Quem fez, quem faz: Márcia Dutra

Quem fez, quem faz é uma seção do site do CCSP que procura colocar luz sobre trabalhos fundamentais para o funcionamento da instituição, mas que, por diversas razões, permanecem “invisíveis” ao público. Nesses 20 anos de dedicação ao CCSP, a jornalista Márcia Dutra atuou em diversos setores, criando inclusive a seção do Quem Fez, Quem Faz aqui do site. Leia a seguir a entrevista completa:

 

Em que ano você entrou o CCSP e como foi isso?
Bom, trabalhar com cultura pra mim sempre foi uma questão e uma curiosidade. E pra isso o jornalismo foi sempre a minha primeira e única escolha: eu nunca pensei em fazer outra coisa. E o Centro Cultural foi o lugar que meio que uniu tudo isso, que me moldou. Eu devo ter chegado aqui por volta de 2000, 2001, pela primeira vez. Eu falo pela primeira vez porque teve uma interrupção, que eu posso falar mais pra frente.

 

Qual a importância que você dá para o que faz aqui e para o público?
Bom, o que mais importa é público. Por isso eu acho muito importante o que eu faço: o site é um intermédio entre o público e a programação. Eu acho aqui é um espaço muito foda, com muita coisa legal acontecendo ao mesmo tempo. Uma divulgação, uma comunicação não feita pode ser a diferença pra alguém que vai assistir ou deixar de assistir – ou se organizar pra isso. E isso é tudo pro Centro Cultural, porque isso é espaço público. É um dinheiro que é de todos, ele não é muito dinheiro, então eu acho que ele tem que ser aproveitado, com a responsabilidade e seriedade de quem trabalha aqui.
Sobre o conteúdo que é produzido pro o site, o que a gente faz é pegar as linguagens que orbitam aqui no Centro Cultural (seja dança, moda, literatura, etc.) e tirar lá do Olimpo pra trazer pra todo mundo. Os textos que a gente sobe pegam discussões em cima dos nossos acervos, em cima da programação, e disponibilizam elas pra alguém que talvez não tivesse acesso se não fosse pela internet. O acesso à cultura no Brasil é muito elitizado, e a gente meio que combate isso.

 

Conte sobre sua trajetória profissional. Faça um resumo de tudo o que você fez ao longo do tempo e fora daqui.
Tem toda uma história, né… Bom, tudo começou na minha época de “esquerdopata religiosa”: na época da graduação, eu fazia jornalismo e militava num movimento da Igreja Católica muito afinado com a Teologia da Libertação. Era legal, porque a gente usava meus conhecimentos pra promover oficinas e discussões pela Zona Leste de São Paulo. Por causa dessa militância eu me aproximei de um grupo de teatro chamado “Se fosse, o que seria?”, e comecei a atuar como atriz e produtora: a gente correu toda a periferia fazendo oficinas, levando debates e peças. A coisa foi crescendo e a gente decidiu arrumar um jeito de ganhar dinheiro com aquilo. Abrimos uma espécie de “restaurante cultural”, e assim nasceu o Madame Satã. Nessa fase eu conheci várias pessoas, dentre elas uma que me é muito querida, o Celso Curi, que trabalhava com teatro.
Eventualmente o Madame acabou, eu prestei um concurso e acabei indo trabalhar no Serviço Funerário. Bem diferente de hoje, né? Mas minha irmã veio trabalhar aqui, e por isso eu comecei a frequentar o CCSP e me apaixonar por ele. Lembra do Celso Curi, que eu falei? Em meados de 2000, 2001, ele foi convidado pra ser o diretor de comunicação daqui. Tinha uma demanda de criação de uma Central de Informações, e ele me “emprestou” do Serviço Funerário pra vir pra cá fazer isso. E eu vim, lógico. Foi a primeira vez que eu me encontrei num trabalho remunerado.
Mas eu queria me garantir, afinal eu só tava emprestada aqui no CCSP. Então eu fui prestar concurso pra administração e passei, mas para meu espanto, quem passou foi obrigatoriamente alocado pra Saúde. Foi essa a interrupção que eu falei no começo: da Saúde, eu fui pro Planejamento, e foi uma época de muita infelicidade. Mas eventualmente eu voltei pra cá, a convite do Hugo Malavolta em 2003. Nisso, a gestão já tinha mudado, e entrou o Durval Lara, o diretor que por causa do jornalismo e do meu “olhar editorial”, digamos assim, me tirou da Central e me colocou pra coordenar o site. E aí começou essa história, digamos, mais recente, né? De ter uma equipe maior do site, de ter rede social, conteúdo pra além da programação. Acho que isso mais ou menos resume o meu início aqui no Centro Cultural. É isso.

 

Conte mais sobre como você se relaciona com a memória.
Ah, tem muito a ver com o meu processo de busca pelo conhecimento. Eu sempre falo que eu vivi numa rabeira de ditadura, né? Nessa época, algumas coisas ainda aconteciam, mas isso não chegava pras pessoas. E nossa, quando eu vi esse descompasso a minha reação foi ler obcessivamente, como leio até hoje, relatos da ditadura no Brasil e da Segunda Guerra Mundial. E assustadoramente, quanto mais eu lia e conhecia a nossa história, mais eu percebia o quanto as pessoas não sabem o que aconteceu – o quanto as pessoas julgam por uma casca. E tudo isso por quê? Porque a nossa memória, a memória brasileira, nunca foi de fato trazida à tona, levada a sério… Eu acho que nosso país tá na situação que tá por ter sido por muitos e muitos anos relegado a nada do papel duma memória da gente como povo. É tudo muito manipulado, mascarado!
Eu acho que a memória também tem uma outra função. Quando eu falo em memória, eu não quero que se cristalize numa coisa de algo que se tornou obsoleto. Mas eu acho que é muito importante você saber como foi feito em algum dia, sabe?

