Quem fez, quem faz: Sossô Parma

Quem fez, quem faz é uma seção do site do CCSP que procura colocar luz sobre trabalhos fundamentais para o funcionamento da instituição, mas que, por diversas razões, permanecem “invisíveis” ao público. Certamente, o trabalho da fotógrafa Sônia Regina Parma Galvão – mais conhecida como Sossô Parma – foge a essa regra. Aqui em nosso site, em nossos materiais impressos, nos cartazes e adesivos de vidro espalhados pelo prédio, no acervo disponível para consulta no Núcleo Memória CCSP, em materiais de divulgação na imprensa: as fotografias feitas por Sossô, desde 1988, circulam pelas mãos e pelos olhos de muita gente de dentro e de fora do Centro Cultural, longe ou perto daqui. Por meio de uma seleção de dez fotos suas, Sossô, que se aposenta em 2018, depois de 30 anos dedicados à construção de tantas narrativas visuais do Centro Cultural e da própria cidade de São Paulo, conta algumas das muitas histórias da sua trajetória na instituição.


1) “Quem faz, quem assiste, todo mundo pode o tempo inteiro” 
Essa foto é de uma monitoria [como se chamavam antigamente as visitas mediadas] com a Ana Maria Campanhã [funcionária aposentada da Supervisão de Ação Cultural do CCSP] no espaço expositivo. Ela me remete a algo em que eu acredito: ver o CCSP cheio de gente. Isso sempre foi uma coisa importante pra mim. O acesso para todos é muito importante, e duas pessoas que para mim representam muito isso são a Ana e o Maurício Faria Ramos [atualmente, funcionário da Central de Informações]. Eles sempre batalharam muito por isso nas monitorias que faziam, para que sempre fosse desse jeito, mesmo com tantas mudanças ao longo dos anos. Essa foto fala sobre acreditar que tudo é uma coisa só: quem faz, quem assiste, todo mundo pode o tempo inteiro.


2) “Eu gosto de contar a história para você, como aconteceu, independentemente de mim.”
A Nair Benedito é uma fotógrafa que eu conheci quando eu comecei a fotografar. Eu fotografava jornalismo, e ela já era fotógrafa e dona de uma agência, a F4. Eu achava essa coisa de agência incrível, eu era autônoma, trabalhava para um jornal de esquerda e pensava em Folha de S.Paulo, em jornais assim ou mesmo numa agência. Eu estava começando a olhar para essa forma de trabalhar, de fazer banco de imagens, que era o que essa turma fazia nessa época, então tinha o maior respeito pela Nair. Eu adorava as fotos dela. Daí eu engravidei e dei uma mega parada – eu optei parar para cuidar da gravidez – e fiquei fazendo fotografia dentro do meu universo: batizados, festas de aniversário, muitas fotos de criança. Eu sempre fui uma fotógrafa muito “jornalista”, de pegar coisas que estão acontecendo e tirar dali a melhor situação. Nunca fui de estúdio. Eu gosto de contar a história para você, como aconteceu, independentemente de mim. Eu só trago para você que não estava lá a história como aconteceu, sob o meu ponto de vista. Quando você vai para o estúdio, é claro que também pode contar história, mas você meio que produz – a própria luz que se produz já é um conceito.

Essa foto eu escolhi mais para contar a história com a Nair. Depois de um bom tempo, quando eu fui ficando um pouco mais velha, mais madura, conheci a Nair pessoa e foi um encantamento. Agora mais para frente, ela conheceu o Ilú Obá de Min também [grupo do qual Sossô faz parte desde a criação e que tem como base o trabalho com as culturas de matriz africana e afro-brasileira e a mulher], então foram acontecendo intersecções da vida. Mas eu a encontro pouquíssimo hoje em dia. Então, quando ela veio aqui “na minha casa”, que é o Centro Cultural, colei nela.

