CCSP Dança em Diálogo – Escrever em dança: deslocar o olhar – 1º Ciclo

Escrever em dança: deslocar o olhar é a atual edição do CCSP Dança em Diálogo que, em 2017, tem como foco a dança programada no Centro Cultural São Paulo, sendo analisada pelos integrantes dos encontros (abril a outubro). Como resultado teremos resenhas autorais, que avaliadas e problematizadas pela curadoria – somente em aspectos técnicos da linguagem e de sua clareza – são aqui difundidas. Ao final do programa, pretende-se ver tecida uma rede de vozes e olhares, cada um deles de responsabilidade de cada autor, mediante uma proposta de análise, debate, escrita e difusão sobre dança, descolonizando-se abordagens mediantes discursos diversos sobre a arte, seus contextos, história e contemporaneidade. Mais informações: dancaccsp@gmail.com

Abril: 1º Ciclo: JAZZ ? CONTEMPORÂNEO ? ARTE | O quê? Para quem?
Resenhas sobre À flor da pele, de Jhean Allex, e Novos ventos, de Roseli Rodrigues,
da Raça Companhia de Dança (São Paulo)

Centro Cultural São Paulo – março/abril de 2017

*As resenhas publicadas são de inteira responsabilidade de seus autores, expressando exclusivamente as suas opiniões.

**Próximos ciclos:

Maio: 2º Ciclo: EDUCAR ? DANÇAR ? PRODUZIR | Como? Para quem?
Agosto: 3º Ciclo: PESQUISAR ? EXPERIMENTAR ? CRIAR | O quê? Para quem?
Setembro: 4º Ciclo: CCSP SEMANAS DE DANÇA 2017 | O quê? Como? Para quem?
Outubro: 5º Ciclo: ANALISAR ? CRITICAR ? ESCREVER |O quê? Como? Para quem?

Texto por Adriana Barros
À flor da pele – Foto: Divulgação

(Técnica em Dança pela ETEC de Artes de São Paulo, educadora em Dança Contemporânea com ênfase em Estudos do Movimento e tradutora)

A Raça Companhia de Dança de São Paulo presenteou a noite de 1° de abril com duas coreografias — À Flor da Pele, de Jhean Allex e Novos Ventos, de Roseli Rodrigues — na Sala Jardel Filho do Centro Cultural da Cidade de São Paulo.

Já em Novos Ventos não houve economia da beleza que uma apresentação pode trazer. Ao vento foi emprestado ritmo e cor, criou-se ali a possibilidade de vê-lo no seu melhor Outono, enquanto folhas marrons cobriam o palco ou caíam lá de cima. Nem mesmo a força de uma rajada foi esquecida, quando os bailarinos passavam rapidamente, rolando sobre as folhas como se fossem levados, ao mesmo tempo, outros se levantavam, ainda conduzidos por um sopro de ar. Roupas leves, em tons de marrom e verde, contribuíam com o cenário da estação que saudavam. 

O som das folhas pisadas não atrapalhou as composições de Erik Satie — importante pianista e compositor francês — na trilha sonora, ora lenta, ora enérgica, dançada em solos, duplas, trios e grupos. Dele, o vento, diz-se não sabermos para onde vai, mas em Novos Ventos sim, o sabemos, e o lugar era, que não outro, o palco de onde é possível controlar sentimento e vento

Em À Flor da Pele, com ou sem intenção, a companhia tratou da raiva com uma quase leveza, que convidou a plateia a não tirar os olhos da movimentação dos bailarinos explorada em cânones, uníssonos, sons percutidos nos próprios corpos, nos quais uma frase se repetia, com a mão apoiada abaixo do queixo: “Estou por aqui!”. Notou-se a preocupação com a pesquisa de movimentos para a montagem coreográfica. O que o corpo faz quando quer dizer que não suporta mais? Sem palavras, ele bate, empurra, desequilibra e sustenta, chuta, golpeia, impede, segura, salta, acelera, leva à dor e vai embora. É o fim. O exercício de cada movimento, um interligado ao outro, foi executado com destreza, fazendo fluir a dança e ainda que a mensagem fosse de um “basta” foi possível perceber um quê de sutileza, capaz de preservar os espectadores de qualquer agressão que o tema pudesse sugerir, porém não impediu o grupo de alcançar o propósito de comunicar, em boa Dança Contemporânea, o sentimento transpassado do interior que chega à pele.

