Marcos Gomes a Anton Tchekhov | 13 Cartas Imaginadas

MARCOS GOMES (São Paulo, 1980)
É dramaturgo, diretor e ator. Publicou: “Luz Fria (Patuá, 2014). É autor, entre outras peças encenadas, de Recursos Humanos e Origem Destino – adaptada para o formato HQ: Cidade das águas (Pólen, 2015). É doutorando em Artes Cênicas pela UNICAMP e sócio do Teatro Cemitério de Automóveis.

ANTON TCHEKHOV (Taganrog, Rússia, 1860 Badenweiler, Alemanha, 1904)
Nas palavras de Elena Vássina: “Entre o estrelado áureo dos escritores russos do século 19, Anton Tchekhov ficou consagrado como o mais ousado transgressor da tradição literária clássica e um importante precursor das formas e da linguagem artística contemporânea (…) Segundo a bela definição de Alfredo Bosi, um pescador de momentos singulares cheios de significação. Ao mesmo tempo, Tchekhov é um grande renovador da arte dramática, criador de um novo paradigma estético do drama contemporâneoEntre suas peças mais importantes estão: Ivanov (1887), A Gaivota (1896), Tio Vânia (1900), As três irmãs (1901), O jardim das cerejeiras (1904).

Meu caro,

Hoje reli uma peça sua. Nela, uma cena me pareceu mais triste do que antes. O palco está vazio. Passos. Aparece, na entrada à direita, vestido de casaca branca e chinelos, um senhor de 87 anos, que trabalhou a vida inteira naquela casa. Faz frio. Ele caminha até a porta, experimenta os trincos e descobre que está trancada. Todos foram embora. Doente, ele se senta no sofá e constata que o esqueceram. “Não faz mal”, ele diz. “Vou deitar aqui um pouquinho. Não tem mais força, não sobrou nada. Levaram tudo. Ele ri. Depois fica imóvel. Ao longe, você escreve, vindo do céu, o som de uma corda que se parte. O som vai morrendo tristemente. Volta o silêncio, só quebrado pelos golpes de machado nas cerejeiras.

Hoje descobri que você morreu no mesmo dia que meu pai, dois de julho, e nasceu no mesmo dia que minha avó materna, 17 de janeiro. Duas coincidências que não dizem nada. São apenas datas. sobre a sua morte, muita coisa foi dita. Sobre as suas últimas palavras, se você tomou champanhe, se havia ou não uma mariposa no quarto, se a rolha da garrafa estourou sozinha, no meio da noite, enquanto velavam seu corpo. Havia Olga, sua mulher, havia o médico e havia também um estudante russo. Todos testemunhas da sua morte, e, por isso, tanto se disse, tanto se escreveu. Eu também estava ao lado do meu pai quando ele morreu. Estávamos eu, meu irmão e minha mãe. E apesar de não falarmos disso, cada um de nós tem, para si, uma história. Minha avó também morreu ao lado dos seus, e nós podemos contar a sua morte para nós mesmos, e para aqueles que vierem depois de nós, apesar de não falarmos disso.

Apesar de não falarmos da morte, e talvez por isso mesmo, a cena de um velho morrendo sozinho soe hoje infinitamente mais triste do que nunca. Há tantos números, meu caro, tantas datas, tantos corpos, nenhuma testemunha, nenhuma história para contar. Apenas o silêncio, quebrado pelos golpes de machado.

Existem outras coincidências menos tristes. Coincidências que só dizem respeito a mim, claro, mas que eu atribuo a você e ao seu teatro, por puro amor e devoção a sua obra. Foi em uma peça sobre você e os seus amigos, sobre as cartas que vocês trocavam, sobre o trabalho de montar as suas peças que eu a conheci.

Na hora eu não percebi que dez anos depois ela seria a mãe do João, meu filho, brincando na sala agora, enquanto eu escrevo essa carta para você. Como saber também, queno palco daquele teatrinho, o mesmo teatrinho que hoje eu sou sócio, mas que agora está fechado, como saber que um dia eu leria uma carta de Nemiróvitch-Dântchenko para você,e que isso calaria fundo, tão fundo, mas por pura saudade: “às vezes, ele dizfica-se apático, pensa-se: que diabos estou fazendo nesse barco?De repente, dá vontade de abandonar tudo, ir embora… para a Criméia talvez. A ideia de escrever atrai mais do que a de se ocupar com as trivialidades da vida teatral. O que se pode fazer, caro Anton?

Essas pequenas coincidências, insignificantes, meu caro Anton, só existem porque em uma vida como a sua cabem todas as outras, senão inteiras, pelo menos em partes, talvez tão pequenas, que nem nos damos conta, quando saímos do teatro, que uma delas ficou lá, grudada no assento.O que espanta é ter deixado em seu lugar um vazio tão grande. Essas pequenas vidas que se extinguem sozinhas, insignificantes, como Firs ao final da sua peça “O Jardim das Cerejeiras”, serão choradas em segredo por nós, agora e sempre.

 

Seu, Marcos.

São Paulo, 19 de maio de 2020.

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