Foi uma honra receber a Nair aqui, ajudei a montar a exposição, fiquei pertinho dela, porque era uma oportunidade de conviver com ela, uma coisa que a gente não tinha. Foi uma exposição para a qual foram chamados alguns fotógrafos para fazer uma interpretação, alguma coisa livre sobre o Centro Cultural, e ela escolheu trabalhar com a turma da Biblioteca Louis Braille. Ela fez as “fotonas” com todas as “fotinhas” do pessoal da Braille, foi o conceito que ela achou. Houve fotógrafo que fez “fotona”, cada um com seu conceito, e ela muito humana. Ela era aquela pessoa que nas décadas de 1970 e 1980 ia muito para os lugares para fotografar, meio que um trabalho como o que o Sebastião Salgado fazia e fez. Ela fazia isso aí com o pé nas costas – e fazia lindamente. Ela é uma fotógrafa muito humana e respeitosa, e para mim são bens inegociáveis. Acho que somos muito parecidas nesse sentido.


3) “O Luiz Melodia, desde que eu me entendo por gente, começou a dizer coisas que faziam sentido para mim”
Encontro com o ídolo, né? Essa pessoa me acompanha desde sempre. Eu sou uma pessoa da imagem e do som, eu ouço música desde criancinha, meu pai e minha mãe eram muito musicais e isso se estendeu para as três filhas que tiveram. Eu dormia com um radinho – na época em que havia rádio de pilha – debaixo do travesseiro. O Luiz Melodia, desde que eu me entendo por gente, começou a dizer coisas que faziam sentido para mim. Eu tenho todos os discos, todos os CDs, ele faz parte da minha vida mesmo. Essa foto é aqui no CCSP, na Sala Adoniran Barbosa. Nesse dia, aconteceu um fato interessante: a sala ficou tão cheia que, depois desse dia, por medida de segurança, a lotação máxima diminuiu. Acho que isso aconteceu em 1990. Ele era meu ídolo, lindo e querido. Também tive a oportunidade de encontrar com ele no Som do Meio-Dia, projeto da Secretaria Municipal de Cultura que acontecia no Vão Livre do MASP. Lá eu tive autorização de subir no palco, de estar no mesmo palco que ele. Como eu sou muito ligada em música, eu tive muitos encontros incríveis, e a maioria deles é musical.


4) “Se eu for 1/5 do que ela é, vou ser muito feliz” 
A Elza Soares é uma história muito diferente da do Luiz Melodia, porque ela é anterior para mim. Pequena, eu via a Elza na TV e achava uma loucura, uma potência, uma força, e eu mal sabia entender o que ela estava passando, só iria entender um pouco mais pra frente. De qualquer forma, ela falava comigo de algum jeito, a família sentava para assistir televisão, e essa gente ia para a televisão. Ao longo do tempo, ela foi fazendo uma carreira, começamos a saber coisas sobre a vida dela e, exatamente por isso, eu comecei a achar que ela era uma pessoa muito forte, uma mulher muito inspiradora. Essa percepção veio mais pra frente, antes ela era só um ídolo, como o Luiz Melodia foi para mim depois. Ela era uma das pessoas que ficavam no seu inconsciente. Hoje entendo que essa pessoa passou por tanta coisa, tanta humilhação. Ela foi obrigada a se casar muito novinha, porque precisava de dinheiro, então era quase como se fosse uma prostituição. Ela perdeu filhos, teve tantos sofrimentos, foi completamente apaixonada e abriu essa paixão em uma época em que as pessoas não estavam nem aí para você, as pessoas queriam que você se ferrasse. Ela era muito criticada, massacrada mesmo. Ela é uma fênix, e aquela música que fala ”levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima” é a Elza ao extremo, acho que é a história da vida dela. Quando eu fiz essa foto dela – não sei em que década, mas creio que já seja anos 2000, porque já estávamos com câmera digital, fazendo foto colorida -, ela ainda estava andando normalmente, já era uma pessoa muito mais velha pra usar uma minissaia, mas ela estava de minissaia e dane-se. Quando ela está no palco, ela é poder, é força, e a força dela é na música, então isso é uma coisa que me inspira muito. Achar a veia, a manifestação da vida e seguir nela. Hoje ela canta sentada, mas ela canta e, quando ela canta, ela canta! Ela achou essa veia, e eu admiro muito gente que faz isso na vida, que acha essa veia e segue. O palco, pra ela, é um lugar que centra, que fortalece, acho muito legal quem consegue achar esse lugar que te centra e te faz caminhar.