Texto por Julia Togni
Novos ventos – Foto: Divulgação

(Estudante formada em balé clássico pela Escola Municipal de Taboão da Serra, participante de festivais nacionais e internacionais e integrante do projeto Bravo Talentos da escola Bravo Ballet)

À Flor da Pele é um espetáculo que nos remete de forma lúdica à sensação dos problemas de uma cidade grande e tudo que é contido neste cenário. Podemos sentir nos movimentos e expressões dos bailarinos toda a carga emocional do estresse, da raiva, do cansaço e do medo. Desde o início ele já causa grande impacto ao espectador, com essa alusão dos problemas cotidianos.

Corpos musculosos em contraste com uma música forte compõem o cenário do espetáculo. Todos demonstram força e agilidade a cada passo que desenvolvem e prendem o espectador em uma sintonia com a música e com os bailarinos. O coreógrafo Jhean Allex privilegia danças em grupo e com caráter acrobático. Há poucos duos e trios.
Aparentemente, o trabalho foi bem recebido, com o teatro lotado, sendo ao final ovacionado pela plateia.

Uma das obras de maior sucesso do repertório da companhia, Novos Ventos foi criada em 1999 por Roseli Rodrigues e inspira e arranca suspiros de muitos até hoje. Folhas secas compõem o cenário, remetendo assim o espectador à natureza. A apresentação discorre com movimentos firmes, porém delicados. Roseli apostou nas acrobacias e em movimentos difíceis que prendem a atenção da plateia, permanecendo o tempo todo em um estado quase hipnotizado.

É interessante e cativante cada ação dos bailarinos, suas elevações, os saltos… Até os simples rolamentos no chão encantam o público. Apesar de a coreografia ser antiga, nunca será ultrapassada, pois nos remete aos nossos sentimentos, e isso é sempre atual.

Texto por Maisa Aurora Marcos
À flor da pele – Foto: Divulgação

(Psicóloga, psicanalista e pesquisadora. Tem Especialização em “Corpo: Dança, Teatro e Performance” (Faculdade de Artes Célia Helena). Integra o grupo de estudos CORPO (EN) CENA SP – Estudos em Psicanálise e Dança (Instituto APPOA e CASA SEMIO)

À Flor da Pele é o mais recente trabalho da Raça Companhia de Dança de São Paulo. Tem direção e coreografia de Jhean Allex, bailarino que entrou na companhia aos 15 anos e acompanhou a evolução do trabalho de Roseli Rodrigues (1955-2010). Ela foi coreógrafa de 25 dos 34 trabalhos apresentados pela companhia até seu falecimento. Fundou esta companhia nos anos 80, tendo sido sua diretora até 2010.

Novos Tempos é um trabalho de Roseli Rodrigues de 1999, apresentado com À Flor da Pele de 31 de março até 02 de abril no CCSP, na sala Jardel Filho.

Esta companhia conquistou muitos prêmios em sua trajetória e se apresentou em várias cidades do Brasil, da Itália e em Sintra, em Portugal. Foi referência nacional, com direção de Roseli, em si tratando-se de companhia brasileira de Jazz. Com o passar dos anos, Roseli acabou unindo o contemporâneo ao Jazz e Jhean Allex segue na mesma linha, como pode-se observar nos trabalhos citados acima.

Segundo a pesquisadora Ana Carolina Mundim, a origem do Jazz está vinculada à chegada dos escravos negros aos Estados Unidos. Eles se expressavam através de cantos durante o trabalho. Tratava-se de narrar uma forma de trabalho ou de manifestar seus pensamentos (protestos). Cantavam como forma de expressão, mas também satirizavam o comportamento dos brancos. Em cultos protestantes cantavam os “spirituals”, músicas religiosas criadas por eles mesmos. 

Era uma tradição oral que transmitia valores do protestantismo ao mesmo tempo em que descreviam as dificuldades da escravidão. A origem do jazz se dá, portanto, pela união das culturas branca e negra; união do dominador e do dominado. Isso deve, provavelmente, ter deixado suas marcas.

Com a emancipação dos escravos, em 1863, seus cantos e danças foram levados para fora das fazendas e levaram com eles as transformações que fizeram as danças africanas chegarem ao jazz. Rapidamente o jazz se disseminou nos Estados Unidos e, com a primeira Guerra Mundial, na Europa. A dança jazz trouxe à dança americana novas possibilidades coreográficas.

