Mario Bortolotto a Guillaume Apollinaire | 13 Cartas Imaginadas

MARIO BORTOLOTTO (Londrina, 1962)
É dramaturgo, escritor, diretor, ator, compositor e vocalista da banda “Saco de Ratos”. Tem mais de 50 textos escritos para teatro. Entre eles “Homens, santos e desertores” e “A frente fria que a chuva traz”. Ganhou o Prêmio Shell/2000 pelo texto “Nossa vida não vale um Chevrolet” e o Prêmio APCA pelo conjunto da obra (2000).


GUILLAUME
APOLLINAIRE (Roma, 1880 Paris, 1918)
Foi escritor e crítico de arte francês, possivelmente o mais importante ativista cultural das vanguardas do início do século XX, conhecido particularmente por ter escrito manifestos importantes para as vanguardas, como o Cubismo, além de ser o criador da palavra Surrealismo. Foi o responsável pela introdução dos “livros malditos” de Sade na cena literária francesa do início do século. Em 1913, Apollinaire publica Álcoois, coletânea de seus trabalhos poéticos desde 1898. Percorreu todos os gêneros – poesia, prosa, prosa poética, teatro, ensaio, crítica. Na literatura dramática destaca-se “As mamas de Tirésias”.

São Paulo, 2020

Você gostaria de saber se eu te daria mais 102 anos? Para que outro mal similar te acometesse e te jogasse nesse leito lúgubre enquanto aguarda sua mudança irreversível para o Pere Lachaise. Eu te concederia a imortalidade. As pessoas buscam tanto a imortalidade, mas se a gente pensar friamente, não há muitos que a mereçam. Mas a gente também sabe que o merecimento não é algo que credencia ninguém a ganhar nenhum favorecimento real. O que você fez na poesia e no teatro também com os seus “Peitos de Tirésias” em 38 míseros anos será lembrado pelos próximos 102. Fiquei pensando hoje naquele negócio que você fez deeu nem sei porque eu fiquei pensando nisso, mas eu fiquei encasquetado com esse negócio de você se fazer passar por um príncipe russo. Eu entendi a ideia do príncipe. Não entendi bem o porque do “russo”. tava na Bélgica, que vantagens a sua procedência russa te traria? Um russo dominando o dialeto valão? E daí, né? Mas são mistérios que você pode se dar ao luxo. Quem recriminaria tão genial criador de termos…esses nomes realmente me fascinam. Termos como cubismo, surrealismo e orfismo. Caramba, Orfismo? Duchamp deve ter se divertido com o termo antes de embarcar na sua onda. Olha, aqui agora tá um tempo estranho. Não estamos tendo o direito, esse direito está sendo tomado, usurpado de olhar nos olhos que tremem como “os ramos que se agitam” como naquele seu poema para sua querida Lou. É a Marie Laurencin, né? Eu nunca tive certeza. Eu tava olhando uma foto dela e achei que ela tinha mesmo o “nariz singularmente aristocrático”. Mas eu tava tentando te dizer como as coisas estão por aqui 102 anos depois ou 103 depois que você mostrou pela primeira vez sua peça “Os peitos de Tirésias”. Eu sinto como se tivessem roubando o nosso tempo, como se o mal sempre roubasse o nosso tempo e tempo é algo que não se devolve, não é? Você também sentiu isso? Quer dizer, é diferente da ocasião em que você foi acusado de ter roubado a Mona Lisa ou ter favorecido o roubo. Mas a Mona Lisa ia ser encontrada, ia voltar pro Louvre. O nosso tempo não volta. Não vão devolver pra gente. O mal pode vir disfarçado e te pegar em meio a uma guerra, tipo a I Guerra quando o mal te pegou com aquele estilhaço ou como te pegou agora com essa inclemente gripe espanhola. Não, você não vai vencer o mal. Nós não vamos vencer o mal. 102 anos depois e não temos qualquer ilusão de derrotar o mal. O mal quase nunca perde. Você pode sentir os anjos fazendo cócegas nos seus pés. Dessa vez os “dias se vão e você vai embora”. O Sena vai continuar “fluindo em águas soberanas” e a noite virá “sem demora”.

Mário Bortolotto em São Paulo em 2020
Para Guillaume Apollinaire em Paris em 1918
(Apollinaire morreu acometido pela Gripe Espanhola em 9 de Novembro de 1918)

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