Ela levou um tombo recentemente no palco e machucou muito seriamente a coluna. Quer dizer, mais um sofrimento físico, mas ela vai se superando eternamente e está fazendo um show moderníssimo, Deus é mulher, com temática feminina. Ela também tem o que a Elis tinha, de pegar jovens compositores e compositoras. Ela tem essa coisa de trazer à luz nomes que não são conhecidos, para que fiquem conhecidos através da voz dela.

Recentemente, aconteceu essa intersecção para o bem entre ela e o Ilú, algo incrível. Ela foi tema de um dos nossos carnavais e, a partir daí, a Beth Beli, que é nossa dirigente, começou a encontrar com ela e ela saiu com a gente na rua, num carrinho, de frente para nós, então era aquela “ídala” louca, ali na minha frente. A partir daí, começou uma coisa mais próxima com o Ilú, sempre com respeito, sempre com admiração. Depois desse carnaval, ela fez o disco Deus é mulher e falou que queria a gente junto no show. Nós tivemos o prazer de estar no palco com ela.

Ela é uma pessoa que acompanho, respeito e que está aí, é um exemplo para mim, uma mulher forte, porreta mesmo! Ela vai lá e ainda faz panfletagem nos shows com mais de 80 anos: “Mulheres, não vamos ficar quietas! Quero muito barulho! Vamos falar, senão a coisa não muda nunca”. Essa é Elza Soares! Se eu for 1/5 do que ela é, vou ser muito feliz.


5) Missão de Pesquisas Folclóricas
Eu tenho uma história muito incrível com a Missão de Pesquisas Folclóricas. Eu tenho formação religiosa católica e morria de medo dessas questões de candomblé. Era só medo e desinformação. Quando eu vim para o CCSP, um dos vários tipos de trabalho que fazíamos – e ainda fazemos – se chama reprodução, que é você fotografar uma obra de arte, texto ou o que tiver para ser fotografado, muito em função dos nossos acervos. Acontecia que tinha a “tal da Missão”, da qual eu não tinha conhecimento, vim a ter conhecimento aqui, pois na escola não se falava nisso. Várias vezes, esse trabalho de fotografar a Missão estava comigo, mas não tinha o menor conhecimento do que era aquilo. Eu me lembro de uma vez em que fui fotografar uns objetos de ferro, de candomblé, sozinha, no Porão do CCSP. Iluminei, pus fundo preto e comecei. Pouco depois, caiu uma coisa ali no canto, e eu me perguntava: o que está acontecendo aqui? Aí eu comecei a me ligar que aquelas coisas tinham um movimento, embora eu estivesse sozinha naquele espaço. Aí eu pensei: gente, eu não sei o que é isso. Muito tempo depois, quando a Missão ganhou uma luz, eu entendi o que ela era e comecei a travar conhecimento com a cultura popular brasileira muito por causa dela. Coincidentemente, eu também entrei, uns anos depois, no Ori Axé, que trazia muito à tona a cultura popular brasileira e a afro-brasileira.

Essa foto é de uma das visitas dos vários grupos de folclore do Nordeste que vieram conhecer a exposição permanente da Missão de Pesquisas Folclóricas, montada pelo nosso diretor na época, Carlos Augusto Calil. Foram expostas as fotos, os objetos, o gravador utilizado na época da Missão. Foi uma alegria, porque eu vi gente reconhecer parentes nas fotos expostas – e gente se reconhecer depois de muitos anos. Houve um senhorzinho que se reconheceu e chorou “lágrimas de sangue”, porque, que emoção, né, essa coisa toda estar aqui, à mostra.

Depois, também fui entender mais o candomblé, que é só uma religiosidade como outra qualquer, que eu respeito com toda a força do meu ser. Eu sou espiritualista, então super respeito, porque é mais uma forma de as pessoas se centrarem, se encontrarem com o Deus, com o Criador, com o Orixá, no caso. Não é que eu frequente, mas eu conheço casas, eu vou, sou respeitada. A mãe de santo ou o pai de santo, eles me respeitam, a gente se beija até, beija a mão.