 

É da sua relação com a memória que surge a ideia pro Quem fez, quem faz?
Sim! Eu sempre acho que foi daí que partiu. Quando eu voltei pra cá nessa segunda volta, já coordenando o site, eu senti que era a hora de retornar ao jornalismo. Bem nessa época, o Centro Cultural comemorou 25 anos, e foi feita uma proposta de que a gente fizesse algum conteúdo meio comemorativo. Bom, eu fui buscar conteúdos (mas conteúdos fáceis) do Luís Telles, que é o arquiteto do Centro Cultural. E nessa minha pesquisa eu comecei a notar que o CCSP só dava ao público a programação… Faltava algo que mostrasse o que tava atrás do palco, entendeu? Ou mesmo quem estava no palco, quem era aquela pessoa fora dali? E a partir daquele momento, e por ter esse compromisso com a memória, eu decidi criar uma seção que construísse memória de todo mundo que põe o Centro Cultural em pé, não importa o que essa pessoa esteja fazendo. Mas o Quem fez, quem faz, é também sobre transmitir saberes. Saberes que podem ser adaptados pra novas tecnologias, que podem ser aprimorados.

 

Tem algum episódio que te surpreendeu durante essas entrevistas?
Não tem um episódio em particular, não. Mas tem uma coisa… Uma coisa que inclusive me emociona. É que todas as pessoas que eu entrevistei nos mais diversos graus, têm uma paixão por esse lugar, têm um amor por esse lugar… Quando se trabalha aqui, aqui é o seu lugar. E eu passei por diversas repartições públicas, como se falava antigamente, e nunca vi nada igual, sabe? Nunca vi nada igual. Esse lugar é emocionado. Então eu não sei realmente dizer alguma coisa específica. Mas eu acho que o tesão, o brilho no olhar que esse lugar dá é… É comum pra todo mundo, e isso é muito raro e extremamente bonito.

 

Dos trabalhos que você desenvolveu aqui, o que foi mais marcante?
Bom, tem a história dos treinamentos… Isso aconteceu num momento que eu tinha voltado a coordenar a Central, e nós vínhamos recebendo muita reclamação do público por causa da vigilância, das portarias de acesso. A gente sabia que o segurança, a pessoa que tava no acesso das portarias, tudo, vinha de lugares onde a coisa é engessada, é programada, é desigual. Eles sofrem preconceito e repassam. E aí conversando com a Mari, a Mariana Nieri, descobri que ela tinha uma ideia de solução. Por isso que eu falo que a grande riqueza que é você unir a experiência com a juventude: a Mari tinha um projeto de treinamento pra essas pessoas. Só que ela ainda não tinha a experiência que eu tinha em serviço público. Conclusão: “Vamo fazer juntas?”, “Vamo”.
Foram oito segundas feiras e terças, das 8 da manhã às 8 da noite fazendo treinamento das pessoas. Apresentando o espaço, a história do espaço, o porquê da arquitetura e, o mais importante, os valores que regem o CCSP. Por que é claro, não é só por que esse espaço é livre que você pode fazer toda e qualquer coisa. Cê tem que respeitar o outro, é uma coisa de convivência. Então foi assim, um momento marcante de muita emoção, de ouvir coisas muito bonitas das pessoas, sabe? Mas eu acho que essa história reflete a grande troca que é esse lugar. Você sabe diferente, mas você não sabe mais.

 

Para finalizar: por que estar aqui e sempre voltar?
Eu sempre fui atrás de conhecimento de uma série de coisas, mas eu nunca fui segura de quem eu era. E eu acho que o Centro Cultural me definiu. Sem sombra de dúvida. Quando eu percebi o quão diverso é esse lugar, não tinha porque eu não me expor, eu não me explorar. Tinham pessoas nas mesmas condições que eu, melhores que eu… E todas conviviam e iam se construindo e construindo esse lugar. Então eu acho que nesse sentido foi o que definiu quem eu sou hoje: eu me sinto bastante segura do que eu quero, do que eu sei e de quem eu sou. Eu tive oportunidade de conviver, eu já falei com vocês, com gerações diferentes, e isso pra mim foi primordial…
Porque sempre voltar? Eu não sei se dá pra explicar. Esse lugar tem um encanto, uma magia, e eu não sei se eu sou tão magnânima assim, que eu vou e sempre volto por causa do público. Eu acho que é por causa de mim mesma. E eu acho que a grande chave de você estar bem em qualquer lugar é você voltar por você mesmo. Eu sei que assim: eu sou uma pessoa que quando eu não quiser voltar mesmo, eu não volto. Por enquanto eu quero voltar. Tudo isso aqui é mágico, principalmente se você pensar que é serviço público. E ao mesmo tempo que eu tô cansada e querendo me aposentar, eu ainda não sei direito como eu vou viver sem isso.

 

 

Entrevista: João Vitor Guimarães e Lara Tannus
Transcrição e edição: Isabela Pretti Nogueira
Revisão: Danilo Satou

*publicado em 5 de fevereiro de 2020.

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