana e Pearl Jam. Nos dois casos, pode ser observada uma atitude que valoriza o conforto e um despojamento pouco presentes na história da moda até então, ainda que, em situações cotidianas e meios profissionais, as roupas de décadas anteriores ainda sejam reproduzidas.

Cada vez mais, a ideia daquilo que “está na moda”, isto é, aquilo que se encontra em uma tendência de consumo no tempo presente, torna-se difusa e idealizada, uma vez que a transmissão de uma série de informações dificulta a compreensão e o filtro de todas elas e, ao mesmo tempo, é incapaz de ser acessada, consumida e decodificada por todas as pessoas. A moda do século 21, assim, abarca vários elementos díspares, desde imitação dos paradigmas do século anterior, passando pela customização e pela reciclagem de materiais, até uma fusão de manifestações urbanas, como o hip-hop e o underground.

Se antigamente as coleções recém-lançadas eram disponibilizadas em parcelas menores, agora não existem limites claros entre um lançamento e outro, uma vez que o consumo pela internet aumentou e não é preciso mais ir até a loja física para observar as novidades ou entrar em contato com especialistas, dessa área ou de outras. Depois das importações europeias e da defasagem nos maquinários e na mão-de-obra, a moda no Brasil começa a se desenvolver com a inauguração de fábricas têxteis no final do século 19. Da radicalidade artesã de Lino Villaventura (1951-) até a austeridade e a leveza de Glória Coelho (1951-), as criações contemporâneas ampliam os encontros entre culturas, costumes e tendências, cruzando estampas, caminhos e possibilidades e colocando diferentes formatos e propostas em movimento.

 

 

+Para saber mais:

ALFONSO, José L. H.; POLLINI, Denise. Moda no Brasil. São Paulo: Editora FAAP, 2012.

BERGAMO, Alexandre. “O campo da moda”. Revista de antropologia. – vol. 41, nº 2, São Paulo, 1998.

PRECIOSA, Rosane; AVELAR, Suzana. “Moda sob a ótica da disciplina e do controle: algumas considerações”.

SCALZO, Marília. Trinta anos de moda no Brasil – uma breve história. São Paulo: Editora Livre, 2009.

SOUZA, Gilda de Mello. O espírito das roupas – a moda no século dezenove. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

WERNECK, Mariza M. F. “A vestimenta sem fim de Roland Barthes”.

 

Texto: João Vitor Guimarães
Revisão: Paulo Vinício de Brito
Ilustração: Beatriz Simões

 

*Publicado em: 7 de maio de 2019

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