Esse foi um momento muito interessante em que eu entendi tudo. Se eu houvesse entendido antes, eu também teria entendido o que aconteceu lá embaixo no Porão no início (risos). Depois que eu saquei que aquilo tinha um movimento e que era para lidar com respeito, porque boa parte tinha sido arrancada dos terreiros de candomblé pela polícia. As coisas tinham, então, aquele movimento ainda. Acho que agora tudo está se acertando, encontrando esse caminho, seguindo o fluxo que tem que seguir, querendo se mostrar para mais pessoas conhecerem.


6) “Se você tem a possibilidade de incentivar uma pessoa a passar por uma transformação, por que não fazer?”
Mais uma vez é a inclusão, da qual já falei na foto da Ana. Todo mundo pode, é só ter oportunidade. O projeto do Letramento, muito impulsionado inclusive pela Ana e pelas pessoas que estavam aqui naquele momento ajudando a pensar ações de inclusão, foi uma das grandes ações, entre várias outras que me emocionaram muito, que deu, ao Seu Eliezer, um jardineiro incrível, por exemplo, a oportunidade de aprender a ler e a escrever – oportunidade que ele não teve na infância, porque muito provavelmente ele teve que trabalhar e cuidar da vida dele. Enfim, todo mundo sabe como são essas histórias, aqui foi só um exemplo. Peguei a foto que eu achava mais interessante e mais bonita. O Letramento não trabalhava só a escrita e a leitura: propunha visitas às exposições, vivências em espaços culturais… Por que a pessoa que limpa o chão da “cultura” não pode entender da “cultura”? Ela pode. As pessoas envolvidas no projeto eram muito amorosas, porque só sendo uma pessoa muito amorosa e tendo uma visão humanista e inclusiva é possível fazer isso. Porque a gente assiste aqui o tempo inteiro isso não acontecendo, o mais normal é não acontecer. O Letramento mudou as pessoas, eu tenho certeza, porque nós escutamos muitas delas falarem que avida delas mudou depois disso. Se você tem a possibilidade de incentivar uma pessoa a passar por uma transformação, por que não fazer? E é tão simples, é olhar para todo mundo, olhar com os mesmos olhos para um artista plástico maravilhoso e para a faxineira.

O Centro Cultural pode ser um lugar inclusivo a vida inteira, ele tem espaço pra isso, ele foi construído pra isso, foi construído inclusivamente. Ele é uma rua, as janelas e as portas são transparentes, e muitas delas são abertas, escancaradas, foram se fechando por necessidade dos tempos. Temos várias entradas, por causa exatamente dessa ideia de você poder entrar por qualquer lugar.

Fotografia é observação. É óbvio que, se você não tiver luz, você não tem fotografia, mas ela é, acima de tudo, observação. Tem fotógrafos que são bons contando outros tipos de histórias. Para mim, passa pelas pessoas e, por isso, eu sempre fui uma boa retratista, faço bons retratos porque eu gosto de olhar para as pessoas. Gosto que as pessoas se vejam bonitas. As pessoas sempre me falam: “ah, Sossô, você me deixou tão bonita”. Eu respondo: “não, você tem essa beleza, só que você não está acostumada a reconhecer que ela existe”. Então, eu gosto de fazer com que as pessoas se reconheçam. A minha levada é essa, e as situações que são mais humanas me pegam muito, eu me mato de chorar em situações em que estou fotografando. Nessa foto eu me emocionei, certamente, por eu estar ali, também, vivendo o momento de oportunidade da outra pessoa, contando essa história. Todos eles ficaram com uma foto dessas, então eles têm essa história contada dentro da casa deles. O que representa para mim estar falando disso para vocês? O que representa para cada uma dessas pessoas que está na foto falar: “filho, neto, vem, olha eu hoje na minha aula… eu aprendi a escrever!”. É uma honra poder contar essas histórias do Centro Cultural.