A dança jazz chegou ao Brasil entre as décadas de 20 e 30, trazendo o “sapateado” e, na década de 50, o “charleston”, por meio dos shows de Teatro de Revista, musicais de televisão e programas de rádio. Chegou também através dos filmes hollywoodianos. Ainda, segundo Ana Carolina Mundim, houve uma influência da dança jazz na “Bossa Nova”, tanto na música quanto na dança. Ela ainda nos lembra que uma comunicação muito próxima entre os vários estilos de dança pode ser proveitosa, mas desde que não se elimine a história anterior de cada estilo.

A mesma autora aponta a necessidade de se documentar e resgatar a história da dança jazz no Brasil “para que essa dança, tão rica por seus valores culturais e sua estética, não se perca no passado” (citação de “Uma possível história da dança jazz no Brasil”, p. 107; Anais III Fórum de Pesquisa Científica em Arte, Curitiba, 2005).

Eu me pergunto: será que o jazz da Raça Companhia de Dança, devido a essa fusão com o contemporâneo mantém a mesma força de seus primórdios? A força, enquanto se dança, a ocupar o lugar de sujeito (sujeito de desejo) no mundo e não só de objeto (pois a existência depende também de um certo grau de resistência, tal como os negros dos primórdios do jazz), para assim nos abrirmos para a possibilidade de criação de nós mesmos.

Será que, com a fusão com o contemporâneo, essa companhia está deixando no passado seus valores culturais – tal como Mundim nos aponta acima, quando trata da possibilidade desse risco?

Penso que o método criado por Roseli é uma “joia preciosa”. Essa temporada me fez pensar se hoje há lugar para que uma companhia de dança de jazz possa ser só de jazz e explorar ao máximo a sua criatividade dentro desse universo.

Texto por Talita Leme Chuang
Novos ventos – Foto: Divulgação

(Pesquisadora, dançarina e artista-educadora formada em dança pela Universidade Anhembi Morumbi-UAM (2014) e em letras pela Universidade de São Paulo-USP (2007), além de idealizadora e diretora artístico-pedagógica do espaço Cordas Humanas)

À Flor da Pele lança mão da repetição de algumas células coreográficas, verdadeiros sintagmas de movimento, como parte da constituição de toda dramaturgia – o que me parece bastante apropriado. Crises normalmente se dão, a meu ver, pela rotina e pelo estresse, pela repetição de hábitos e ideias que geram situações de conflito, de discórdia. A proposta da repetição num uso linear do espaço acentua ainda mais esse pensamento. O engajamento de cada bailarino na linha de trabalho faz com que a coreografia se torne uma espécie de produção fabril em série. Achei bastante pertinente que, apesar de num primeiro momento ser apresentada a oposição de gênero “eles versus elas”, na qual “eles” expressam com movimentos fortes das mãos o desgosto ou desapreço por “elas”, diante do inesperado – a situação amorosa, com o foco de luz vermelha –, “elas” apoderam-se do gesto “deles”, colocando à luz o fato de que muitas vezes recorremos aos hábitos e práticas do algoz para estabelecermos o ser alguém. Mais pertinente ainda é o fato de que toda essa oposição se tornou intercambiável, chegando ao ponto dos corpos exaltarem egoísmo, individual e coletivo, o “você me aborrece e pronto”. Contrações, braços pontuados, foco direto, dentre outros elementos da dança, compuseram toda essa poética.

Já em Novos Ventos, vale observar o que a música causa em nós. A trilha ao piano sugere uma série de sensações e imagens, às quais associadas ao movimento dos bailarinos, dos cabelos, dos vestidos e das folhas secas, corroboram e reiteram a sensação de dissolução, de escoamento, de voo, proposta pelo programa do trabalho em questão. Temos o piano forte e percussivo, o dedilhado e pausado, o melodioso, entre tantos outros. De igual forma, temos as mesmas nuances presentes no movimento dançante. Ora o movimento é mais pontual e forte, um bailarino se lança aos braços de outro deixando claro o impacto deste encontro; ora o movimento é pausado, mas ao mesmo tempo ritmado, como uma simples caminhada; ora ele flui, melodioso, em giros sustentados, espirais, troncos sinuosos e braços circulares. 

