Ave Terrena a Oscar Wilde | 13 Cartas Imaginadas

AVE TERRENA (São Paulo, 1991) 
É dramaturga, poeta, diretora, atriz e professora. Entre seus trabalhos mais recentes, estão o espetáculo “Segunda Queda”; a peça “As 3 uiaras de SP City”, premiada na Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos do CCSP, e “Lugar da Chuva.”

 

OSCAR WILDE (Dublin, Irlanda, 1854 – Paris, 1900)
Paradoxalmente, o maiorlegado de Wilde às vindouras gerações de homossexuais ocorreu através e a partir da dolorosa derrota (…) Ninguém até então tinha sido tão amplamente identificado enquanto homossexual: graças ao processo judicial sua identidade e homossexualidade se imbricaram num único todo. Assim, deflagrou-se o início do que mais tarde seria definido como ‘consciência homossexual’ (…) . Seu julgamento, que aterrorizou várias gerações de homossexuais, a longo prazo também cristalizou a identidade do desejo homossexual nos termos em que o conhecemos até hoje” (João Silverio Trevisan – Revista CULT ed. 114). Entre suas obras estão: O Retrato de Dorian Gray,O Fantasma de Canterville”, “A importância de ser prudente”, “De profundis”.

Das profundezas

Querido Oscar Wilde,

Até quando? Até quando essa emoção ressentida? Desde quando essa fissura entre as pessoas, cindidas uma da outra, superfície frágil, fundo revolto, verdadeiro maremoto abafado por tampa de vidro? No mínimo séculos, você
sabe melhor do que eu…

Uma palavra estrangeira: queer. Tão usada pra te xingar do lado de lá do oceano, essa palavra, aqui onde ela nem mesmo parece fazer sentido, essa palavra, mesmo cifrada pela grife de pérolas acadêmicas, essa palavra, aqui, causou o maior rebuliço, nos últimos anos. Uma só palavra, e nosso corpo inteiro deturpado, nossa voz coletiva, nossa vida de desejos violada em nome de escandalosas capas de jornal. Onde a nossa exuberância, recebem o asco. Onde a invenção, miséria. Onde a corpa, plena, profunda, só recebem uma bomba imoral. Inclassificáveis, quantos nomes. Quantos nomes não forjaram pra trancafiar a gente na gaiola dos pássaros disfuncionais? Grotescas. Assim nos viam, assim ainda nos veem.

Está na história. A sentença que te encarcerou, condenado por sodomia. O preço de ser maricona, mariquinha, viadinho, baitola, pederasta, gay, é o mesmo que eu pago por ser mulher travesti? O preço de ser excêntrico, ridículo, extravagante, intransigente, o preço de dar na cara, de dar pinta, to queer or not to be – uma questão.

Você ficou dois anos na cadeia. Isso acontece com tanta gente no Brasil… Quase sempre, mais anos. Por ser quem é… você foi considerado culpado, criminoso, doente. Sua luta silenciosa, quantas de nós não vivemos ela no desfiar do tempo? O veto moto- contínuo, o NÃO carimbado de cara na nossa cara.

Tarântula, Arrastão, Rondão, Limpeza, operações malditas, quantas travestis perseguidas, presas, exterminadas só por tentar trabalhar, por teimar em não morrer, sendo obrigadas a ler pintado no muro “Limpe São Paulo, mate um travesti por noite”. Quantas não cortaram os próprios pulsos pra ser soltas da cadeia, porque tinham medo do sangue Quanto sangue, quanto sangue derramado. Quantos homens trans apagados da história, impelidos ao suicídio? E pros que ficam, um luto atravessado, sem tempo de lamentar. Um nome falso escrito na lápide – a gente já nasce tendo que aprender a dublar. Quem não vive, quase nunca entende.

Cabe a nós verter o texto em subtexto, pra cantar o de profundis. “Amor que não ousa dizer seu nome”? Se o seu talento retorceu o seu âmago nas entrelinhas até onde não foi mais possível, que agora então ele possa ganhar o fôlego dos ares tropicais. Esse fôlego que a cada dia parece se comprimir um pouco mais nos pulmões, mas que vem desde você, colonialmente atravessando os mares, mas que vem desde muito antes, desde Xica Manicongo atravessando os mares, os cantares, as palavras contra a ordem que os movimentos têm e vão ter que entoar. Pra seres quem és, entre nós, Oscar Wilde, vai ter que enviadescer, como diz a poeta Lina. Você bem que falou que só queria conviver com as artistas, com as pessoas que sofrem, com aquelas que conhecem a beleza mas também a dor de tristeza. Então, essas somos nós. Pra vir com a gente, vai ter que trazer a cabeça da Europa Cristã numa bandeja de prata das Américas.

Aprendo contigo.
A roubar a malícia do veneno de quem me maldiz.
A arrancar a língua do desprezo pela raiz.
O mistério final é a própria pessoa, não é mesmo?

Ave Terrena

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