7) Luiz Telles e a vocação inclusiva do CCSP
O Luiz Telles foi um dos arquitetos que ajudou a conceber o Centro Cultural com o Eurico Prado Lopes. Ele era muito amigo da Ana Maria e vira e mexe ele vinha aqui, e eu ainda não estava nem aí, não tinha ainda me conectado com ele. Ele vinha e falava ”ah, sua foto maravilhosa!”, e eu não dava bola. Foi muito provavelmente na época dessa foto, quando ele começou a vir mais aqui e eu comecei a ouvi-lo falar, que eu fiquei encantada com o jeito como ele falava desse lugar, como eles tinham concebido esse lugar. Depois disso, eu fui me aproximando mais dele, ele ficando mais próximo… Essa foto eu fiz em uma das últimas entrevistas dele aqui para a equipe do site do CCSP, em 2012. Nesse dia, a gente caminhou com ele pelo espaço, foi incrível esse passeio. Eu adorava como ele falava das pessoas que se isolavam nas suas varandas gourmet. Como ele deve ter passado momentos difíceis em algumas gestões, quando, por exemplo, tamparam os vidros da Adoniran, pois não entendiam a cultura de uma forma democrática, não achavam que o que o arquiteto tinha pensado era para ser respeitado – e eu sofria junto, porque, quando eu vi pintarem o vidro da Adoniran de preto, era como se tivessem pintado para ficar de luto um tempo. Uma concepção exatamente avessa à preocupação de olhar para o ser humano. O Luiz era um cara que, juntamente com o Eurico, olhava para o ser humano e concebeu um espaço tão grande, cheio de detalhes, aberto e transparente, feito para todos. O Centro Cultural é esse espaço inclusivo que estamos falando tanto, mas, mesmo assim, muitas vezes, a gente precisa relembrar para as pessoas que esse espaço é inclusivo desde a sua concepção. Luiz Telles era inclusivo e faz muita falta esse olhar.

Às vezes, fico vendo como as coisas vão caminhando e como a gente vai se separando da essência das coisas, da história do lugar, da vocação, porque vem uma gestão, vem outra… Não sei se é o suficiente só contar essa história, mas é o máximo que eu posso fazer. Os contadores de história estão indo embora, mas vêm outros contadores que vão contar de outro jeito, fazer de outro jeito. Daqui a pouco, vou embora, esses meninos vão fazer a história do jeito como puderem fazer. Eu acho que eu tive um grande privilégio de poder contar essa história num tempo que foi possível contar desse jeito, com pessoas que estavam entendendo e fazendo com que essa história se perpetuasse. Mas a vida é isto: finitude.


8) Monges tibetanos e a impermanência da vida
A visita dos monges tibetanos em junho de 1995 foi muito importante para mim. Eles vieram aqui para um evento em que faziam meditações, tocavam, além de terem construído a mandala de areia da foto. Demoraram uma semana para construir essa mandala. Na época, eu já estava começando a me interessar por essa coisa meio indiana e pensei: “nossa, que coisa incrível, que maravilhoso!”. Todo dia eu ia até a sala para acompanhar a construção da mandala. Essa foto é do começo da construção. Os monges ficavam seis horas por dia fazendo isso, dessa maneira – debruçados. Paravam, comiam, voltavam, tudo silenciosamente. E a gente assistindo, e eu me matando de tirar foto e absorver tudo. Mandala pronta, “que coisa linda”, uma semana para fazer. Daí, depois de uma oração, um dos monges assoprou, eu fiz ”ahhhhhhh” e várias pessoas também fizeram. Eles desmancharam, pegaram a areia, puseram em um recipiente… e eu fiquei sem ação, não esperava aquilo. Pensava que a mandala ficaria exposta por pelo menos um mês, que colocariam um vidro transparente em cima…

Esse foi dos primeiros contatos lúcidos que eu tive com a impermanência do ser e da vida. Eu comecei a pensar muito nisso a partir dali, porque me fez refletir muito na importância que eu dou para as coisas na minha vida. Quanto tempo eu demoro em uma briga? Quanto tempo demoro em uma coisa que já não tem mais tanta importância? Depois disso, ainda tive um caminho longo e árduo até entrar nesse caminho espiritualista. Esses caras me deram a primeira grande dica espiritual, sem saber. É muito louco você pensar que as coisas não duram e elas são exatamente assim, não duram para sempre. Você aprende que cada coisa tem um tempo e, quando o tempo passa, o tempo passou, ponto. Só passou, já não é mais esse tempo.