Todavia, tanto música quanto dança têm seu leit motiv: a música, o próprio piano; a dança, o deslizar sobre as folhas e o lançar das mesmas no espaço. De fato, o ato de pegar e jogar as folhas secas traz muitas imagens: a da criança brincando; as das amarras (sejam elas quais forem) sendo lançadas fora ao vento; a da purificação, pelo elemento que rega o corpo a partir da cabeça até os pés, como uma espécie de óleo santo. Enfim, em Novos Ventos, algo de ritualístico é invocado pela música, pela dança, pelas folhas, pela luz que recorta o espaço, pelos corpos tal como se apresentam.

Não pude deixar de notar quão jovem é a companhia. Decerto alguém poderia mencionar que Roseli sempre trabalhou com uma companhia jovem, formada por integrantes em seus vinte e poucos anos, e alguns até bem mais jovens, com dezoito ou até dezesseis anos de idade. Conheço o fato. Mas aqui me refiro não apenas ao fator idade, cronologicamente falando, e na obviedade da faixa etária da grande maioria, mas, talvez, no que eu possa chamar de uma idade cênica. Veja bem, não coloco aqui questão de certo ou errado, também não desejo apontar um julgamento de valores que poderá ser entendido como pernicioso, apenas apresento isso: eles são jovens. E com grande potencial cênico. No todo, o que pude contemplar foram bailarinos com grande arsenal técnico, lapidados e refinados no que tange ao trabalho biomecânico da dança, e que estão dando início à jornada rumo ao desbravamento poético da dança, outra qualidade de refinamento. Eis a razão, acredito, da jovialidade cênica. E que bom tudo isso. Talvez caiamos na questão de que uma maturidade cênica é conquistada com a idade. Sim, possivelmente. Mas deixo aqui minha experiência de ter visto outros elencos da mesma companhia, que, apesar de igualmente jovens, causavam outra sensação…

A questão da jovialidade do elenco conversa harmoniosamente com os aspectos que dizem respeito à apropriação do material. Acredito que os bailarinos estavam muito mais em casa em À Flor da Pele. Jhean é coreógrafo e professor deles. A familiaridade é real. Por mais que Jhean tenha vivido o processo criativo de Novos Ventos com Roseli, a obra que vimos é outra. É o olhar de Jhean Allex sobre a criação de Roseli Rodrigues. E foi lindo! Mas, ao assistir àquela dança, fui transportada para outro instante, para outro momento… A fruição tornou-se um acontecimento de rememoração de um tempo, de um espaço, de outros corpos. Assistia à dança e era lembrada do que já foi. Ainda assim, houve trechos da peça coreográfica em que a poética de Roseli resvalava sobre os bailarinos: eram esses breves momentos de refrigério em que a chamada “entrega” acontecia.

Coloco “entrega” entre aspas, pois creio que este termo já tão usado e abusado por muitos, em tantos contextos, merece ressalvas. Entendo “entrega” não como comprometimento – o que daria a entender que houve uma falta dele da parte dos bailarinos e apenas alguns momentos de glória. Também não desejo alocar o termo, pelo menos não neste contexto, dentro do conceito de estado de presença, o qual aborda a percepção do momento presente, do instante vivido enquanto se dança, dos vários focos de atenção que juntos corroboram para a totalidade da experiência do movimento. Coloco “entrega” aqui quase como um sinônimo do “estar em casa” antes mencionado: a familiaridade com a poética, o deixar-se permear por tudo aquilo que vai além corpo, o sentir-se pleno e de fato inteiro.
Termino esta reflexão, enfim, com uma citação que tem acompanhado minha vida nos últimos anos. Deixo para a Raça Cia. de Dança e para o Grupo Raça Centro de Artes, minha escola e casa nos meus primeiros mergulhos dentro do jazz:

O autor de um balé não é nem o poeta, nem o decorador, nem mesmo o compositor. No mesmo momento em que ganha consciência dos movimentos do bailarino, entende que a beleza não se mede através da perfeição da pose onde começa e acaba num enchainement, mas no percurso do bailarino no tempo. Isto é, nessa trajetória pulsante que a mão do pintor não poderá fixar. A dança não é um perfil: é um caminho à nossa frente.
LINCOLN, Kirstein. Nijinsky Dancing. New York: Alfred A. Knopf Inc., 1975

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