Os monges jogaram a areia da mandala no Rio Tietê, como uma forma de ajudar a curar o rio. Na verdade, era um trabalho espiritualista de cura da cidade. Eles vieram amorosamente de lá do Tibete, passaram por várias cidades fazendo esse trabalho de construção de mandala. Tem tanto aprendizado em fazer isso. Que intensidade você põe nas coisas que você faz no seu dia a dia? Porque, quando você está em determinado ponto da mandala, se você assoprar um pouco mais, você destroi tudo o que já foi feito. Então, o sopro era pontual, tinha muito aprendizado nisso. Eu aprendi muito com esses caras e talvez se eu tivesse aprendido ainda mais teria evitado outros problemas na minha existência, que vieram a seguir, mas ok, tudo tem um tempo. A impermanência fala do tempo, não é? Entender que cada um tem seu tempo… Para isso eu tive uma grande mestra, que foi a Ana Maria, que me ensinou muito a entender o tempo do outro, porque ela tem um tempo completamente diferente do meu e isso me enlouquecia.


9) “Já que estou nesse telhado, que morri de medo para passar da escada, vou aproveitar, vou olhar para todos os lugares”
Estava vindo uma inspeção, e tínhamos que fotografar a área do jardim. Eu não queria subir, só que não havia nenhum outro fotógrafo nesse dia e eu tive que subir. Passei o maior medo, mas subi. Fiz toda a documentação de cima, a coisa técnica, meio chata, aí pensei: já que estou nesse telhado, que morri de medo para passar da escada, vou aproveitar, vou olhar para todos os lugares. Essa é uma das fotos mais felizes, pois é uma das que usamos para mostrar o CCSP como um lugar bonito, de inclusão, de muita gente, de vários níveis e tudo o mais. Por sorte, vejam que luz linda que fazia no dia. Então, ela tem essa história: foi a oportunidade que eu tive de subir no telhado, sem eu querer, e já que eu estava lá, aproveitei pra fazer uma coisa bacana.


10) Descobrindo Mônica Salmaso
Mônica Salmaso e do João Donato eu escolhi por conta de um dos muitos momentos alegres que a música me trouxe. Certa vez, numa época em que eu trabalhava ao lado da Adoniran, entrei na sala para fotografar e assistir a um ensaio, e quem estava lá era um pessoal do Música Ligeira, uma turma que era do grupo Premê. Nessa ocasião, eles se apresentariam com várias cantoras já conhecidas por quem era do meio, mas que eu ainda não conhecia. De repente, estou lá, e entra uma “mulherzinha” e começa a cantar uma música do Seal. Eu – que sou muito fã do Seal, ouvi muito, ele fez parte de um contexto da minha vida – me perguntei: nossa, o que é isso? Quem é essa pessoa? Onde ela nasceu? O que está acontecendo aqui? Sabe aquela coisa que mexe com você? Fui atrás pra saber quem ela era e não era ninguém menos que Monica Salmaso em início de carreira. Eu fiquei enfeitiçada, porque, de alguma forma, naquele dia, naquela hora, naquele momento, eu estava precisando ouvir aquilo e eu tive muita sorte de abrir a porta e ter aquela descoberta.

Ao longo da conversa, você falou de muitas pessoas, da Ana Maria, do João Mussolin, da KK Alcóver… Quer dizer, sua trajetória é muito marcada por esses vínculos de afeto e parece que eles fizeram a diferença nessa sua construção da instituição, na compreensão da vocação do seu trabalho.

Com certeza, porque, durante longo tempo, essas pessoas estiveram comigo também. Eu sou uma pessoa dos afetos. Sou a pessoa que abraça, que fala que ama e que, se está magoada, tem a possibilidade de falar. Eu me conecto com as pessoas através do afeto – e, sim, elas me pontuam e me mostram como que caminharam comigo e como é essa trajetória. A KK é uma pessoa que, além de também ser fotógrafa, via o mundo de uma forma muito parecida com a minha. Nós agíamos de formas muito diferentes, mas nós víamos o mundo de um lugar muito parecido. A Ana Maria também tem uma trajetória de olhar a vida de uma forma muito parecida com a minha, de um lado mais humanista. O João Mussolin, através da arte dele, também transparece muito essa característica. Essas e outras pessoas permearam, sim, a minha trajetória. Pessoas como a Vera Ohana, por exemplo, que já se foi, me ensinaram a ver a vida. Carlos Rennó foi um cara que ficou com a gente um tempo, também foi embora, desencarnou, mas foi um grande mestre para mim também, e não foi de uma forma tão boa, porque aprendi com ele através de situações difíceis, mas hoje o agradeço. Com cada um aprendi uma coisa, cada um tem uma intersecção, até com pessoas de quem eu tive muita “bronca”, muita raiva, essas pessoas também, de alguma forma, me ensinaram.

Foram anos aqui e, a cada dia vindo pra cá, eu faço uma oração, eu agradeço: “estou indo para o meu trabalho, está terminando e eu agradeço cada ano, cada movimento, cada coisa que eu aprendi”. Tudo o que eu fiz e aprendi profissionalmente foi aqui e a minha grande história está contada aqui. Eu tive esse prazer de poder construir uma história através do meu olhar, é bonito isso, não é? E foi dando certo. E mesmo quando não estava dando, para sobreviver, a gente achava um jeito, porque a gente é água, a gente acha brechas, como um rio. Quando pinta qualquer pedra na frente, a gente desvia e chega ao mar, se a gente for insistente. Acho que agora eu estou chegando.

Se você pudesse deixar algum “conselho” para quem vai ficar fazendo o trabalho que você fazia, qual seria esse conselho?

Respeite o seu trabalho e faça com que as pessoas respeitem o seu trabalho. Seja uma pessoa respeitável. O que eu tenho falado com quem vai ficar é: observe, não tome atitude intempestiva, porque eu tive que tomar muita atitude assim, e não foi bom. Sempre que você puder interferir e dizer que algo talvez não fique tão bom, diga. Se vierem ordens de lugares onde você não pode interferir, obedeça, porque vão ser dois segundos obedecendo e o resto do tempo livre para você fazer o que acha que tem que ser feito.

Respeitar o espaço, respeitar o outro, respeitar a si mesmo. Essa é a grande coisa que eu posso dizer e eu deixo como exemplo também, é o que procuro fazer da minha existência, com o meu trabalho e com todo mundo que está no meu entorno.

Embora eu vá parar de vir pra cá todos os dias, não vejo mudança, não muda nada, porque o que eu tenho feito, o que eu já fiz, eu só vou dar continuidade. Na verdade, o ser na vida é o que eu sou em qualquer lugar. Sou aqui, sou lá, exatamente o mesmo ser e faço exatamente a mesma coisa. Uma das coisas pelas quais eu sou muito grata é o celular, que substitui bastante a câmera, então estou sempre fotografando. Achei que tinha parado de fotografar, mas, quando abro as galerias do celular, vejo que não, pois eles são repletos de fotos. Estou voltando a fazer retratos e acho q vou continuar. Quando você registra a imagem, você mantém a emoção, a luz que estava no dia, você revive… É isso o que me move.

Acho que a vida é continuar observando as pessoas diariamente e a si próprio também, porque não é possível viver consigo e com os outros, se você não se observa e não faz as transformações necessárias. Olhar-se constantemente também é um jeito de fazer um retrato.

Eu estou indo para onde tenho que ir, não estou largando nada. Deixar história construída não é largar. E acho que as melhores fotos ainda estão por vir, a melhor música ainda está por vir, a minha melhor vida ainda está por vir. Sempre acho que o melhor ainda está por vir.


Entrevista: Marcia Dutra e Vinícius Máximo
Fotos: Sossô Parma (de 1 a 10) João Silva (capa e duas últimas)

*Publicado em 8 de novembro de 2018

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